Leite

 

SIMLANDÊS

Surge uma nova opção leiteira no Brasil

Miro Negrini

No contexto da pecuária leiteira, há quatro fontes de renda em potencial: vendas de leite, de novilhas, de bezerros e de fêmeas selecionadas. Os produtores brasileiros estão ávidos por melhorar o desempenho dos rebanhos, de olho nessas oportunidades de negócio. E para isso precisam de boa produção, úberes sadios e volumosos, baixa contagem de células somáticas e longevidade. Essas exigências mercadológicas têm levado criadores e pesquisadores a desenvolver cruzamentos que promovam produtividade em todos esses quesitos.

Nos últimos tempos, os produtores de leite têm investido na hibridação de raças europeias com zebuínas (como é o caso do Girolando), mas parece que o cenário deve mudar. Cruzamentos genéticos desenvolvidos nos últimos oito anos por produtores do Paraná ligados ao POOL ABC (Arapoti/Batavo e Castrolanda) – entidade que integra um seleto grupo de cooperativas de sucesso do País, formado por 754 sócios – vêm aprimorando uma nova raça híbrida com alto potencial econômico. O Simlandês, formado a partir da combinação de genes de animais das raças Simental e Holandês, foi apresentado oficialmente em agosto durante a Agroleite (Castro/PR), umas das principais feiras da pecuária leiteira.

Essa prática (Simental x Holandesa) já é comum na Europa há quase 40 anos e promete ser a alternativa mais consistente tanto para pequenos e médios produtores de leite como para grandes produções, inclusive aquelas que enfrentam problemas com o índice reprodutivo de seu rebanho. O cruzamento industrial da raça Holandesa com a Simental de dupla aptidão, cuja linhagem selecionada para a produção leiteira é chamada de Fleckvieh, resultou no Simlandês, animal 3/8 holandês e 5/8 Simental.

EXPERIENTO NACIONAL

Testes realizados em duas propriedades com controle de produção em animais em lactação demonstraram que as características da raça Simental em qualidade de leite são passadas com grande intensidade para as fêmeas F1 (vacas resultantes do cruzamento entre raças puras). As vacas em lactação mostraram excelentes porcentagens nos indicadores zootécnicos de efeito econômico: em média, o leite produzido obteve 3,98% de gordura, 3,45% de proteína e a lactose sempre acima da casa dos 4% com contagem de células somáticas (CCS) muito baixas, isto são 65 CCS, indicando uma excelente sanidade de úberes. A média da cooperativa está próxima de 450 CCS.

"Isso indica que o leite da vaca Simlandês não perde em nada para a vaca Simental pura, e com produção média na primeira cria em torno de 35 litros/dia", explica Luiz Geraldo Barreto Almeida, coordenador da Agroleite e um dos pesquisadores da nova raça. A vaca F1 mais velha na região de Carambeí, pertencente ao criador Alberto Reinaldo Los, Tieta Von Morello, de sete anos de idade, está na quinta cria e com um menor intervalo entre partos, de 345 dias. "Mostra uma fertilidade muito boa. Essa vaca teve seu pico de lactação com 70 quilos de leite/dia", completa.

No rebanho de Alberto Reinaldo Los (Fazenda Bela Vista, Carambeí/ PR) existem dezenas de vacas na mesma condição, sendo mais de 30% do rebanho composto por animais Simlandês, mesmo ele sendo tradicional criador de vacas Holandesas. O exemplo de Los tem sido utilizado para fomentar o Simlandês, já que ele pretende transformar toda a base do rebanho na nova raça, mantendo um plantel de exemplares Holandês puro para produção e cruzamento.

FLECKVIEH NA ÁUSTRIA

Mestiços Fleckvieh x Holandês são ordenhados na Áustria, República Checa, Eslováquia, França, Alemanha, Turquia, Itália, Holanda, Canadá, Colômbia, Costa Rica, EUA e no Reino Unido, e em toda parte o mesmo cenário: vacas produtivas fortes e duradouras, que podem ser mais rentáveis para os proprietários. Em média, a raça Holandesa pode produzir mais leite do que o Simental Fleckvieh. No entanto, este leite é produzido a um custo maior, o que impulsiona a hibridação e o conceito do Simlandês para o mercado, segundo os idealizadores.

Pesquisas feitas na Europa mostraram que a raça Holandesa vem exibindo aumento na endogamia e isso está reduzindo o desempenho reprodutivo. Na Áustria, vacas Simental Fleckvieh precisam de 15% menos palhetas de sêmen para emprenhar, resultado de uma melhor fertilidade. O Simental também apresenta baixo índice de mastite, custando menos em tratamentos, com menos leite jogado fora. Na experiência austríaca, o Fleckvieh apresentou 30% menos CCS que as fêmeas Holandesas. Outro aspecto apontado é que as vacas Fleckvieh, em média, vivem mais do que as Holandesas, cerca de meio bezerro a mais por tempo de vida. Ao considerar-se 2.000 vacas, por exemplo, isso pode fazer uma grande diferença.

O fato é que o cruzamento entre as duas raças pode proporcionar inúmeros benefícios para o rebanho, como melhoria da fertilidade da fêmeas e do sêmen, diminuição de problemas de parto e redução do intervalo entre partos. O Simlandês apresenta ainda elevados percentuais de gordura e proteína, maior longevidade e produção de vacas resistentes e fáceis de manutenção e redução de custos veterinários. Outras vantagens são a qualidade de úbere, os baixos índices de células somáticas, a excelente persistência de lactação, a boa produção em sistemas de pasto natural e mais valor comercial na venda da carcaça.

ALTERNATIVA COMPETITIVA

Aqui no Brasil a diferença é que o Simental está adaptado ao clima tropical e conquistou espaço como uma alternativa competitiva aos cruzamentos hoje feitos com raças zebuínas. "O Simlandês torna-se uma excelente alternativa para a pecuária leiteira brasileira em função do alto teor de sólidos e baixa contagem de células somáticas (CCS), pois, com o pagamento por qualidade de leite, estes fatores rendem ao produtor um acréscimo em torno de R$ 0,06 por litro de leite pagos pelo laticínio", lembra Alan Fraga, criador e presidente da Associação Brasileira de Criadores das Raças Simental e Simbrasil (ABCRSS).

O pagamento por sólidos totais (% na forma de proteínas, lactose, gordura, sais minerais e outros componentes de menor presença no leite) é a chave para o Brasil se tornar grande exportador de lácteos, caminho que seguiram Nova Zelândia e Austrália, para se consolidarem no mercado mundial. "Mesmo tendo somente 30% do leite de vacas Simlandês na Fazenda Bela Vista, o produtor já obteve um aumento significativo no volume total de sólidos produzidos, em função dos altos teores do leite destas vacas."

As vacas Simlandês também provaram ter maior longevidade do que a média de vida útil de uma Holandesa HPB: enquanto estas chegam ao máximo próximo dos cinco anos, existem casos comprovados de vacas na Áustria com mais de 15 anos e produzindo. As vacas Simlandês descartadas do rebanho também estão gerando uma renda superior. "A fêmea Simlandês de descarte rende, em média, um animal com 375 quilos, que, a preços de hoje, dá algo próximo de R$ 2.000,00,, enquanto uma Holandesa PB (em lactação), no descarte, rende R$ 400,00 no máximo", aponta Almeida. Mesmo após a lactação, as fêmeas mantêm o escore corporal e vão para o frigorífico bem terminadas.

Grandes produtores mundiais de leite já utilizam Simlandês

Outro fator que faz a diferença é o aproveitamento dos machos F1, que são criados confinados, alcançando 500 kg de peso vivo aos 13 meses, dando aos produtores uma renda extra. Bezerros podem ser terminados em confinamento confinamento à base de silagem de milho como volumoso e concentrado. Em 18 meses, chegam a pesar entre 18 e [email protected] e estão prontos para o abate, com rendimento de carcaça entre 54% e 58% no frigorífico. O bezerro holandês, por exemplo, é vendido na região de Castro/PR ao nascer por R$ 10,00 sem aproveitamento nenhum.

O cruzamento entre as duas raças pode proporcionar inúmeros benefícios

CRESCIMENTO DA RAÇA

Para Alan Fraga, presidente da ABCRSS, a expansão e a consolidação da nova raça estão baseadas na enorme necessidade que os produtores têm em aumentar rebanhos com mais velocidade e qualidade. Segundo Fraga existe uma escassez de novilhas puras no mercado e também há uma dificuldade natural na reprodução dessas fêmeas, fato que impulsiona os criadores a focarem nos cruzados.

Almeida já faz projeções: "O Simlandês vai ocupar o devido espaço pelo Brasil, principalmente, por conta da condição dos pequenos e médios produtores. É preciso corrigir características do rebanho, como habilidade reprodutiva e rusticidade para algumas regiões onde o gado puro não suporta o clima". Para ele, a bacia leiteira do Paraná, por exemplo, não seria o foco do produto cruzado. "Aqui as propriedades são muito tecnificadas. Mas o rebanho Simlandês vai muito bem onde o produtor tem problema quanto à longevidade produtiva, sanidade e a produção de sólidos no leite. Esta é uma alternativa viável economicamente para atender também o grande produtor."

Os resultados técnicos apresentados durante a Agroleite 2013 vão reforçar o pedido de registro da raça junto ao Ministério da Agricultura, encaminhado pela ABCSS. O processo depende, entretanto, do interesse dos produtores. "É o mesmo procedimento que a associação adotou para o registro do Simbrasil. Vamos acompanhar a evolução e o crescimento da população de animais em produção para fazer o pedido do registro do Simlandês como raça", conclui.