Leite

 

INSEMINAÇÃO
realize o procedimento sem erros

Reginaldo Santos*

A inseminação artificial é a deposição mecânica do sêmen no aparelho reprodutivo da fêmea. É realizada por meio de uma técnica fácil e pode render ao criador inúmeros benefícios. Porém, todos os passos do processo devem ser seguidos de maneira criteriosa para evitar prejuízos.

Os erros mais comuns cometidos pelo produtor e pelo inseminador estão associados à realização de alguns processos com muita rapidez na intenção de economizar tempo. Mas, este deslize pode comprometer os resultados desejados.

Algumas dicas primordiais devem ser seguidas durante a inseminação para evitar as falhas mais corriqueiras do procedimento:

MANUSEIRO DO BOTIJÃO

O botijão com nitrogênio líquido possui temperatura interna de 196°C negativos. Ao retirar uma dose de sêmen, é importante que o caneco mantenha-se pelo menos 5 cm abaixo da boca do recipiente. Quanto mais perto da borda do gargalo, maior é a temperatura, o que pode prejudicar a qualidade do sêmen.

Por exemplo, quando são utilizadas palhetas finas, em cada rack cabem 20 doses, e, em cada caneco, é possível colocar dez racks. Ou seja, serão 200 doses por caneco. Se a cada vez que as doses forem retiradas o caneco for levado para fora do botijão, as doses restantes serão submetidas a vários choques térmicos. Com esta ação, o criador pode ter perdas de fertilidade e dos índices produtivos da propriedade, como a taxa de prenhez, que será prejudicada pelo manejo incorreto do sêmen.

É indicada também a utilização de uma pinça metálica para a remoção da palheta. O calor do dedo do inseminador inicia o processo de descongelamento, podendo causar a morte dos espermatozoides nas palhetas restantes.

TEMPERATURA DA ÁGUA

O inseminador deve atentar-se à temperatura ideal da água e ao descongelamento total do sêmen. O indicado é descongelar em água com temperatura de 37°C durante 30 segundos. É possível também a utilização de um descongelador que mantenha a temperatura ideal enquanto estiver ligado.

Descongelar em temperaturas abaixo ou acima da indicada promove a formação de cristais dentro da palheta. Isto causa prejuízo ao acrossoma e faz com que o espermatozoide perca a capacidade de penetrar no óvulo.

USO DA PALHETA

Não corte a palheta em bisel (transversal); escolha a mais apropriada (fina ou média); certifique que o aplicador está de acordo com a palheta que será utilizada; limpe e higienize o cortador de palheta, o aplicador e a pinça depois da inseminação.

Se o aplicador for montado de maneira incorreta (aplicador médio para palheta fina), o sêmen pode refluir para dentro da bainha ao invés de ser colocado dentro do aparelho reprodutor da fêmea.

OBSERVAÇÃO DE CIOS

Esta tarefa deverá ser a primeira e a última do inseminador. A errada observação é um dos principais problemas nas propriedades. A vaca precisa estar em seu momento de concepção ideal para o sucesso da inseminação.

Reginaldo Santos adverte que o calor das mãos pode afetar a qualidade do sêmen

O importante é realizar, ao menos, duas observações diárias: a primeira ao amanhecer e a segunda uma hora antes do anoitecer. A maioria das matrizes entra no cio entre 18h e 6h, ou seja, exatamente quando ninguém está observando. Este é o período em que a temperatura está mais amena e o animal está mais sossegado, sem apresentar qualquer sintoma de estresse.

Em fazendas mais estruturadas o cio é observado mais do que duas vezes ao dia, o que é mais apropriado. Nestas propriedades, normalmente com grande quantidade de matrizes, é importante que todos os funcionários que tenham contato com os animais saibam identificar os sinais do cio para auxiliar os inseminadores, sejam tratoristas, tratadores, responsáveis pela ordenha, etc.

O procedimento é igual tanto para animais de corte como de leite. Os de leite são mais fáceis de observar porque as vacas possuem um temperamento mais tranquilo e as ordenhas são efetuadas também nos horários da observação. Já para os animais de corte é preciso que realize o rodeio todos os dias, duas vezes.

Há vários sinais que demonstram que a vaca entrará em cio, como inquietação; nervosismo; redução na alimentação e na produção; urina e muge mais; fica apartada do resto do rebanho; a vulva fica mais inchada e vermelha; o corrimento vaginal, no início, é bem líquido e, com o passar do tempo, mais viscoso; monta nas companheiras, mas não se deixa montar; dá cabeçadas, etc. Porém o sinal mais evidente que deve ser levado em consideração para a confirmação do cio é quando ela permite que seja montada, sem tentar se esquivar. Se esta aceitação de monta acontecer durante a observação da manhã, o animal deve ser inseminado à tarde. Caso aconteça à tarde, a inseminação deve ser realizada na manhã seguinte.

SÊMEN SEXADO

É produzido com a finalidade de se obter fêmeas ou machos, dependendo do tipo de atividade do produtor. Para sua produção, o espermatozoide sofre um estresse maior do que o sêmen convencional. Isso pode acarretar em menos prenhezes, caso não seja utilizado de acordo com as recomendações da empresa responsável pelo seu envase.

VANTAGENS DA INSEMINAÇÃO

Quando um produtor realiza a monta natural com um touro, por melhor que seja o seu pedigree, não há garantia que ele transmitirá para sua progênie o que está no papel. No caso de gado de leite, o produtor terá que aguardar pelo menos quatro anos para saber como serão suas filhas. Talvez o resultado não seja o esperado, ocasionando prejuízo financeiro.

A grande vantagem da inseminação artificial é a utilização de touros provados. Dificilmente, acontecerá o citado acima, pois, antes de serem usados, os animais são testados.

Este teste é executado da seguinte maneira: são realizados acasalamentos corretivos em vacas que tenham grande retorno econômico para o produtor e que apresentem também bons resultados no índice de saúde (células somáticas e bezerros natimortos). A partir destes acasalamentos são gerados tourinhos e, assim que possível, seus sêmenes são colocados e distribuídos em fazendas colaboradoras para utilização nas matrizes. No momento em que suas filhas começarem a produzir leite, serão avaliadas quanto a sua produção, morfologia e saúde.

Apenas os touros que tiverem as filhas acima do desempenho das propriedades ou de um padrão pré-definido, terão seu sêmen comercializado, e os outros serão descartados. Hoje, com o avanço da genética, os animais são testados mais cedo devido ao desenvolvimento do genoma. Esta é uma das maiores vantagens econômicas da IA, pois em menos tempo será produzido mais leite ou mais carne, devido à utilização destes touros provados.

Em relação à economia, quando um produtor procura um tourinho para fazer a monta natural terá que gastar aproximadamente R$ 5.000 por animal. Porém, este valor pode variar muito de acordo com pedigree, raça, região e de onde será adquirido. O mencionado é apenas uma média. E, como se trata da monta natural, será necessário aguardar que as filhas das matrizes nasçam e comecem a produzir para avaliar os resultados, que podem não ser os esperados, como já citado.

Com um valor aproximado a R$ 3.000, o produtor consegue adquirir todo o kit de inseminação, que inclui botijão, caixas de inseminador e de isopor, termômetro, pinça, aplicador de sêmen, cortador de palheta, luvas, bainhas e ainda R$ 500 em sêmen de um touro provado.

Uma das vantagens da inseminação é poder usar genética provada

Conclusão, com quase a metade do valor utilizado para a compra de apenas um tourinho, é possível adquirir todo o material para a inseminação. O produto nascido por meio da inseminação artificial terá produção e longevidade acima do restante dos animais do rebanho. É importante que o produtor leve em consideração a grande potencialidade de produção do animal, mas suas exigências nutricionais e de manejo necessitam ser adequadas para que atinja o desempenho esperado.

É importante acreditar que por meio da inseminação é realizada a democratização da utilização de touros excepcionais, que são usados em todo o mundo por produtores de grande, médio ou pequeno porte. O valor agregado das filhas das matrizes será notado também na hora de descartar um destes animais, que terá um preço de mercado maior.

Uma ferramenta aproveitada pelo produtor de leite para complementar a inseminação é o acasalamento dirigido. As matrizes da propriedade seLeite Leite rão analisadas por um técnico especializado. Com o resultado, o criador terá diversos relatórios que expõem o nível atualizado do rebanho comparado à média da raça e o que é esperado da progênie resultante deste acasalamento com touro designado. Estas indicações ajudarão a realizar uma melhor gestão do sêmen. Os efeitos deste programa poderão ser observados logo na primeira geração.

É importante que o proprietário saiba os números de sua fazenda. Não apenas em termos de produção, mas é essencial o conhecimento também dos índices reprodutivos, como concepção, prenhez, taxa de detecção de cios, intervalo entre partos, período voluntário de espera, entre outros.

Hoje, existem técnicas que trazem muitos benefícios aos produtores, como a Inseminação Artificial em Tempo Fixo, que possibilita a inseminação de grupos de animais sem a observação diária de cios. O produtor deve procurar um técnico capacitado ou uma empresa idônea para fazer o trabalho. Caso contrário, o prejuízo será maior.

*Reginaldo Santos é gerente Técnico de Leite e de Cursos de Inseminação Artificial da Alta Genetics