Raças - Bonsmara

 

O avanço do BONSMARA

Fátima Costa

Este 'bichão' é um animal que une rusticidade e alta adaptação ao clima tropical. Sem dúvida, uma raça concebida para oferecer resultados produtivos e reprodutivos, o que dá maior rentabilidade ao produtor", esta é a opinião formada por três grandes criadores de Bonsmara, Clélia Pacheco, José Pavan Neto e Eloy Barsch.

Eles decidiram criar a raça, de origem sul-africana, sob diferentes condições e sistemas. Hoje, acompanham o crescimento discreto, mas firme do Bonsmara pelo Brasil. "A raça vem apresentando um crescimento, digamos, 'sustentável' e alicerçado em bases sólidas", descreve a criadora Clélia Pacheco, proprietária da Fazenda Santa Silvéria, localizada em Piratininga/SP.

Segundo ela, a raça está em plena transformação. Graças a novos criadores que estão engajados em levar a raça para novas regiões. Um deles é o criador José Pavan Neto, do município de Três Lagoas/ MS. Há dois anos, ele faz parte de um grupo seleto de criadores. O plantel tem mil animais, entre matrizes, novilhas e bezerros. "A impressão é que os primeiros selecionadores começaram a criar o Bonsmara como uma forma de atividade secundária. Com o tempo, e uma nova estratégia, a raça ganhou novos adeptos com o foco na produção de O avanço do carne. Colaborou ainda o surgimento de programas de avaliação genética, como o Sumário Bonsmara Brasil, e o teste de de eficiência alimentar do Instituto de Zootecnia de São Paulo", diz Pavan Neto.

Para o criador, que também é diretor-técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Bonsmara, essas ações também são uma oportunidade para mostrar o trabalho dos produtores e as vantagens da raça. Atualmente, são 23 criadores de Bonsmara associados à entidade, presentes em seis estados brasileiros. "A aposta é que a raça ajude a solucionar uma das grandes dificuldades da pecuária brasileira, que é produzir touros sem sangue zebuíno capazes de cobrir a campo", comenta.

Os criadores estão de olho no cruzamento industrial com o gado zebu, no qual podem ser gerados produtos com ótima heterose, ganho de peso, qualidade de carne e carcaça. "Para criadores de Bonsmara, o foco é a produção de reprodutores geneticamente superiores, para venda e reprodução em fazendas de gado comercial", afirma.

Por meio do conjunto dessas características é que os criadores estão levando a raça para diversas regiões. "Existem poucos criadores em determinadas áreas do País. Aqui, no Tocantins, eu sou o único. Os animais são criados em pasto seco, de brachiarão, e mostram capacidade de produzir bezerros sadios em condições adversas. Apresentam um escore corporal semelhante a animais de confinamento, entretanto, a pasto", diz Eloy Barsch, que mantém uma propriedade no município de Cariri/TO. "O Bonsmara é perfeitamente adaptado ao clima tropical, resultado de pesquisas nos últimos 50 anos, e que se fixou como raça pura com os seguintes graus de sangue: 5/8 Afrikanner [animal nativo da África do Sul], 3/16 Shorthorn e 3/16 Hereford. No estado do Tocantins, a raça Bonsmara é criada junto com Nelore e Brahman", diz Barsch.

As qualidades zootécnicas dos animais chegaram a ser apresentadas para a Secretaria de Agricultura do Estado do Tocantins, que procurava uma raça bovina rústica para um projeto de revitalização da pecuária regional. Todavia, a raça apresentada pelo governador foi a Retinto, de origem espanhola, com animais grandes e totalmente desconhecidos no Tocantins e, diga-se de passagem, da pecuária brasileira. "Sugerimos o Bonsmara, com todas as características necessárias, incluindo a adaptação ao clima, uma vez que na nossa região sofre com a distribuição irregular de chuvas", diz. O projeto, segundo ele, permanece parado, mas o pecuarista, que mantém 600 animais, sendo 150 vacas PO, se diz um motivado e que o Bonsmara está 100% adaptado à região no sul do Tocantins.

Pavan destaca o Sumário Bonsmara Brasil e o teste de eficiência alimentar do Instituto de Zootecnia de SP

GENÉTICA DEFERENCIADA

Nenhuma outra raça de gado sintético de corte teve a sua criação orientada por tantas pesquisas científicas quanto o Bonsmara. Criada pelo professor Jan Bonsma, em meados da década de 1930, a raça veio atender à demanda do governo sul-africano, que se deparou com um problema em seu rebanho, formado basicamente por afrikaners: os animais, apesar de serem extremamente adaptados ao clima tropical, sofriam com baixa produtividade. A partir dessa solicitação do governo, Bonsma iniciou uma sequência de pesquisas e seleções nunca antes vista e esse foi o ponto de partida para a expansão da raça.

Clélia Pacheco é uma das criadoras que apostam no adaptado

Depois de anos de pesquisas, surgiu a Bonsmara, sendo considerada pura no início da década de 1960. A raça encontra-se presente, além da África do Sul, na Austrália, Namíbia, Zâmbia e Zimbábue, Paraguai, Argentina e no Brasil. Aqui, o primeiro exemplar desses animais chegou apenas no ano de 1997. "Todas as características que acarretam na melhor adaptação ao clima tropical, tais como pelo curto, pele escura, grossa e tolerância a ectoparasitas, podem ser encontradas na raça", garante Pavan Neto. "E foi a partir deste processo que alguns pecuaristas se sentiram atraídos pela raça, que aos poucos se dissemina pelo País", completa Barsch. Ele conta que o Bosmara com Nelore dá um F1 excepcional. "Ela tem até o momento todas as possibilidades de crescimento, mas possui poucos criadores. Esse é o único defeito, por enquanto."

O principal diferencial da raça é a resistência ao calor e sua capacidade de sobrevivência. "Além disso, é uma raça que não possui sangue zebuíno, e, quando cruzada, consegue ter 100% de heterose, com carne de excelente qualidade, testada em centros de pesquisas dos Estados Unidos", conta o presidente da associação, Vito Puoli Gaia.

De acordo com dados da associação, a Federação Mundial de Gado Bonsmara mostrou que, em 20 anos, a raça obteve um aumento médio de peso de 60 kg, passando de 160 kg para 220 kg no desmame. O intervalo entre partos diminuiu de 480 para 400 dias. A idade do abate varia entre 24 e 30 meses.

Há três anos, pela primeira vez na história do setor, uma raça foi avaliada internacionalmente. Tratava-se da Bonsmara, que recebeu avaliação genética envolvendo todos os países criadores da raça. Como resultado, o sumário de avaliação genética foi divulgado aos criadores durante a "1ª Jornada Técnica e o 2° Curso sobre como utilizar o BeefPro", com promoção da Associação Brasileira de Criadores de Bonsmara.

Produtos meio-sangue Bonsmara-Nelore proporcionam elevada heterose

No ano de 2010, os dados para avaliação genética da raça Bonsmara foram coletados pelos criadores que descreveram as informações no programa BeefPro, um software desenvolvido especialmente para o Bonsmara. As informações foram enviadas, via internet, para o Centro de Agricultura da África do Sul, onde foram processadas e comparadas com o rebanho internacional.

No Brasil, 35 mil animais foram avaliados em quesitos como DEPs (Diferença Esperada na Progênie), facilidade de parto, conversão alimentar e qualidade da carne. "Não tem outra raça de corte que faça essa avaliação internacional", comenta o presidente da associação, Vito Gaia.

PROGRAMA BONSMARA

A partir das características de maciez, sabor, suculência e coloração é que a marca de carne Bonsmara Beef atingiu padrão no sistema de produção e nos cortes, agregando valor ao produto. O profissional responsável por organizar esse sistema produtivo é o engenheiro-agrônomo Roberto Barcellos. Ele afirma que a única maneira de padronizar características organolépticas (aquelas percebidas pelos sentidos humanos) da carne bovina é manter-se fiel ao seu sistema de produção. "Portanto, um programa que integra a cadeia produtiva é melhor que as marcas de carne que nascem no curral do frigorífico, com uma heterogeneidade típica da pecuária brasileira", diz.

A padronização começa pela raça, depois, passa por grau de sangue de possíveis cruzamentos, peso, idade de abate, acabamento e nutrição dos animais fornecedores de carne. Os cruzados devem ter 75% de sangue Bonsmara ou podem ser tricross (25% Angus, 25% Nelore e 50% Bonsmara). São abatidos machos castrados e fêmeas, com, no mínimo, 20 e, no máximo, 36 meses de idade. Os animais são terminados após passarem 90 a 100 dias no confinamento, consumindo dieta de alta densidade energética.

Para incentivar os pecuaristas a entregarem animais no padrão de qualidade exigido, o projeto Bonsmara Beef paga um prêmio sobre o preço da arroba. "Machos e fêmeas, conforme as especificações de idade, recebem uma bonificação de até 10% sobre o preço da arroba do boi gordo", explica Pavan Neto.


Por que Bonsmara?

Na opinião dos criadores, a raça demonstra fatores únicos de adaptação, bom rendimento de carcaça e precocidade. "Os animais criados a pasto podem ser abatidos aos dois anos. A sexualidade nas fêmeas é precoce e elas podem ser emprenhadas aos 14 meses", afirma o criador Barsch.

Ele responde ao manejo com alta performance e rusticidade a pasto. "E dentro da transformação da pecuária moderna, ele vai bem assim como a alternativa do confinamento. O Bonsmara não tem limitantes. É uma raça de alta performance, fertilidade, adaptação, docilidade, excelente ganho de peso e carne de extrema qualidade. Ele é um gado para essa nova pecuária, exigente e de resultados", afirma Clélia.