Genética

 

Preparado para o CASAMENTO

Alfredo Bonet Drissen*

A pecuária do Brasil passa por um momento único, estamos caminhando – a passos largos – para uma padronização jamais vista. A medição dos resultados, a busca por melhores índices, a competição com a agricultura e a globalização no negócio pecuário têm tirado os nossos pecuaristas das zonas de conforto, fazendo com que paradigmas se quebrem e que um novo modelo de negócio se forme.
Seria isso mesmo?
Se deixarmos o positivismo um pouco de lado e avaliarmos as médias de produtividade do rebanho brasileiro, percebe-se que ainda estamos muito aquém dos objetivos. A taxa de desfrute ainda beira os 20%, as pastagens ainda têm altos índices de degradação, o sistema de abate ainda não possui uma tipificação unificada e, de quebra, ainda temos de conviver com sérios problemas logísticos, que elevam em muito os custos de produção.

Ocorre que a mudança ou estagnação de qualquer negócio depende única e exclusivamente da percepção e posterior ação daqueles que o conduzem. Se isto for verdade, existe uma forte tendência de mudanças no médio prazo, pois nunca se falou tanto em eficiência, estruturação dentro das porteiras ou se teve tanto orgulho de ser pecuarista.

Na escolha de um novo modelo de negócio que seja capaz de transformar os números dentro de uma porteira, surgem inúmeras tecnologias capazes de auxiliar na empreitada, algumas condizentes com a realidade brasileira e outras nem tanto. Uma delas – e que vem sendo usada cada vez mais de forma correta – é o cruzamento industrial, principalmente devido à percepção da cadeia como um todo de que apenas vigor híbrido (heterose) não é suficiente para garantir sucesso no médio prazo. É necessário lembrar do valor da complementariedade entre raças, das fêmeas que resultarão do cruzamento pretendido e que, eventualmente, poderão ficar na fazenda, e, principalmente, da visão de um novo modelo baseado na eficiência do sistema.

Alinhando com a pecuária do Brasil, o Hereford é uma raça de origem britânica, criada no Sul do Brasil desde 1906 e que há 55 é orientada pela Associação Brasileira de Hereford e Braford, uma das mais tradicionais associações do País, formada, na sua grande maioria, por pessoas que efetivamente vivem do campo e que buscam constantemente melhorar os índices da pecuária através de um programa de melhoramento genético próprio, o PampaPlus (em parceria com a Embrapa), e sucessivas provas de avaliação a campo que buscam avaliar animais sob as reais condições da pecuária brasileira.

Nos últimos anos, o cruzamento de Hereford em vacas zebuínas vem aumentando consideravelmente, impulsionado por diversos motivos, dos quais se pode citar a possibilidade de combinar carne de qualidade, peso de carcaça, temperamento dócil, rusticidade e eficiência alimentar.

Os "caras-brancas" já são vistos em diversos rincões do Brasil, um trabalho ancorado na racionalização. A meta não é ser a raça da moda, tampouco ter a pretensão de ser a solução da pecuária do Brasil. O objetivo é se mostrar como opção rentável e capaz de colaborar para melhoria dos índices da pecuária brasileira.

E o que norteia o cruzamento industrial são os machos chegarem mais rápido ao abate e as fêmeas serem boas mães e emprenharem precocemente enquanto mantidas no plantel. "Quando usamos animais britânicos, temos ainda outro fator positivo, a qualidade da carne, que possui valor agregado maior, e, em boa parte do Brasil, já se bonifica carne destes animais", acredita Luís Gustavo Luvisa, médico-veterinário da Reproduzir Assessoria Veterinária (Espigão do Oeste/RO).

Ele começou a usar Hereford em Rondônia ao procurar bovinos que produzissem carne de qualidade e um peso maior de abate, aliado à docilidade. "Estamos otimistas com os primeiros nascimentos de bezerros F1 de Hereford", declara o veterinário.

PAMPAPLUS

Iniciado em 2009 por meio da parceria firmada com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e seu programa de melhoramento, o Geneplus, o PampaPlus é referência na qualificação dos rebanhos, sendo norteado pelos anseios dos produtores e inspetores técnicos credenciados na Associação Brasileira dos Criadores de Hereford e Braford (ABHB). Os dados utilizados pelo programa são coletados no campo e inseridos em um sistema para o gerenciamento de informações para simular os diversos índices de desempenho do rebanho.

Através dos resultados mostrados pelo PampaPlus, o produtor tem em mãos uma forma de otimizar a seleção e o acasalamento dos animais e utilizar reprodutores com índices desejados para a melhoria de características de valor econômico, entre várias outras vantagens. O presidente da ABHB, Fernando Lopa, comenta que a entidade busca, com o programa, promover coletivamente os conhecimentos adquiridos com as raças Hereford e Braford, aprimorando a genética através do registro sistemático das experiências dos criadores.

Esse método auxilia a atingir maiores níveis de eficiência produtiva e, consequentemente, incrementar a rentabilidade da atividade pecuária. "Apenas ocorrerá melhoramento genético de um rebanho quando aquele que decide os acasalamentos tem objetivos claros e bem determinados, buscando saber o que realmente influencia na lucratividade da produção", esclarece Fernando Lopa, presidente da ABHB.

PROGRAMA DUPLA MARCA

Há mais de 30 anos a ABHB concede uma marca distintiva aos animais destacados em programas de melhoramento homologados. O programa tem como objetivo destacar os animais que apresentem um diferencial genético associado à excelente padrão racial com características que os classifiquem como animais melhoradores.

Para um exemplar receber a dupla marca, o primeiro passo é estar entre os 30% melhores no relatório inter-rebanhos do programa realizado aos 18 meses (sobreano). Também são candidatos aqueles submetidos a Provas de Avaliação, como o PAC HB, e estarem entre os 30% melhores classificados na mesma.

Logo após, é realizada uma avaliação fenotípica por inspetor técnico credenciado, o qual concederá mérito genético ao animal, que receberá a dupla marca: HH ou BB na paleta esquerda. "O Dupla Marca é considerado um dos mais rigorosos programas de seleção do mundo, pois o candidato, além de ter mérito genético, ainda é submetido ao crivo dos inspetores técnicos, o que faz com que somente 18% da população anual de touros de cada safra recebam a distinção", explica Fernando Lopa.

*Drissen é superintendente administrativo da ABHB e gerente do Programa Carne Pampa


PampaPlus lança ferramenta na web

O PampaPlus lançou neste ano uma ferramenta online para facilitar a coleta de dados dentro das propriedades. O PampaPlus Net foi desenvolvido pelo Laboratório de Bioinformática e Estatística Genômica da Embrapa Pecuária Sul em parceria com a ABHB e o PampaPlus para que o próprio criador cadastre nascimentos e avaliações dos animais ao desmame e sobreano. Ao efetuar o login no PampaPlus Net, o criador tem acesso aos dados do programa, diferenças esperadas na progênie (DEPs) e genealogias de reprodutores e matrizes da raça Hereford e Braford, sendo uma ótima ferramenta de pesquisa e que auxilia o melhoramento genético dos rebanhos no País.