Do Pasto ao Prato

 

CREIA IRMÃO, A RESPOSTA ESTÁ NOS SUMÁRIOS

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

Anualmente, são publicadas informações valiosas nos Sumários de Touros dos diversos programas de melhoramento genético de bovinos do Brasil. Entre eles estão o Promebo, Natura, Conexão Delta G, Pampa Plus, PMGZ, ANCP, PAINT, etc. Nestes sumários são disponibilizadas as informações de desempenho dos filhos de touros nacionais e importados nas condições de produção de nosso país. Minha vivência e experiência são nas raças Britânicas e Sintéticas (Angus, Hereford, Brangus e Braford), mas a lógica, os conceitos se aplicam da mesma forma para outras raças europeias e também para as zebuínas.

No Sumário de Touros está a verdadeira prova de campo, "a prova dos dez", "a prova real", pois no desempenho dos filhos de um touro não tem mais importância o preparo e o penteado usado no leilão ou na exposição. Se a genética do reprodutor foi distribuída em diferentes rebanhos e seus filhos foram avaliados em grupos contemporâneos bem montados, o resultado é incontestável, pois em condições de produção medimos quem foi superior.

As características de importância econômica para o pecuarista estão consideradas e medidas nos diferentes Sumários de Touros. Com diferentes índices e pequenas variações nas metodologias, os programas de melhoramento buscam o mesmo: separar genética de ambiente e apresentar informações técnicas de características que afetam o bolso do pecuarista. As principais características são Peso ao Nascer (relacionado com facilidade de parto), Peso ao Desmame (de impacto direto ao produtor especializado na cria), Peso ao Ano (para aquele que faz ciclo completo ou compra animais para engorda), Perímetro Escrotal (para melhorias em precocidade sexual), Escores Visuais para Conformação, Precocidade, Musculosidade e Tamanho (para descrever o biótipo do animal), tipo do Pelame (para estimar adaptação) e Ultrassonografia de Carcaça para Área de Olho de Lombo (AOL), Espessura de Gordura Subcutânea (EGS) e Marmoreio. Mais recentemente, alguns programas já possuem trabalhos para medir Eficiência Alimentar, mas ainda não como uma tecnologia usada amplamente. Este grande ferramental de informações nos permite escolher reprodutores alinhados com a necessidade de nosso rebanho e para sistemas produção específicos (a pasto, semi-intensivo, confinado, etc.).

No Congresso Brasileiro de Angus, ocorrido em dezembro de 2012, fui convidado a falar sobre os diferenciais da genética Angus nacional. Pois bem, me dediquei a revisar e tabular os dados de touros nacionais versus touros importados (principalmente americanos e argentinos) em nosso sumário de touros. Apresentei no evento resultados que instigaram muitos dos presentes, pois, em diversas características, os pais nacionais (touros Angus nascidos e criados no Brasil) alcançaram, através de seus filhos, resultados similares ou superiores aos pais importados.

Mesmo com menor participação em um universo de 756 touros (sendo, aproximadamente, 70% de touros importados e 30% de touros nacionais), os reprodutores brasileiros estavam entre os Touros Líderes para Índice Final, Índice Desmama e para Pelame. Artigo detalhado sobre este assunto foi publicado na Revista AG de Abril/2013.

Existem situações positivas que geram posturas negativas. No caso das raças Angus e Brangus, temos disponibilidade de material genético de diversos países do mundo (Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina, Uruguai, entre outros). Pois bem, esta situação positiva de ter ao alcance a genética de diferentes lugares do mundo nos colocou, em parte, em posição de acomodação e conforto, usando sempre mais e mais o touro importado e dando menor atenção à seleção e ao desenvolvimento da genética nacional. No caso do zebuíno, a "dor ensina a gemer", pois a seleção e o desenvolvimento da genética Nelore (e demais raças) tiveram de ser feitas pelo pecuarista brasileiro, pois não havia e não há ainda onde buscar tecnologia e informação para o melhoramento genético da principal raça brasileira. Esta situação aparentemente negativa tornou-se um grande trunfo para o zebuíno, pois geramos tecnologia, conhecimento e construímos valor ao nosso produto.

O desafio que ainda temos que vencer na avaliação genética de animais Britânicos e Sintéticos é gerar mais informações do desempenho destes animais em cruzamento com matrizes zebuínas. Já existem dados nos sumários Natura e Conexão Delta G, porém, em pequeno volume. Normalmente, são coletados dados em rebanhos que estão formando a raça sintética (Brangus e Braford) e o processo não tem continuidade quando o rebanho é estabilizado no "Puro Sintético" (3/8 – 5/8). A dimensão dos programas de cruzamento no Brasil, especialmente com o Angus, é muito grande e esta tecnologia está aprovada e consolidada no campo. Observem que o Angus vendeu praticamente 3 milhões de doses de sêmen em 2012 e a maioria deste material para uso em cruzamento. Os pecuaristas que fazem cruzamento nos pedem respostas de que touro produzirá melhor em cruzamento e ainda não a temos de "bate-pronto". Usamos das informações de biótipo, origem e pedigree como indicativos do provável desempenho. Na carência de mais dados comprobatórios da superioridade do touro A ou B em cruzamento no Brasil, os touros importados têm recebido preferência, pois esses têm mais apelo comercial, avaliação genética normalmente com maior acurácia (na raça pura) e o nosso velho hábito de valorizar mais o que vem de fora. Sabemos que um touro mediano já traz boa contribuição produtiva no cruzamento, pois a heterose nos entrega quilos extras muito valiosos na F1. De qualquer forma, estamos desperdiçando a oportunidade de ter mais ganhos adicionais com genética aditiva e touros realmente mais produtivos em cruzamento.

Neste período do ano, nos dedicamos à escolha de reprodutores para uso em programas de inseminação e também para o trabalho de monta nos rebanhos de cria. A decisão que tomamos hoje (2013) vai ser colhida no desmame de 2015 ou no abate de 2016. Se, porventura, as fêmeas forem retidas no rebanho, muito mais longe, vai à consequência de nossa escolha. Tempo e recursos dedicados nesta decisão são bem investidos. Observe que é de grande impacto a decisão tomada hoje e creia irmão: a resposta está nos sumários.