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Fábrica de BEZERROS

Em dez anos, IATF cresce 40 vezes no País e a eficiência pode melhorar ainda mais

Luiz H. Pitombo

No ano passado, 8 milhões de fêmeas bovinas, 75% delas das raças de corte e 25% das de leite, tiveram ovulação sincronizada para realização da inseminação artificial em tempo fixo (IATF). Este volume representa 65% de todas as inseminações realizadas no País, que beneficiaram em torno de 10% das fêmeas em idade reprodutiva.

Estes números revelam o quanto a técnica ainda pode crescer. Na média do País, o intervalo entre partos (IEP) é calculado em 17 meses e o período de serviço (parto até concepção) em 225 dias. Tais índices mostram uma baixa eficiência, que pode ser superada com técnicas como a IATF, que permite à fêmea ficar gestante entre 70 a 80 dias da parição, com o IEP caindo para os ideais 12 meses com produção dos almejados bezerros.

Este é um dos fatores importantes que ajudam a mostrar seus benefícios e a justificar parte de sua evolução, particularmente nas fazendas de pecuária de corte, como aponta Lino Rodrigues Filho, presidente da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). Mas ele também destaca a falta de mão de obra nas fazendas para se realizar o processo da inseminação artificial (IA) convencional, que passou a ser suprida por equipes terceirizadas que prestam todo o serviço da IATF e hoje respondem por mais de 70% da aplicação, como estima o dirigente.

retomada do cruzamento com raças taurinas e a valorização destes produtos igualmente estimulam o uso, bem como também a concentração dos trabalhos num período curto de tempo. Outro atrativo é possibilitar a programação dos nascimentos num momento desejado, com a obtenção de lotes homogêneos de bezerros de qualidade, além de viabilizar o trabalhar com volumes grandes de fêmeas. Vale lembrar que a dificuldade de observação do cio para a IA se acentua com fêmeas zebuínas, pois essas o apresentam num período de tempo mais curto, além do que animais a pasto com bezerro ao pé tendem a não ciclar. Com a IATF, fica dispensado o desmame precoce.

O próprio interesse dos laboratórios que fabricam os produtos utilizados é outro elemento que contribuiu para sua expansão nos animais de corte em função expressivo contingente de matrizes, como lembra Rodrigues Filho.

NOVOS USUÁRIOS E EFEITO DO SÊMEN

O presidente da Asbia comenta que não existem dados que permitam identificar claramente quem são os usuários responsáveis pelo incremento da IATF, mas considera que houve crescimento tanto por parte daqueles que já realizavam IA convencional como também por outros pecuaristas que passaram a adotar a técnica.

Como existem touros que, por razões individuais, se mostram melhores em seus resultados a campo que outros, centrais realizam levantamentos entre clientes e veterinários, formando grupos de reprodutores mais indicados aos pecuaristas. No entanto, Rodrigues explica que a entidade, empresas do setor e pesquisadores iniciam estudos que irão estabelecer quais as melhores análises para se obter tais resultados no laboratório, sem precisar ficar na dependência da coleta de dados de campo.

Neimar Correa Severo, membro da diretoria da Asbia, avalia que grande parte dos problemas que interferem no resultado da IATF estão relacionados ao manejo, à sincronização e à maneira que é feita a IA. Mas ele também aponta a influência do efeito do touro, exemplificando que enquanto uns podem resultar em elevados índices de 70% de prenhez, outros ficam nos 40%, mesmo com todo o cuidado que se tem nas análises de laboratório das centrais, salienta. Ele também aponta que, em função do processo de sexagem, os resultados obtidos com este tipo de sêmen fica perto de 50%, abaixo do produto convencional. Contudo, há indicações de como elevar estes resultados com ajustes nos procedimentos da IATF

No momento atual, uma preocupação que chama a atenção é em relação à contratação dos veterinários. Rodrigues Filho ressalta que a demanda aquecida favorece aqueles profissionais que cobram pouco, mas que podem ter pouca experiência e comprometer os resultados. De qualquer forma, a perspectiva que enxerga para os próximos anos é de um contínuo crescimento da IATF, inclusive com evolução no leite, e uma proporcional redução da IA convencional.

Veterinários qualificados são fundamentais para o retorno econômico

CONTROLE DAS VARIÁVEIS

"Com a IATF a fazenda torna-se uma fábrica de produzir bezerros", compara o médico-veterinário Pietro Sampaio Baruselli, destacado pesquisador da Universidade de São Paulo (USP/FMVZ).

Atualmente, comenta que, em geral, se atinge 50% de prenhes a cada IATF, "o que não é ruim", como avalia. No entanto, diz que as melhores fazendas já chegam a 60%, enquanto as tops batem em 70%. Estes são trabalhos impecáveis, com todas as etapas extremamente controladas, quer as relacionadas ao ambiente ou aos processos.

Os protocolos disponíveis demoraram anos para serem estabelecidos e estão plenamente definidos e com um patamar de resultados que não têm muito o que mudar através da ciência, como avalia Baruselli, que também preside a Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões (SBTE). No entanto, diz que um problema que prejudica os resultados é quando pessoas o alteram acreditando que o vão melhorar, mas acabam por comprometer o trabalho. Para se ter bons resultados, é necessário contar com equipe bem treinada e comprometida com os resultados, que vai seguir à risca os processos e fazer as devidas anotações sobre as vacas.

O veterinário reforça que o sucesso com a técnica é fruto de uma somatória de elementos, como o bom manejo nutricional, pois as fêmeas necessitam estar com escore corporal adequado, em torno de três, numa escala de um a cinco. Animais com escore 2,5, em condições naturais, não chegam a manifestar, mas, para não ficarem paradas, Baruselli diz que poderão ser sincronizadas, embora as taxas de prenhez sejam menores, de 30% a 40%. Ele acrescenta que as primíparas representam uma categoria especialmente sensível ao aspecto nutricional.

A parte sanitária também merece especial atenção - antes, durante e depois do processo - para doenças como leptospirose, IBR/BVD, brucelose e outras, devendo se utilizar vacas que não apresentam doenças infecciosas que possam comprometer a reprodução.

A logística do manejo requer planejamento apurado, evitando que os animais sejam molestados desnecessariamente. É preciso se atentar à localização dos piquetes, do curral e à formação de lotes homogêneos de animais. Outro aspecto importante que o veterinário indica é para a qualidade do curral, das instalações e dos equipamentos, pois os animais precisarão ficar contidos adequadamente. "Caso não se tenha estas instalações, é claro que um programa desses não poderá ser feito", comenta.

Quanto à escolha do sêmen, reforça a necessidade de se buscar aqueles de maior fertilidade na técnica, oriundos de empresas especializadas e que sejam de alto valor genético para a produção de bons bezerros. Com o sêmen sexado, Baruselli explica que se tem resultado inferior, por sua menor viabilidade no trato genital da vaca. No entanto, diz que é possível melhorar taxas de prenhez para perto de 80% do sêmen convencional, ao se inseminar com "atraso" de 6 horas, em relação ao sêmen convencional, e, portanto, mais próximo da ovulação.

DIFERENTES SITUAÇÕES E PROTOCOLOS

Baruselli calcula que cada prenhez de IATF fique em torno de R$ 45/animal, considerando o mesmo valor de R$ 15 para os produtos usados no protocolo, para a dose do sêmen e a mão de obra. Tomando por referência um lote de 100 vacas, o montante investido chega a R$ 4.500, valor que se paga plenamente e ainda deixa o adicional de R$ 8.020 ao se considerar os ganhos adicionais gerados pelo aumento na taxa de concepção, maior peso a desmama - por serem filhos de touros provados - e antecipação da concepção.

Existem diferentes maneiras para se introduzir a técnica dentro de uma estação de monta, que dependerá das características da fazenda e das metas desejadas. "Não existe receita, pode ser utilizada uma única sincronização com repasse com touro que já se atinge redução do IEP, ou até três sem a necessidade de touros", comenta Baruselli.

No primeiro caso, o trabalho de sincronização começa 40 dias após o parto e se prolonga por dez dias (veja esquema ilustrativo A, na página 17). Realizada a IATF, é introduzido o touro de repasse após dez dias, sendo que o retorno ao cio das fêmeas vazias ocorrerá 21 dias após a inseminação, com variações de 18 a 25 dias. Como existe uma concentração deste cio, não será possível a redução do número de touros, devendo-se manter um reprodutor para cada 20/25 vacas até o fim da estação de monta, que terá duração de 90 dias. Com este manejo, é possível se alcançar de 70% a 75% de prenhez já nos primeiros 25 dias da estação, e de 80% a 90% ao final dela.

Com a IATF, a fazenda torna-se uma fábrica de produzir bezerros, destaca Pietro Baruselli

O outro sistema que o veterinário comentou, de três IATFs (esquema ilustrativo B, na página 17), surgiu após os bons resultados de pesquisa obtidos com uma ressincronização. Como no caso anterior, a primeira sincronização começa 40 dias após o parto, com o diagnóstico de gestação por ultrassom ocorrendo 30 dias após a inseminação. Um novo protocolo de sincronização tem aí início, com a segunda IATF ocorrendo dez dias depois. Novamente, 30 dias se passam antes do segundo diagnóstico de gestação, quando a terceira sincronização se inicia, permitindo a última inseminação ao término da estação de monta aos 80 dias. A taxa de prenhez por inseminação artificial fica em torno de 88% (50% na primeira IATF, 50% na segunda e 50% na terceira).

Vale lembrar que, ao se optar por duas IATFs, o repasse final com touros poderá ser com uma proporção diferente, ou seja, um reprodutor para 40 vacas, uma vez que 75% das fêmeas já estarão prenhas. Baruselli defende o uso de sêmen pelos importantes ganhos genéticos que traz, alertando que, no caso do uso de touros de repasse, se procure animais de qualidade oriundos de programas de melhoramento.

Os protocolos de aplicação dos produtos apresentam algumas variações, a depender se forem fêmeas zebuínas ou taurinas, com os resultados finais sendo equivalentes, desde que respeitadas as respectivas particularidades, informa Baruselli. Também existem variações a depender da categoria, se são vacas ou novilhas, especialmente para esta última de sangue zebuíno. "Elas não podem ser com excesso de progesterona, pois poderá bloquear a ovulação", adverte. Quando do uso de implantes com este hormônio, o veterinário diz que tanto os auriculares como os vaginais funcionam bem. Segundo informa, os hormônios aplicados são iguais aos que o animal produz e, se ajustados nas quantidades corretas, não acarretam problemas.

Baruselli comenta que a raça Nelore tem conquistado precocidade na seleção de fêmeas, que já ciclam aos 14 meses, por exemplo. No entanto, diz que, em geral, nos rebanhos comerciais estas ainda se mostram tardias. De acordo com o veterinário, a IATF poderia ser utilizada em situações pontuais, por exemplo, para otimizar a produção de bezerros e quando se utilizaria reprodutores que imprimissem essa característica, iniciando-se um processo de seleção e descarte das tardias.

PIONEIRISMO RECOMPENSADO

A Agropecuária Estrela do Céu, em Lavínia, região de Araçatuba, no noroeste do estado de São Paulo, está entre as primeiras propriedades a utilizar a IATF no País, em 2002, quando ainda estava em fase de pesquisa e em ajustes pelo grupo do médico-veterinário Pietro Baruselli.

Passados mais de dez anos, o pro- Estações de monta com o uso de IATF prietário, Álvaro Borges, não pensa duas vezes e garante "a IATF funciona perfeitamente". Na estação de monta do ano passado, com duração de três meses, entre setembro e dezembro, obteve elevada taxa prenhez de 81,7%, com 914 matrizes, utilizando nas vacas uma IATF seguida do repasse com touros, ou com uma ressincronização para as primíparas, seguida também de repasse.

A base do rebanho é Nelore com cruzamento com Angus, utilizando neste caso repasse com touros Brahman ou Nelore. Nas fêmeas F1 Angus/ Nelore, que estão sendo retidas para aumentar sua presença no rebanho, a inseminação é feita com Brahman e repasse com touros Braford ou Brangus.

isadores até hoje, Borges comenta: "Não tenho medo não, pois nós precisamos deles e eles de nós". Na parte sanitária, foi buscar a assessoria de Iveraldo Santos Dutra, da Unesp de Araçatuba, enquanto que para IATF utiliza os serviços do também médicoveterinário Márcio Marques, do Paraná, que igualmente participa dos trabalhos de Baruselli e que se juntou à Estrela do Céu logo no início do uso da técnica.

Borges, que presidiu a Câmara do Boi Gordo, da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), tem sua atividade centrada na cria e, para a comercialização de sua safra de bezerros, criou um leilão em 2000 que vem ocorrendo sempre ao final de abril. A data foi estratégica, pois os remates são escassos no período e com isso existe a possibilidade de preços melhores.

No entanto, sua propriedade tinha uma estação de monta de seis meses e se desejava uma oferta mais concentrada desses animais, fatores que o atraíram para a IATF. Além disso, ao antecipar os nascimentos, conseguiria bezerros de maior peso, que lhe renderiam valores mais atraentes. "Um bezerro que chegue ao leilão com dez meses de idade pesará de 40 kg a 60 kg a mais, que, cotado a R$ 4,00/kg, rende R$ 200,00/cabeça a mais, na média", explica.

O pecuarista diz que praticava a desmama precoce para melhorar a reconcepção das matrizes, técnica que não precisa usar mais e que se mostrava mais onerosa que a IATF. Uma dificuldade que tinha era a da mão de obra para as inseminações, visando ao cruzamento industrial, mas diz que passou a terceirizar o trabalho com a IATF. Esta questão da mão de obra, aliada a um bom curral e animais bem nutridos, são aspectos fundamentais, como aponta, para o sucesso da técnica. Ele acrescenta a necessidade de se ter um planejamento adequado e ficar atento à qualidade dos touros e do sêmen, "são muitas as variáveis que afetam a técnica", reconhece Borges. Ele lembra especialmente de um ajuste importante que necessitou fazer no curral, que foi a concretagem do piso para evitar a formação de lama.

O veterinário Márcio Marques, satisfeito com os resultados e índices obtidos hoje, conta que o manejo das primíparas foi um gargalo que mereceu mais atenção e precisou ser enfrentado, pois os índices de prenhez estavam em 35% na IATF. Na ocasião, elas eram manejadas no mesmo lote das multíparas, de maior porte e que exerciam competição, prejudicando a nutrição.

Para Neimar Severo, grande parte dos problemas que interferem no resultado estão associados ao manejo

Desta forma, passou-se a manejá-las em lotes separados, mantendo-as nos melhores pastos e com o fornecimento de sal proteinado na seca e energético nas águas, além da adoção de uma ressincronização. "As novilhas de primeira cria ainda estão em fase de crescimento e amamentam um bezerro, assim precisamos fazer com que emprenhem logo, antes que percam sua condição corporal", explica Marques.

Pioneiro na IATF, Álvaro Borges procura manter relacionamento próximo com especialistas

Realizada a primeira inseminação, 23 dias depois todas as fêmeas desta categoria recebem implantes, iniciando o processo para a segunda IATF. Após oito dias, estes são retirados e todas são submetidas ao diagnóstico de gestação por ultrassom, quando as prenhas são apartadas e as demais continuam no processo até serem novamente inseminadas em 48 horas. Os touros de repasse entram 15 dias depois, na proporção de 1:20, e aí permanecem até o fim da estação de monta.

No caso das vacas, a sincronização também começa 30 dias após o parto, com a IATF ocorrendo dez dias depois. Como no caso das primíparas, os touros de repasse entram após 15 dias. A proporção adotada é a de 1:20 ou 1:25, o que pode ser alterado para cerca de 1:50 após um período inicial de 24 dias, quando ocorre o pico de retorno ao cio.

Em outra propriedade no município de Agudos/SP são mantidas as fêmeas jovens nulíparas, que respondem bem à cobertura com touros e que por dificuldade de mão de obra não foram submetidas à IATF. Não existem limitações da técnica para essa categoria, informa Marques, desde que estejam ciclando.

O veterinário tem cuidado especial com a qualidade do sêmen e a escolha dos melhores animais para a técnica, sendo que todo o sêmen é submetido a novos testes antes de ser utilizado. Ele considera que a qualidade do sêmen precisa melhorar no País.

Álvaro Borges avalia que os investimentos e os custos com a IATF compensam e que irá continuar a utilizá-la. Por outro lado, comenta que está aberto a participar de pesquisas e a testar possíveis novos protocolos.