O Confinador

 

DESTINO CERTO PARA RESÍDUOS DO CONFINAMENTO

Tiago Fernandes*

Com tendência muito forte à consolidação no País, e por ser visto como a solução para sobrevivência na atividade, o confinamento é considerado por muitos como forma de intensificar a atividade, aliviar as pastagens e terminar boi no menor tempo possível, obtendo maior liquidez do capital investido. É possível imprimir incrementos expressivos na produção de proteína animal. E mais: impulsionar a produção de grãos através da disponibilidade de áreas já ocupadas pelos bovinos que, em pouco tempo, cederão espaço para agricultura, e tudo isso sem a necessidade de abertura de novas áreas.

Todavia, apesar de todos os benefícios já observados, existem também as adversidades que envolvem todo o processo produtivo, dentre elas se pode citar a poeira, um dos maiores incômodo, e o barro. Ambos fazem parte do cenário de todos os confinaCONFINAMENTOmentos do país, independentemente da região na qual se encontra. Outro fator que muito preocupa é a pesada carga de esterco acumulada na área de confinamento, pois precisa ser removida periodicamente na estação seca, além de se tornar um inconveniente ainda maior quando o confinamento roda no período das águas, pois, de acordo com a intensidade das chuvas, pode ocorrer o transbordamento das lagoas de retenção de efluentes (grandes tanques escavados no solo com a finalidade de reter essa mistura de água da chuva, resíduos de ração, urina e esterco acumulados nos períodos secos do confinamento) e contaminar corpos hídricos, áreas de preservação permanentes, entre outros, prejudicando a fauna e a flora, dando margens a penalidades como a interdição da atividade e consequente aplicação de multas, além da responsabilização do pecuarista pelos danos ambientais.

Na tentativa de resolver esse problema, o pecuarista pode recorrer a duas soluções distintas, das quais uma delas visa ao aproveitamento do esterco sólido na adubação de lavoura e pastagens, e a outra, ao uso de um sistema de irrigação para aplicar o esterco líquido (efluentes), proveniente dos períodos chuvosos, nas mesmas.

Um exemplo a ser seguido é o do Confinamento São Lucas, em Santa Helena de Goiás (GO), dos irmãos Alexandre e Gustavo Parisi, que estão processando todo esterco sólido oriundo do confinamento de 22 mil bois, entre outros processos internos da propriedade que geram resíduos também aproveitados na produção de adubos organominerais, ou seja, todo esse material orgânico é recolhido, passa por um processo de compostagem com produtos próprios, além da adição de fosfatos minerais, macro e micronutrientes, entre outros. Todo esse adubo organomineral produzido na propriedade vai ser utilizado no plantio de 350 hectares de soja, o que vai contribuir para redução de investimentos com adubação química e ser bom ao meio ambiente, pois fecha o ciclo produtivo, uma vez que, ao remover esses sólidos do confinamento e utilizá-los na lavoura ou na pastagem, evita-se a contaminação do solo e de mananciais que fiquem nas proximidades. Proporcionando-se composto orgânico, garante-se uma maior fertilidade do solo, que está ligada diretamente a um consequente incremento na produtividade.

Outra alternativa para resolver o problema específico dos períodos de chuva é fazer o uso da irrigação para esvaziar a lagoa de retenção antes que ocorra transbordamento. Contudo, a finalidade principal desse sistema é evitar um acidente ambiental e/ou minimizar seus riscos e, em segundo plano, o aproveitamento do biofertilizante, que é um grande aliado na recuperação do solo, das pastagens e das lavouras.

E o sistema de irrigação recomendado para esse tipo de aplicação é o Carretel Enrolador, popularmente conhecido como "rolão", muito empregado em plantações de batata, tomate rasteiro, abóbora, e também muito utilizado na aplicação de vinhaça pelas usinas. É um equipamento preparado para resistir a produto corrosivo. Outra observação que deve ser considerada é a utilização de um conjunto de motor diesel para facilitar a mobilidade do equipamento entre as lagoas de retenção e também para que no período de seca possa ser manipulado de acordo com a conveniência.

O emprego de fertilizante orgânico traz vários benefícios. Somente na urina dos bovinos é possível encontrar uma diversidade de macro e micronutrientes, dentre os quais estão nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg), enxofre (S), ferro (Fe) e ácido indolacético, que tem função de repelente a insetos, além de auxiliar no desenvolvimento das plantas.

O uso dos efluentes oriundos do confinamento na fertirrigação, desde que respeitados os parâmetros técnicos de aplicação, só abona com ética e responsabilidade social o empreendimento e ajuda valorizar a atividade. Alguns parâmetros poderão ser adotados para contribuir com o sucesso desse processo durante a utilização de efluentes:

Efluentes são utilizados na produção de biofertilizante

• Somente devem ser empregados sistemas de irrigação que possuem controle de taxas de aplicação automático, como Carretel Enrolador (sendo este equipamento mais indicado para essa finalidade por tolerar o trabalho com resíduos ricos em fibras e resistir à corrosão própria do material orgânico), cumprindo assim exigências ambientais em vigor "Lei federal n° 4.771/1965", entre outras, pois o uso de equipamentos convencionais pode, a qualquer descuido, aplicar lâminas excessivas, podendo contaminar o solo e os mananciais.

Irrigação pode ser utilizada para esvaziar lagoa de retenção antes que transborde

• Recomendações técnicas devem ser seguidas também na quantidade dos resíduos líquidos aplicados. Para tanto, é recomendado basear-se em análise de solo e recomendações agronômicas para cada tipo de cultura, determinando, assim, a quantidade correta que deverá ser aplicada. No entanto, devem-se conhecer também as propriedades dos resíduos líquidos (através de análise laboratorial), utilizando os dejetos líquidos de maneira correta, tanto tecnicamente, como ecologicamente.

• Empregar equipamentos de irrigação em bom estado de conservação, além do uso de tubos novos e conexões apropriadas, além de vedações, diminuindo consideravelmente os riscos de vazamentos, contaminação do solo e de corpos hídricos.

• Recomenda-se fazer revisões periódicas nos equipamentos utilizados na aplicação de resíduos líquidos a cada 90 dias. É recomendável limpar o cesto de sucção, reapertar parafusos, revisar todo conjunto motobomba, tubos (possíveis furos, amassados ou defeitos), vedações dos tubos (vedações danificadas, cortadas, mal colocadas, etc) e conexões com defeitos, mal colocadas, causando também vazamentos no sistema.

• Lembre-se que não está aspergindo água limpa. E que, por se tratar de um fertilizante, devemos cuidar dos vazamentos, do tempo e da quantia aplicada, pois os maiores prejudicados somos nós, que dependemos de recursos hídricos, tanto para beber água como para abastecer nossos plantéis de animais e produzir alimentos.

*Fernandes é técnico agrícola e projetista da Rocha Irrigações – [email protected]