Entrevista do Mês

 

Desvendando MISTÉRIOS

Promover uma adubação mal-feita pode ser tão ou mais prejudicial do que não fazer nada. Para entrar a fundo na questão, convidamos Adilson de Paula Almeida Aguiar, da Consupec, um "oráculo" quando o assunto é correção e adubação de pastagens no Brasil.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Antes vista como "cultura inútil", a adubação de pastagens passou a entrar na pauta do criador de gado?

Adilson de Paula Almeida Aguiar – O interesse do produtor em relação à adubação da pastagem é crescente, entretanto, a adoção desta tecnologia ainda é inexpressiva. Em 2012 foram vendidos, no Brasil, 29,5 milhões de toneladas de fertilizantes, dos quais 80% para soja, milho, cana, café e algodão. Para pastagens, foram 418 mil toneladas, apenas 1,42% do total comercializado, sendo aplicados em somente 1,22% da área de pastagens disponíveis no país.

Revista AG - Quando eu sei que meu pasto está pedindo socorro?

Adilson de Paula – Quando os fatores a seguir ocorrem em sequência. 1) Redução da produção de forragem por causa da competição com invasoras, superpastejo ou queda de fertilidade do solo. 2) Diminuição da capacidade de suporte (UA/ha). [UA (Unidade Animal) é equivalente a um animal de 450 kg.] Entre o 1º e 2º ano após plantio, a perda varia entre 20% e 40%, atingindo 50% no 5º ano. Em UA/ha isso representa uma queda de 1 a 2 UA/ha no 1º ano para 0,50 a 1 UA/ha a partir do 5º ano. 3) Queda do desempenho animal em virtude da menor qualidade do pasto, de 0,50 a 0,70 kg/dia, para 0,30 a 0,40 kg/dia. 4) Menor produtividade por hectare: arrefecimento de 360 a 760 kg de peso corporal no 1º ano, para 82 a 219 kg/ha a partir do 5º ano. 5) Aparecerão sintomas visuais na forrageira, tais como diminuição no comprimento e na largura da folha, recuo na altura da planta, mudança de uma coloração verde-escura para verde-amarelada ou alaranjada, envelhecimento precoce de folhas. Outro sintoma é o aparecimento de áreas de solo expostas dentro do piquete, sem cobertura viva (vegetação) ou morta (palha). Se, desde o primeiro ano de implantação e condução da pastagem, fosse feita análise de solo, seria possível observar a queda nos teores de nutrientes ao longo dos anos. Entretanto, eu preciso ser enfático: o produtor não é capacitado para realizar este diagnóstico com base em parâmetros mensuráveis, mas consegue perceber que algo precisa ser feito.

Revista AG - Um pasto bem nutrido é capaz de reduzir a necessidade de suplementação alimentar dos animais?

Adilson de Paula – Sim. Em síntese os potenciais de ganho médio diário (GMD) em pastagens tropicais/subtropicais em solos de baixa fertilidade natural, sem correção/adubação, são de 0,3 a 0,5 kg/dia, enquanto que nos mesmos solos com correção e adubação o GMD alcança 0,6 a 0,7 kg/dia. Em áreas partejadas por vacas em lactação, os potenciais de produção de leite variam de 5 a 8 litros/vaca/dia em solos de baixa fertilidade natural, sem correção/adubação, enquanto nos mesmos tipos de solos, uma vez corrigidos e adubados, a produtividade alcança entre 10 a 12 litros de leite/vaca/dia. Em ambos os sistemas citados, os potenciais de desempenho animal são alcançados apenas com suplementação mineral.

Revista AG - Projetar um aumento de produção superior a 1UA/ha ajuda a planejar a adubação?

Adilson de Paula – É um parâmetro que pode ser usado. No capítulo sobre correção e adubação de solos de pastagens do Boletim de Recomendações para uso de corretivos e fertilizantes, em Minas Gerais, os autores adotaram este parâmetro. Para esta meta de taxa de lotação, recomendam a aplicação de 50 kg de N (nitrogênio)/ha/ano. Para 1 a 3 UA/ha (nível tecnológico médio), sugerem entre 100 a 150 kg de N/ha/ano. Para 3 a 7 UA/ha (nível alto), recomendam 200 kg/ha/ano e, para metas acima de 7 UA/ha (muito alto), 300 kg de N/ha/ano.

Revista AG - Qual a diferença entre correção e adubação de pastagens?

Adilson de Paula – As práticas corretivas (calagem, gessagem, fosfatagem, potassagem, etc.) têm como finalidade ajustar a fertilidade dos solos, elevando os teores dos nutrientes dos mesmos, para que as adubações de produção sejam maximizadas. As práticas corretivas têm a finalidade de melhorar a fertilidade de um solo naturalmente pobre para níveis altos a muito altos. Explicando de forma mais simples: "A correção seria para o solo, enquanto as adubações são para a planta".

Revista AG - Diferentes capins têm necessidades distintas de nutrientes? É possível apontar a demanda nutricional das três principais forragens?

Adilson de Paula – Todos os nutrientes essenciais e úteis os são para todas as plantas, mas as concentrações requeridas são diferentes. Por exemplo, para o grupo de forrageiras mais exigentes em fertilidade de solo, tais como os capins Tanzânia e Mombaça, os teores médios de N (nitrogênio), P (fósforo), K (potássio) e S (enxofre) exigidos são de 20, 2, 22,5 e 2 g/kg de matéria seca, respectivamente. Já no grupo de forrageiras classificadas como de média e baixa exigência, tais como o Capim-braquiarão e a Braquiária Decumbens, os teores médios de N, P, K e S são de 16,5, 1,9, 16 e 1,65 g/kg de MS, respectivamente.

Revista AG - Qual o erro mais comum do pecuarista quando nos referimos à adubação?

Adilson de Paula – Eu vou responder relacionando os principais erros cometidos pelos produtores, pois já foi citado: os adultos aprendem mais com os seus erros. Não fazer análise de solo; coletar amostra incorretamente (épocas e profundidades erradas, número insuficiente de amostras simples para envio ao laboratório); análise incompleta, faltando textura e micronutrientes, entre outros; aplicação de corretivos e fertilizantes em excesso ou subdosagem (mais frequente); correção e adubação quando já em estágios avançados de degradação; ineficiência na colheita da pastagem; falta de ajuste da taxa de lotação à capacidade de suporte do pasto, resultando em sub ou superpastejo; e colocar animais com baixo potencial genético em pastagens adubadas. Todas estas falhas levam a frustrações e desânimo em relação à adoção da tecnologia e todos possuem solução.

Revista AG - Fazer uma adubação mal-feita é tão ou mais prejudicial do que não fazer nada?

Adilson de Paula – Sim, porque a adubação "mal-feita" implica em aumento de custos com a compra de corretivos/adubos, frete e operações para aplicação. Somam-se ainda riscos de intoxicação dos animais e de contaminação do meio ambiente, além de não obter a resposta econômica esperada.

Revista AG - Todo produtor diz que adubar é caro. Apesar dele não levar em conta os benefícios gerados, existe alguma forma de reduzir custos?

Adilson de Paula – Em média, para cada R$ 1 gasto com o manejo da fertilidade do solo (correção e adubação), o pecuarista precisará gastar entre R$ 5 a R$ 7 na compra de animais. O caro não é corrigir e adubar, mas, sim, comprar mais gado. Apesar disso, em 22 anos avaliando a viabilidade econômica da intensificação da produção animal em pasto através da tecnologia da correção e adubação, em, praticamente, todos os anos observei resultados positivos. Em 2012, por exemplo, a cada R$ 1 investido pelo criador em corretivos e fertilizantes ele obteve R$ 2 de lucro.

Revista AG - A adubação de pastagens se resume ao complexo N, P, K, S (nitrogênio, fósforo, potássio e enxofre, respectivamente) ou vai muito mais além?

Adilson de Paula – Dezoito nutrientes são essenciais ao crescimento das plantas e são classificados em minerais e não minerais. Os não minerais são carbono (C), hidrogênio (H) e oxigênio (O), que correspondem de 90% a 95% da matéria seca (MS) das plantas e são assimilados via fotossíntese. Os minerais essenciais são 15 e correspondem de 5% a 10% da MS. São eles nitrogênio, potássio, fósforo, enxofre, cálcio, magnésio, boro, cobalto, cobre, ferro, manganês, molibdênio, níquel, selênio e zinco. O silício está fora da lista, mas é classificado como um nutriente útil. É importante esclarecer que os nutrientes têm relações sinérgicas e antagônicas, todavia, quando as adubações são feitas criteriosamente, essas relações são benéficas, com um nutriente potencializando a resposta de outro.

Revista AG - Por que o desequilíbrio entre calagem, gessagem e fornecimento de micronutrientes provoca efeito catastrófico no desenvolvimento do pasto?

Adilson de Paula – Porque gera desequilíbrios nas relações citadas. Em consequência, ocorrem perdas significativas de nutrientes pelos processos de lixiviação, volatilização e fixação.

Revista AG - O que é balanço de massa e quem criou este modelo?

Adilson de Paula – É um modelo matemático que possibilita a inclusão de todos os compartimentos de um ecossistema de pastagem, que são atmosfera, solo, forrageira, animal e insumos utilizados (suplementos, corretivos e fertilizantes). Estes compartimentos contribuem com entradas e com saídas de nutrientes que ciclam no sistema da pastagem. Essa proposta não é nova, pois, ainda na década de 70, pesquisadores americanos, ingleses e neozelandeses sugeriram a construção de modelos de balanço nutricional do sistema solo-planta-animal para recomendar adubação e avaliar a sustentabilidade de pastagens.

O software brasileiro é resultado de 17 anos de estudos de revisões bibliográficas e de pesquisas conduzidas por mim. Após ministrar dez cursos com duração de três dias desenvolvendo cálculos do modelo em sala de aula e depois elaborar mais de uma dezena de planilhas eletrônicas, entreguei todo esse banco de dados para meu colega zootecnista Mateus Contatto Caseta. Depois de elaborar nova planilha, a qual foi validada por nossos colegas em trabalhos de campo, fizemos uma parceria com uma empresa de Goiânia/GO, para a produção da ferramenta em questão.

Revista AG - Como ele pode ajudar a direcionar a correção e a adubação dos pastos?

Adilson de Paula – Este software possibilita a inclusão do índice pluviométrico e da análise de solo da propriedade, as metas de produtividade em unidades animais/ha ou em litros de leite ou kg de carne/ha; a composição química da forragem e dos suplementos utilizados, a quantidade de suplementos que entram no sistema e medir as eficiências de conversão dos insumos, entre outros. O modelo calcula as doses de calcário, de N, P, K, S e micronutrientes para as metas estabelecidas. As doses de corretivos e fertilizantes calculadas pelo balanço são sustentáveis em dimensões técnicas, econômicas e ambientais.

Revista AG - Quais são e onde atuam os micronutrientes utilizados no processo de adubação?

Adilson de Paula – A principal função do zinco é ser um componente e também um ativador de enzimas; já o boro estimula o desenvolvimento de raízes e os meristemas (pontos de crescimento da planta) e ainda influi no tamanho e no número de nódulos nas raízes das leguminosas, portanto, estando envolvido no processo de fixação biológica de nitrogênio (FBN); o cobre estimula o crescimento de raízes e também está envolvido na FBN; o ferro é componente de enzimas que, na maioria, participam de reações de oxirredução. Participa da leghemoglobina e é componente da nitrogenase (responsável pela FBN e a redutase do nitrato). Ajuda na síntese proteica e na de clorofila; o manganês possui vários papéis que lembram as funções do magnésio (Mg), formando pontes entre o ATP e as enzimas transferidoras. Parece estar envolvido na formação, multiplicação e funcionamento dos cloroplastos. Possui função indireta na síntese de proteínas e na multiplicação celular, já que ativa a enzima polimerase do RNA. Embora o Mg possa substituir o manganês em algumas enzimas, este último é mais eficiente. Converte o nitrato em formas que a planta usa para sintetizar aminoácidos e proteínas; o molibdênio é importante no processo que transforma o NO3- em NH4+, durante a FBN, enquanto o cobalto tem sua função relacionada à FBN. Ele aumenta a nodulação, o conteúdo de vitamina B12, a formação de leghemoglobina (transporta O2 para o metabolismo aeróbico do bacterioide, devido ao caráter aeróbico da FBN), e a fixação de N.