Integração

 

LAVOURA X PECUÁRIA

Recria de bovinos de corte mantém qualidade do solo

Isabella Clerici De Maria* e Roberto Molinari Peres**

A integração entre agricultura e pecuária ou sistema ILP, como vem sendo mais conhecido, reúne diversos modelos de produção em que há uma sucessão das atividades agrícolas e pecuárias na mesma área. É um sistema considerado sustentável por reunir conceitos como diversificação, rotação, consorciação de culturas e, quase sempre, mínimo revolvimento do solo.

Do ponto de vista macroeconômico, a adoção da ILP pode melhorar a rentabilidade do setor pecuário, diminuir déficits na demanda regional de grãos e, ainda, contribuir para a redução de impactos ambientais da atividade e para que o setor atinja metas estabelecidas para redução de emissões de carbono. Trabalhos de pesquisa científica e experiência de produtores que adotaram o sistema têm demonstrado também que a ILP apresenta resultados positivos no rendimento da propriedade, com aumento na produção de grãos e das pastagens e no ganho de peso animal.

As informações técnicas e científicas sobre essa tecnologia, abrangendo não apenas aspectos de produtividade e rentabilidade, mas também a qualidade do solo e do ambiente em diferentes condições de solo e de clima e para diferentes modelos de sucessão manejo de culturas, ainda são escassas. São muitas as variáveis. Por isso, experimentos de longa duração têm sido conduzidos em diferentes pontos do País, com o objetivo de adaptar o sistema para a realidade regional e gerar informações que possam orientar os produtores rurais para a tomada de decisão na adoção do sistema.

No estado de São Paulo, a pecuária é uma das principais atividades do setor agropecuário, gerando o segundo maior Valor Total de Produção Agropecuário e Florestal, e é a segunda atividade relevante na pauta das exportações da agricultura paulista. A produção de carne e leite de bovinos no estado é realizada quase exclusivamente a pasto, com utilização de sistemas extensivos em uma parcela significativa de propriedades rurais. As pastagens ocupam 39,4% da área total agrícola e estão presentes em 72,1% das Unidades de Produção Agropecuárias.

Apesar da importância da pecuária na formação da renda bruta da agropecuária paulista, a maioria das propriedades apresenta baixa produtividade em razão das condições de suas pastagens. Como a ILP é também uma alternativa para a recuperação dessas pastagens degradadas, a adoção desse sistema com eficiência poderá melhorar a rentabilidade das propriedades, além de conferir as vantagens já citadas para o setor agropecuário paulista.

Informações sobre a ILP para a realidade paulista ainda são insuficientes. É indispensável o aprofundamento do conhecimento, pesquisa dos processos e dos métodos agronômicos possíveis de utilização nos sistemas ILP, assim como uma ampla divulgação de suas características, vantagens e estratégias de adoção em programas de transferência de tecnologia, pois esses sistemas são passíveis de uso pelas mais variadas categorias de agricultores e pecuaristas (Peres et al., 2011). Nesse sentido, investimentos em pesquisa e transferência de conhecimento por meio de projetos que contemplam a integração agricultura e pecuária têm sido feitos pelos órgãos da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.

Isabella Clerici aponta que os sistemas ILP diminuem os efeitos da estacionalidade de produção

A Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de São José do Rio Preto, do Pólo Apta Regional Centro Norte, por exemplo, desenvolveu um trabalho de pesquisa com a finalidade avaliar quatro modelos de integração lavoura-pecuária comparando-os com pastagens permanentes, uma com adubação moderada e outra com adubação intensiva. No manejo moderado são aplicados 45 kg de N/ha/ano e 40 kg de P2O5/ha/ano; no manejo mais intensivo a calagem é utilizada, quando necessário, e são aplicados 90 kg de N/ha/ano e 40 kg de P2O5/ha/ano.

Este trabalho busca reproduzir as condições e as necessidades para a implantação da integração lavoura-pecuária dentro do ambiente da pecuária paulista. A área está sobre um solo do tipo argissolo, de textura arenosa/média, em um declive suave ondulado. O projeto ocupa uma área de 26 ha divididos em 24 piquetes. Além dessa área experimental, há uma área reserva com 12 ha.

As pastagens são formadas com Brachiaria decumbens, espécie mais comum na região, e, quando integradas à lavoura, são consorciadas à cultura de milho plantada no sistema plantio direto na palha. Desde o ano agrícola 2007/2008, bezerras da raça Nelore, criadas no Pólo Apta Regional da Alta Mogiana (Colina, SP), estão sendo recriadas nos quatro modelos de ILP e nas pastagens permanentes, em São José do Rio Preto. Esses animais permanecem um ano no experimento, portanto, a cada ano chega um novo lote de animais.

Os resultados das avaliações feitas no experimento indicaram que os sistemas ILP diminuem os efeitos da estacionalidade de produção e melhoram a qualidade da pastagem no ano seguinte à colheita do milho, principalmente pela quantidade de massa verde disponível no período seco do ano. Os dados mais significantes são os de lotação animal, em que na média de seis anos dos sistemas o pasto com adubação moderada apresentou 3,2 cab/ha, o pasto com adubação intensiva 4,1 cab/ha e o pasto após o milho 4,4 cab/ha. A produção animal média foi de 14,[email protected] na pastagem com adubação moderada e 19,[email protected] no pasto com adubação intensiva e com ILP.

A ILP proporciona um ambiente diferente para a pastagem. Em função do aporte de biomassa na superfície, da disposição de mais nutrientes no solo e do revolvimento das camadas superficiais, é bem provável que haja alteração na atividade biológica e na estrutura do solo e, assim, a adoção da ILP deve resultar em alterações na qualidade do solo. E o que se espera é que essas alterações sejam no sentido de melhorar a qualidade ambiental e a sustentabilidade da atividade a longo prazo.

Por isso, nesse experimento, por meio de outro projeto apoiado também pela Fundação Agrisus, foram avaliados atributos da qualidade do solo, seis anos após a implantação dos sistemas. A proposta desse trabalho foi obter informações sobre a qualidade do solo sob sistema ILP utilizando o plantio direto, identificando possíveis ganhos ambientais adicionais com sua utilização. Não houve em momento nenhum revolvimento do solo.

Piquetes com os diferentes modelos de ILP, incluindo milho

Foram feitas avaliações dos atributos de qualidade do solo (física, química e microbiológica) no sexto ano do experimento, quando toda a área permaneceu com pastagem no verão, sendo retiradas amostras para as análises de laboratório até 1 m de profundidade. Observaram-se alterações no perfil do solo no campo no momento da coleta das amostras, como alteração no tamanho e no formato dos agregados e a presença de raízes nos agregados. Com pastagem permanente formam-se agregados maiores, com ângulos retos, com menor quantidade de raízes, enquanto que os agregados no solo manejado com ILP são menores, mais arredondados, com mais raízes e com coloração mais escurecida.

Não foi observada restrição ao crescimento radicular no perfil do solo em nenhum dos sistemas. As pastagens com ILP apresentaram valores mais elevados de densidade do solo até 40 cm de profundidade em relação à pastagem permanente mantida com adubação moderada, o que pode consequência do tráfego de máquinas nas áreas. A microporosidade, por outro lado, foi menor no solo com ILP, indicando um rearranjamento da estrutura.

Os resultados mostraram que o teor de nutrientes, em especial o Ca e o P, e a CTC e V% do solo foram maiores nos sistemas ILP em relação à pastagem permanente, mantida com adubação moderada. Isso era o esperado, afinal o milho e a pastagem com adubação intensiva recebem calagem e mais nutrientes via fertilizantes. As diferenças entre os tratamentos aparecem principalmente na camada mais superficial (0-10 cm), mas são notadas também nas camadas mais profundas, especialmente para Ca e P, indicando efeito da calagem e da adubação das culturas interagindo com a operação de semeadura da cultura.

Na avaliação da qualidade biológica do solo foram analisados: o carbono da biomassa microbiana, a liberação de CO2 do solo e o quociente metabólico, que determinam a eficiência da biomassa microbiana em incorporar C. O carbono da biomassa microbiana foi maior na pastagem permanente mantida com adubação moderada, indicando carbono imobilizado pelos micro-organismos do solo.

Piquetes com milho verão após cobertura

De forma geral, o principal efeito da ILP, pelo menos inicialmente, é o da adição de nutrientes e calagem, alterando a qualidade ou a fertilidade química do solo em relação ao pasto permanente com adubação moderada, conforme vinha sendo conduzido anteriormente. A pastagem permanente com adubação moderada mantém baixos níveis de fertilidade do solo.

Mas a introdução do cultivo de milho gera mudanças no solo das pastagens. O tráfego de máquinas, os implementos para depositar sementes e fertilizantes e a distribuição diferente do sistema radicular modificam a estrutura do solo e alteram o ambiente para os micro-organismos.

Essas alterações no solo poderiam resultar em perda de qualidade e mesmo em perda de carbono do solo, especialmente nesse solo com baixo teor de argilas. Entretanto, observou-se que os estoques de carbono foram um pouco superiores no pasto integrado à lavoura de milho, especialmente com a cultura todos os anos, a cada dois anos ou por dois anos seguidos. Ainda que as pastagens apresentem estoques elevados de carbono, pela grande quantidade de material orgânico de raízes e folhas adicionada ao solo, e que a introdução de um cultivo de grãos promova um revolvimento na camada superficial, podendo resultar em decomposição da matéria orgânica do solo, os sistemas ILP mantiveram esses estoques no mesmo nível.

Até o momento, os resultados do projeto indicam que a implantação de sistemas de ILP, independente da sequência ou número de cultivos de grãos e pasto, melhora a fertilidade do solo e não altera atributos físicos em relação à pastagem permanente mantida com adubação moderada. Ainda que a ILP promova revolvimento do solo e alterações na atividade microbiana, os estoques de carbono no solo são mantidos.

De forma geral, a qualidade do solo, avaliada pelos atributos químicos, físicos e biológicos, apresenta maiores ganhos com os sistemas consecutivos de integração da pastagem com o milho: com milho a cada dois anos, a cada três anos ou dois anos de milho e um de pasto, ou seja, em ordem crescente de qualidade do solo teríamos:

Pasto com adubação moderada < Pasto com adubação intensiva < Pastos integrado à lavoura.

*Isabella Clerici De Maria: Graduada em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP com doutorado em Solos e Nutrição de Plantas e pesquisadora científica do Instituto Agronômico, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo **Roberto Molinari é graduado em Agronomia pelo Centro Regional Universitário de Pinhal com mestrado em Zootecnia e pesquisador científico da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) da SEAB/SP