Caindo na Braquiária

 

Madeira-Mamoré – A mãe de Rondônia

Alexandre Zadra

O tráfego é intenso na BR 364, principal e única rodovia que atravessa todo o estado de Rondônia, ligando o Acre ao Mato Grosso, deixando eu e Daniel Carvalho, zootecnista responsável pela área de corte da empresa, tensos durante os 343 km percorridos em pista simples de Porto Velho a Ji-Paraná.

Pela primeira vez, o Circuito Feicorte NFT desembarcaria nesse jovem estado, que tem como "mãe" a estrada de ferro Madeira-Mamoré, ferrovia obrigada a ser construída pelo Tratado de Petrópolis em 1903, e que no ano de 1956 passou a se denominar Território Federal de Rondônia, em justa homenagem ao sertanista marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958).

Com um rebanho de 11,7 milhões de cabeças, a pecuária rondoniense abriga cerca de 8 milhões de bovinos destinados a corte, chegando a ocupar o posto de 5º maior exportador de carne do País, possuindo ainda 3,6 milhões de animais voltados a produção de leite, destacando-se como líder em produtividade no setor agropecuário leiteiro nacional, pois, de acordo com dados da Embrapa, o estado é responsável pela produção anual de 747 milhões de litros de leite, o que resulta em uma média de 487 litros da bebida por habitante por ano.

Tínhamos como objetivo principal da nossa viagem ministrar a palestra sobre o uso da genética na produção de carne durante o evento, etapa importante do circuito em Ji-Paraná, cidade com mais de 120.000 habitantes e polo da pecuária do estado. Não sem antes Mirivaldo Fernandes, veterinário experiente e nosso cicerone nas terras desbravadas pelo destemido marechal Cândido Rondon, nos proporcionou a grata visita à Fazenda dos Balau, com o intuito de conhecermos o sistema de integração lavoura-pecuária (ILP), que vem sendo solertemente executado pelo "Zéca", empresário ribeirão pretano.

Dentro dos 1.200 hectares do projeto pecuário da Fazenda Ribeirão Preto, localizada no município de Presidente Médici, são abrigadas em torno de 1.200 vacas, sendo em sua maioria Nelore, bem como matrizes meio-sangue e as não menos produtivas ¾ Nelore, com o intuito de produzir carne com eficiência máxima. Para tanto, a família decidiu lançar mão do projeto ILP, buscando o aumento de produção de carne com o maior aproveitamento possível do solo, que traz em sua composição boa porcentagem de argila, podendo, assim, ser utilizado para o plantio de culturas como milho, arroz e soja.

No âmbito genético, somente sêmen de touros Nelore provados e Angus são selecionados criteriosamente a fim de se gerar as matrizes de reposição da mais alta qualidade reprodutiva. A propriedade utiliza diversos grupos raciais, como fêmeas de reposição. Um dos pontos que nos chamou a atenção é o uso das novilhas e vacas ¾ Nelore na reprodução, as quais apresentam ótima precocidade sexual e habilidade materna, contradizendo na prática a visão avoenga dos zebuzeiros, que as têm como um animal inferior, já que não traz as características do zebu no fenótipo.

Já no sistema agrícola-pecuário, os Balau utilizarão, nessa safra, 200 hectares para a integração, plantando milho e capim juntos, tendo como preferência a Braquiária da variedade Piatã, forrageira de alta produção de massa verde que tem se adaptado muito bem ao sistema da fazenda. Com o uso de uma plantadeira própria para uma semeadura conjunta, plantando ao mesmo tempo a semente de capim e a de milho, os proprietários têm colhido em torno de 85 sacos de milho por hectare e rodado duas vezes mais gado em cada sistema de piquete rotacionado trabalhado no sistema ILP. No caso do manejo, as praças de alimentação são divididas em duas, para que, no mesmo conjunto de piquetes, possam ser manejados dois lotes de animais distintos, sendo que o primeiro que entra no sistema come a ponta do capim, regulando a entrada do segundo lote, que rebaixara o capim à altura desejada para descanso. Vale lembrar que no plantio das sementes de capim, juntamente a de grãos, deve-se administrar um atrasador de germinação para o capim.

O primeiro grande evento técnico do estado foi muito bem recebido por mais de 1.000 participantes, composto de 75% de pecuaristas dispostos a discutir temas relevantes com a profundidade proposta pela organização.

Certamente, o estado de Rondônia já se configura como um player importante no cenário agropecuário nacional, devendo, com o fortalecimento da agricultura, agora no centro do estado, se firmar com um dos maiores produtores de grãos e carne de qualidade do País.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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