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Controle do carrapato precisa MELHORAR

Parasita figura entre os problemas sanitários mais importantes da pecuária nacional, mas avanço no combate deixa a desejar

Luiz H. Pitombo

Os gastos e prejuízos não param de crescer. Se, no início dos anos 2000, cálculos estimavam que o carrapato bovino era responsável por penalizar a pecuária nacional em perto de US$ 2 bilhões ao ano, atualmente estes apontam para um montante que já ultrapassa os U$ 3 bilhões, considerando o uso de produtos, manejo dos animais para o tratamento, perdas com couro e descarte de leite.

Certo é que o rebanho bovino cresceu e a própria intensificação da atividade e o cruzamento com raças europeias mais suscetíveis deram sua contribuição. Mas ainda falta informação e respeito aos procedimentos recomendados na escolha dos produtos a serem utilizados, no manejo das aplicações e outros, o que faz com que o pecuarista continue a perder muito dinheiro e acelere a inevitável resistência aos carrapaticidas, agravando a situação. Dados de pesquisa realizada pela Embrapa Gado de Corte, no Mato Grosso do Sul, mostram que de 11 produtos comerciais avaliados, apenas dois conquistaram, na média das 30 propriedades estudadas, níveis de eficiência acima de 95%, que é o recomendado (veja Tabela 1).

Certo é que o rebanho bovino cresceu e a própria intensificação da atividade e o cruzamento com raças europeias mais suscetíveis deram sua contribuição. Mas ainda falta informação e respeito aos procedimentos recomendados na escolha dos produtos a serem utilizados, no manejo das aplicações e outros, o que faz com que o pecuarista continue a perder muito dinheiro e acelere a inevitável resistência aos carrapaticidas, agravando a situação. Dados de pesquisa realizada pela Embrapa Gado de Corte, no Mato Grosso do Sul, mostram que de 11 produtos comerciais avaliados, apenas dois conquistaram, na média das 30 propriedades estudadas, níveis de eficiência acima de 95%, que é o recomendado (veja Tabela 1).

Ele considera que a falta de uma política do governo para o problema faz com que o pecuarista escolha o carrapaticida, na maioria das vezes, no balcão da loja de produtos veterinários. Mas o pesquisador adverte que o carrapato-do-boi, que ganhou um novo nome científico (Rhipicephalus Boophilus microplus), requer um processo de controle que envolve diferentes fatores, como clima, manejo, tecnologia de aplicação e não pode ser feito com a mesma receita para todas as propriedades.

O grande reservatório do parasita está no pasto, atingindo algo acima de 95% de sua população. Isso ocorre porque cada fêmea adulta que cai ao solo produz de 2 mil a 3 mil ovos, os quais se transformam em larvas, para, em dois a três dias, se instalarem nos talos de plantas e capins à espera da passagem de seu hospedeiro, o bovino. Estas permanecerão por 21 ou 22 dias no animal, se alimentando de sangue, quando também poderão transmitir a tristeza parasitária, outro problema sério.

Apesar desta concentração nos pastos, Andreotti conta que a pulverização é inviável por problemas ambientais. Em termos de manejo destas áreas, o que diz dar melhores resultados é a integração lavoura/pecuária, que deixa a área sem hospedeiros por um bom tempo. A simples rotação pode não ser viável, como lembra, uma vez que este descanso, para ter efeito significativo na população do parasita, necessitaria ser de pelo menos dois meses.

ENFRENTAR COM POPULAÇÃO EM BAIXA

Embora existam limitações nas ações diretas no grande reservatório representado pelos pastos, o veterinário lembra que na recomendação do controle estratégico se considera esta situação dos parasitas no campo, pois é indicada como a melhor época de combate aquela em que estes se encontram em menor número no pasto, ou seja, no Brasil Central, nas condições de baixa umidade que são desfavoráveis aos ovos e larvas. O período mais indicado nessa região ocorre normalmente entre os meses de julho a setembro, o que bloqueará o aparecimento posterior de um volume grande de parasitas.

É preciso também estar atento ao se adquirir animais, que deverão ser tratados no local de origem e mantidos isolados antes de sua introdução na propriedade, o que evita a disseminação de parasitas resistentes. Andreotti acrescenta que certos indivíduos são mais atacados pelo carrapato que outros, mesmo em uma população de raças mais resistentes. Assim, diz que este animal deverá ser tratado de forma particular, pois contribui de maneira importante para o aumento da infestação no campo. "Por outro lado, um programa de seleção pode contemplar essa característica de sensibilidade ao carrapato como um critério de descarte dentro de um grupo que contemple outros fatores", sugere o pesquisador.

Na fundamental escolha de que carrapaticida usar, Andreotti afirma que o primeiro passo é providenciar a realização de um teste de resistência em laboratório especializado, não recomendando em hipótese alguma a adoção de procedimentos caseiros, que não são eficientes. Ele conta que na Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS, os testes são realizados gratuitamente, com os gastos limitando-se ao valor do correio quando da remessa das amostras, se este for o caso. Em dez dias, são fornecidos resultados parciais e, em torno de 50 dias, os dados finais. Por este motivo, é fundamental planejar o controle.

Para obtenção de todos os procedimentos necessários para os testes, o pesquisador sugere a consulta pela internet do site do referido centro de pesquisa (www.cnpgc.embrapa.br), no ícone referente ao controle do carrapato.

PARTICULARIDADES GAÚCHAS

Em função da importância do problema e por afetar diretamente o cotidiano e o bolso do produtor, o médico-veterinário João Ricardo Martins, do Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF/Fepagro), em Eldorado do Sul/RS, também defende a necessidade do estabelecimento de um projeto nacional de controle liderado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), sempre respeitando as particularidades regionais. Ele acrescenta que "o carrapato se combate é com mais informação", enfatizando que precisariam se envolver mais para levar conhecimento ao produtor os vários segmentos da cadeia, além do próprio governo (indústria, sindicatos rurais, frigoríficos e curtumes).

Renato Andreotti afirma que falta política do governo para conter o problema

Martins conta que o estado do Rio Grande do Sul apresenta quatro estações diferenciadas e chuvas mais distribuídas ao longo do ano. Nesta condição, diz que os dados mostram uma dinâmica que privilegia o reinício das infestações em setembro, na primavera, com um segundo pico acontecendo entre os meses de janeiro/fevereiro e outro ainda maior em abril/maio, quando se detectam as maiores reclamações dos produtores.

No entanto, comenta que, ao lo ngo dos últimos anos, o aumento médio das temperaturas tem favorecido o estabelecimento do carrapato também nos meses de inverno, o que antes não ocorria. De qualquer forma, sugere que o controle estratégico no estado ocorra na saída desta estação do ano, em agosto e setembro, com a população ainda em baixa. Já em se pensando no controle tático, também aplicável em outras regiões, indica que o limiar econômico indicado é de 25 a 30 carrapatos ingurgitados por lado do animal para se iniciarem os tratamentos.

Em relação à tristeza parasitária, comenta outra particularidade do estado, atribuída às características epidemiológicas dos hemoparasitas causadores, babesia e anaplasma. Os surtos na região acometem com maior frequência animais de sobreano e adultos, enquanto que no Brasil Central são os bezerros e animais jovens.

Vale lembrar que até os 3 ou 4 meses de vida os animais possuem a chamada imunidade passiva contra a doença, que é garantida pelo colostro, e, posteriormente, através do contato do bovino com carrapato infectado, ele adquire a imunidade ativa. Caso o animal fique por cerca de seis meses sem contato com o carrapato infectado ou cargas muito baixas, Martins diz que a tristeza parasitária poderá se manifestar. Para manejar essas questões e a chamada premunição dos animais, a indicação é se contar com apoio de veterinário.

veterinário. O pesquisador do IPVDF considera que faltam estudos atualizados sobre a ecologia do carrapato no período em que se encontra nos pastos para que medidas complementares importantes pudessem ser melhor consideradas nessa fase. "O que se puder fazer sempre ajuda", comenta, indicando como exemplos a serem adotados o descanso dos pastos (30 dias, pelo menos), a integração com agricultura e o uso da roçadeira. Ao manter os pastos limpos, se diminuem áreas de refúgio, o que deixa o parasita mais exposto aos raios solares, favorecendo a dessecação de larvas e ovos. A depender da disponibilidade e do manejo da propriedade, pode se trocar o uso do pasto por outra espécie animal não hospedeira, como ovinos ou equinos.

No tocante à resistência aos princípios ativos, o que se pode fazer, segundo Martins, é prolongar a vida útil dos produtos através de uma correta utilização. Esta contempla desde a dosagem adequada, o produto e a frequência de uso, pois, quanto maior ela for, maior será a chance de selecionar carrapatos resistentes. Um parâmetro é não utilizar mais do que duas aplicações seguidas da mesma substância. Em relação à dosagem, diz que dificilmente ocorre a superdosagem pelos riscos de intoxicação. Já a subdosagem, ao longo do tempo, diz que favorece a seleção dos indivíduos potencialmente resistentes, que é característica inerente à espécie.

Para a avaliação da situação da propriedade, conta que existem universidades em diferentes partes do País que fazem testes laboratoriais, além do Instituto Biológico, em São Paulo/SP, e da Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora/MG, dentre outros. No Rio Grande do Sul, aponta como prestadores deste serviço a Embrapa Pecuária Sul, em Bagé, e o próprio IPVDF.

Em relação a laboratórios capazes de analisar resíduos de substâncias em produtos e alimentos, avalia que existem poucos dotados dos caros equipamentos e que estejam habilitados a fazê-lo rotineiramente frente à demanda que tende a crescer por setores da sociedade.

FALHAS COMUNS NA APLICAÇÃO

A recomendação que Martins faz é que só deverão ser tratados com carrapaticidas os animais que estejam em plenas condições de saúde, enquanto que com os recém-nascidos o uso de carrapaticidas convencionais deve ser evitado.

As instalações precisam ser de fácil acesso, que permitam a contenção adequada dos animais, necessitam estar limpas e devidamente higienizadas, bem como não apresentarem superfícies que possam causar acidentes. Os operadores precisam portar os equipamentos de proteção individuais (EPIs), como luvas, máscara, botas de borracha, e estarem muito atentos às recomendações do fabricante do carrapaticida.

Ao comentar os diferentes métodos de aplicação e problemas mais comuns, Martins enumera uma série deles. No caso dos produtos pour on estão a chuva após a aplicação, diluindo o produto, e o erro na dosagem e no cálculo do peso do animal. Esta última questão também pode acontecer com produtos injetáveis resultando em subdosagem.

Para João Ricardo, o carrapato se combate com mais informações

Na pulverização com equipamentos mecânicos também ocorrem erros no volume do carrapaticida, devendo-se estimar 1 litro de calda para cada 100 kg de peso. Através deste método, outras questões que surgem são: os bovinos não estarem adequadamente contidos durante a aplicação e o pavilhão auricular e outras áreas do corpo do animal podem não ficar devidamente molhadas para promover o bom contato do produto com os carrapatos.

Já no caso dos pulverizadores costais, estes se mostram mais adequados para números menores de animais, pois dependem muito da capacidade física e da disposição do operador para aplicar realmente o volume necessário (1 litro de calda para cada 100 kg de peso), o que nem sempre acontece. Os primeiros animais costumam receber a dosagem certa, para, depois, ir ficando menor, pelo cansaço natural do aplicador.

O veterinário do IPVDF avalia o banho de imersão como o melhor método para realmente colocar o princípio ativo em contato com o carrapato. Mas existem os prós e os contras como a manutenção das instalações necessárias, docilidade dos animais, reposição e troca dos princípios, impacto ambiental e risco de acidentes.

VACINAS CADA VEZ MAIS PERTO

"Espera-se que, num futuro bem próximo, tenha-se na imunologia, por meio do uso das vacinas, uma importante alternativa para o controle do carrapato", afirma Martins. Ele comenta que diversos grupos de pesquisa têm investido pesado na busca por antígenos que controlem eficientemente as populações de carrapatos. Mas faz a ressalva de que resultados promissores atingidos em alguns países necessitam de melhor avaliação em outras situações e que nem sempre a tecnologia adequada a um país pode ser aplicada em outro. Já medidas como o uso de fitoterápicos, diz que ainda necessitam de mais avaliação, especialmente envolvendo populações maiores de bovinos.

O médico-veterinário Renato Andreotti comenta que, com a pressão nos produtos químicos através do desenvolvimento de resistência entre os carrapatos, as vacinas hoje em desenvolvimento devem ser a maior novidade dos próximos anos. "A Embrapa Gado de Corte já possui tecnologia que garante proteção parcial contra os carrapatos e desenvolve novas ações de pesquisa para promover melhorias nos resultados e disponibilizar para o mercado", afirma o pesquisador.

Ele explica que as tecnologias disponíveis, tanto a da vacina cubana como a da Embrapa, são de efeito parcial e podem estar associadas ao controle químico. A possibilidade de produção em escala e o tamanho desse mercado, como aponta, estão na dependência de uma política de preço e da estratégia que o governo adotar. Ele conclui afirmando que "a Embrapa Gado de Corte já possui condições de transferir a tecnologia para a iniciativa privada".


Princípios ativos e formas de ação

Apenas uma fêmea ingurgitada é capaz de produzir de 2 mil a 3 mil ovos

Existem no mercado diferentes substâncias químicas para o controle do carrapato que diferem em composição, forma de aplicação, ação e poder residual. Abaixo estão apresentados os principais grupos e tipos, essenciais para o balizamento na rotação dos produtos.

Basicamente, podem ser divididos em dois grandes blocos por sua forma de ação: os de contato e os sistêmicos. Os primeiros são aplicados por meio de pulverização, imersão ou pour on, enquanto que os segundos são fornecidos através de injeções ou pour on no fio do lombo. Nesta condição, o princípio ativo do produto é metabolizado e distribuído pelo organismo do animal. Os dois grupos costumam ter efeito tanto no carrapato adulto como em sua fase larval.

Produtos de contato

Organofosforados

É o grupo mais antigo de carrapaticidas e pode ser encontrado associado à piretroides ou bernicidas. Quando pulverizado não apresenta poder residual, sendo que o intervalo de tratamento sugerido fica em 21 dias. Dentro do grupo estão o diclorvós e o clorpirifós.

Piretroides

Seu uso começou a ser recomendado com o surgimento de resistência, na década de 1980, aos acaricidas tradicionais. São encontrados produtos originários de pelo menos três subgrupos dessa família: deltametrina, cipermetrina e alfametrina. Estes não possuem ação residual quando aplicados sob a forma de pulverização com o intervalo de tratamento de 21 dias. Novas formulações em associação aos organofosforados têm aumentado sua eficiência. Apresentam baixa toxicidade para mamíferos quando comparados aos organofosforados.

Amidinas (diamínicos)

Grupo que sucedeu aos organofosforados e caracterizou-se pelo alto poder residual com intervalos maiores entre aplicações. Continua um dos mais utilizados, mesmo após mais de 20 anos no mercado.

Fipronil

Similar às avermectinas, atua no sistema nervoso dos carrapatos, provocando paralisia. Não pode ser aplicado em animais em lactação.

Thiazolina

Existe formulação associada à piretroide para utilização na imersão ou pulverização. Para consumo da carne, sua carência é de três dias e pode ser aplicado nos animais em lactação.

Naturalyte

Componente ativo (spinosad) oriundo da fermentação de um fungo e com atuação no sistema nervoso central do carrapato. Sem restrição para vacas em lactação.

Produtos sistêmicos

Lactonas macrocíclicas

Derivadas de produtos obtidos da fermentação de um fungo (S. avermitiles), existem no mercado quatro subgrupos: ivermectin, moxidectin, doramectin e abamectin. Agem na transmissão do impulso nervoso dos carrapatos, que morrem paralisados. Não podem ser aplicados nas vacas em lactação e 30 dias antes do abate. São encontradas formulações pour on liberadas para uso na lactação. Revelam maior poder residual que os piretroides e, por serem eficientes também contra vermes e bernes, são chamados de endectocidas.

Fluazuron

Diferente de todas as substâncias citadas, não permite que os carrapatos mudem de fase, cresçam ou se reproduzam, controlando sua população. De maneira similar aos derivados das avermectinas, não pode ser usado nas vacas em lactação e é aplicado na forma pour on, apresentando circulação sistêmica.

O erro mais comum na pulverização é não respeitar a relação de 1 l de carrapaticida para cada 100 kg de peso vivo

Fonte: Comunicado Técnico 123, Embrapa Gado de Corte, Campo Grande, MS, agosto de 2010. Adaptação: Revista AG.


NOCAUTE nos carrapatos

Nova associação causa efeito knock down e ajuda a controlar outros ectoparasitas

Marcus Rezende*

O Brasil é mundialmente reconhecido pelo expressivo crescimento de população e produção pecuária. Ano a ano, o agronegócio brasileiro bate recordes que contribuem para a balança comercial e sobretudo para o atendimento da demanda mundial de proteínas de origem animal. Somente em 2012 o País produziu 9,2 milhões de toneladas de equivalente-carcaça bovina, o que conferiu a 2ª posição entre os maiores produtores de carne bovina no mundo. No tocante ao leite, neste período o país produziu mais de 32,1 bilhões de litros, segundo o IBGE. Assim, juntamente com o complexo soja e sucroalcoleiro, a pecuária é um dos importantes personagens que fazem o agronegócio brasileiro mundialmente reconhecido e respeitado.

Entretanto, para se produzir em um país tropical e com políticas agrárias nem sempre favoráveis, o produtor tem de se superar ano a ano. Produzir em um país tropical tem suas vantagens quanto à produção de forragens, mas exige atenção especial no que se refere à sanidade, principalmente no tocante aos parasitos. As mesmas condições que favorecem o crescimento das pastagens também criam ambiente favorável a muitos desafios sanitários. Três são os personagens centrais da batalha sanitária que o pecuarista brasileiro trava dia a dia para manter o rebanho limpo, saudável e em ordem de importância são: o carrapato, a mosca-dos-chifres e o berne.

Os carrapatos são os principais causadores de prejuízos ao rebanho, uma vez que além da transmissão de doenças como a tristeza parasitária bovina, também causam queda de produção leiteira e atraso no ganho de peso, perdas na desmama, predispõem o gado a bicheiras e podem até levar os animais à morte.

Tecnicamente, considera-se que a partir de 20 carrapatos adultos por lado em um animal já é motivo de preocupação. O controle deste ectoparasita baseia-se na utilização de produtos químicos na forma pour on ou pulverização. A associação de métodos de controle químico com o manejo estratégico dos animais permite um controle ainda mais eficaz, uma vez que temperatura, umidade e altura de pastagens devem ser consideradas para adoção de estratégia de controle deste ectoparasito. Na região Sudeste, entre os meses de outubro a abril, as condições climáticas favoráveis (temperatura elevada, umidade alta e crescimento das pastagens) imprimem um ciclo parasitário mais curto e o seu controle e combate é bastante dificultado. Já nos meses de junho a agosto, a estiagem permite um controle mais fácil, com intervalos de tratamentos mais espaçados. Este período, em especial, é muito importante e é comumente negligenciado por conta da diminuição natural dos carrapatos. Um sério erro estratégico, pois este é um período hostil para os carrapatos e que poderia ser melhor utilizado para diminuir a infestação parasitária das pastagens. Tendo conhecimento destas características, o Médico Veterinário pode elaborar um calendário estratégico de combate a este parasito, obtendo resultados mais eficientes e perenes para o produtor.

Embora o carrapato seja o mais conhecido e importante dos ectoparasitos do rebanho bovino brasileiro, ele não está só. A mosca-dos-chifres, presente no Brasil desde o final da década de 70, também provoca perdas econômicas contundentes, algo em torno de 150 milhões de dólares anuais. Tem característica hematófaga, mas a sua importância não está ligada simplesmente ao fato de "sugar o sangue" dos bovinos, mas sim devido ao estresse provocado pelas picadas incessantes e em locais de difícil alcance, pela cabeça e cauda dos animais. Estudos mostram que para cada 100 moscas que parasitam um animal, ocorre a diminuição de 8,1 kg no ganho de peso destes indivíduos. Com relação à produção de leite, esta parasitose pode reduzir em até 20% a produção por animal, o que pode significar menos leite no tanque, no caso de animais leiteiros, ou bezerros desmamados mais leves, no caso de vacas de corte. Ainda vale destacar que a parasitose por moscas-dos-chifres também impacta nos índices reprodutivos do rebanho.

O ciclo da mosca-dos-chifres varia de 10 a 15 dias conforme a temperatura: quanto mais quente, mais curto. É recomendado que se utilize os métodos de controle nos períodos que correspondam ao início e ao final das chuvas (período de maiores infestações). Dependendo da região e da sazonalidade das moscas, haverá a necessidade de tratamento durante todo o ano. A melhor forma de controle é por meio do uso de brincos mosquicidas, de produtos pour-on ou pulverização, conforme o manejo da propriedade. Para o gado de leite, o desenvolvimento de produtos com descarte zero de leite permitem que o combate a este parasito não impacte na produção da propriedade.

Por fim, o terceiro ectoparasito de maior impacto na produção pecuária brasileira é o berne. Comum nos rebanhos brasileiros, ele é a larva da mosca Dermatobia hominis, que provoca uma miíase nodular primária conhecida como dermatobiose ou, mais popularmente, berne. Tem maior ocorrência em épocas que permitem períodos quentes durante o dia e frescos de noite, ou seja: a primavera e o verão na maior parte do Brasil e o ano todo em regiões de beira de mata, rios e serras. Destaca-se a sua maior incidência do lado esquerdo nos animais, uma vez que os animais têm por característica preferirem deitar-se sobre o lado direito, deixando o esquerdo exposto às moscas berneiras.

Os prejuízos relacionados a esta larva se devem principalmente à desvalorização do couro, mas também pode ocorrer morte de bezerros altamente infestados, queda da produção de leite e formação de abscessos que servem de porta de entrada para miíases ocasionadas por Cochliomyia hominivorax. No Brasil, um estudo demonstrou que 7 milhões de peles de bovinos são condenadas anualmente por apresentarem excesso de perfurações provocadas pelo berne.

Marcus Rezende informa que, nos meses de junho a agosto, a estiagem colabora para um controle mais fácil

Tendo em vista o desafio ao qual o pecuarista brasileiro encontra-se exposto, com perdas econômicas e produtivas decorrentes dos ectoparasitos, uma nova associação chega para combater esses inimigos. Um ectoparasiticida composto por cipermetrina 15%, clorpirifós 30% e fenthion 15%, que devido à concentração e à sinergia dos ativos tem o conhecido efeito knock down. Graças a esta característica se pode notar os resultados da aplicação do produto já nas primeiras três horas após a pulverização dos animais.

Pesquisa mostra resultado após 21 dias de banho de imersão com a nova molécula

Clorpirifós e o fenthion são princípios ativos da classe dos organosforados, medicamentos acaracidas que atuam sobre a acetilcolinesterase, impedindo a enzima de quebrar a ligação de acetilcolina com seu receptor, provocando uma superestimulação, com consequente paralisia espástica e morte do parasito. A cipermetrina é um piretroide sintético, atua sobre os canais de cloro do parasito, provocando uma superestimulação, mas nas fibras nervosas, e também causando paralisia espástica e morte.

O produto também tem efeito desalojante nas larvas do berne e repelente em mosca-dos-chifres. A diluição deve respeitar a proporção de 1:800 (25 ml do produto em 20 L de água limpa), aplicado em banho de pulverização. A associação foi testada com sucesso em três experimentos com 70 animais. Especificamente no estudo com carrapatos, foram utilizados 20 bovinos taurinos de 14 a 20 meses de idade naturalmente infestados. O estudo foi conduzido pelo pesquisador Dr. Francisco P. J. Alves Branco e a pulverização foi realizada por banho de imersão.

Além da preocupação com a sanidade, é preciso que o produtor esteja atento e bem orientado no que se refere à alimentação do rebanho e ao manejo de pastagens. Essas ações conjuntas possibilitam a maximização do ganho em peso e da produção de leite, além de permitirem a chegada do almejado retorno financeiro.

*Marcus é diretor-técnico Saúde Animal da Ourofino Agronegócio. Apoiou Raissa Raineri


VITÓRIA no Rio Grade do Sul

Controle e manejo estratégico melhoram a eficiência do tratamento, diminuindo os prejuízos do condomínio Fúlvio Polto

Miguel Domingues Jr.*

Diante de um problema que acomete cerca de 80% do gado brasileiro, tanto o de corte como o de leite, o médico-veterinário Dr. Rud-son Luís da Rosa Luz, responsável pela saúde dos animais do condomínio Fúlvio Polto, situado no estado do Rio Grande do Sul, foi buscar no mercado uma solução que o ajudasse a conter a proliferação dos carrapatos bovinos, Rhipicephalus (Boophilus) microplus. Contando com o apoio técnico¹, o veterinário optou pela adoção do controle estratégico baseado num programa sanitário que associa o fluazuron² - princípio ativo que inibe o crescimento das formas jovens dos carrapatos – associado à doramectina³ a 1% de concentração, parasiticida de amplo espectro de ação, mesmo contra as formas adultas do carrapato.

No caso da Estância do Rincão, em Alegrete/RS, propriedade do condomínio Fúlvio Polto, a implantação do programa de controle estratégico do carrapato somado ao manejo adequado do gado permitiram diminuir significativamente estes parasitos, que são responsáveis por prejuízos da ordem de mais de US$ 2 bilhões no Brasil, perdas essas relacionadas ao desgaste dos animais pelo hematofagismo; à irritação causada no local da picada; à anemia e perda de peso; à redução da resposta imune; às lesões da pele; à transmissão de doenças como a Babesiose e Anaplasmose; à diminuição na produção de leite e até à morte dos animais.

Com 3.365 hectares, a fazenda possui 2.300 animais – desses 1.000 são vacas prenhes -, em um sistema de produção de cria e recria de fêmeas, com um índice médio de prenhez de 76%. "A propriedade tem uma topografia acidentada, com mato espesso, o que dificulta ainda mais o manejo do gado e o controle do carrapato, que é endêmico aqui na região", conta o Dr. Rudson, enfatizando que o uso do fluazuron tem melhorado a eficiência do tratamento e o retorno financeiro do pecuarista.

Desde larva até a forma adulta, o carrapato passa por três grandes mudas. "Produtos à base de fluazuron 2,5% de concentração² atuam nesses momentos de transição, inibindo o desenvolvimento do parasito. A molécula age na formação de quitina – substância essencial para a formação da cutícula (exoesqueleto destes parasitos). O fluazuron impede que as larvas sofram as mudas e atinjam a fase adulta, deixando de contaminar o meio ambiente. Seguro, pode ser aplicado em touros, vacas prenhes e conjuntamente com vacinas.

O carrapato dos bovinos é bastante adaptado às condições climáticas de grande parte do território brasileiro. No entanto, tanto no gado de corte quanto no de leite as raças de origem europeia e os animais cruzados (taurinos x zebuínos) são mais suscetíveis aos carrapatos do que as zebuínas puras. Por conta disso, os maiores prejuízos são observados na região sul do País, nas regiões leiteiras – como Minas Gerais – e no Centro-Oeste – devido aos cruzamentos industriais de bovinos. Após completar o ciclo parasitário, em apenas 21 dias, a fêmea ingurgitada se desprende do animal e é capaz de depositar de três a quatro mil ovos na pastagem, dando início à fase de vida livre do ciclo. Neste momento, apenas 5% dos parasitos encontram-se no gado e 95% dos carrapatos estão no pasto.

A implantação de um bom programa de controle estratégico capaz de evitar prejuízos depende do conhecimento, em detalhes, de características biológicas do carrapato dos bovinos, entre elas o ciclo de vida e as características reprodutivas, assim como a influência do meio sobre a capacidade de sobrevivência nas diferentes fases de vida dos parasitos (fase parasitária e fase de vida livre). Conhecendo estas características, é possível estabelecer medidas eficazes de controle e definir os momentos ideais de tratamento dos animais durante o ano, antes de o grau de infestação nos animais atingir o nível crítico. Com isso, é possível evitar a perda de produtividade.

O objetivo do Controle Estratégico é aliar o uso de produtos ao conhecimento epidemiológico dos parasitos. Assim, considerando estas características na região Sul do Brasil, por exemplo, os tratamentos estratégicos deveriam ser iniciados entre final de setembro e começo de outubro - uma vez que o pico da primeira geração dos parasitos acontece em novembro - e deve estender-se por mais 120 dias, mantendo os animais protegidos até janeiro.

"Temos preconizado a adoção do controle estratégico. Isso tem reduzido consideravelmente a população total de carrapatos na propriedade. Hoje, esta iniciativa, somada ao manejo adequado, é determinante na rotina das atividades das fazendas", conclui o Dr. Rudson.

Ainda de acordo com o executivo, a assessoria técnica permite acesso a todas as condições ideais para oferecer programas integrados e eficazes para controle de parasitos internos e externos. Promovendo-se constantemente o treinamento da equipe, para levar informação de qualidade ao campo, e ações educativas com foco nos pecuaristas e revendas, contribui-se para o uso racional e adequado dos medicamentos veterinários. É importante ressaltar, ainda, que para elaboração de um programa de controle de carrapatos, é sempre importante buscar a orientação de um veterinário.

*Miguel é gerente de Produto da Linha de Antiparasitários e Vacinas Anticlostridiais da Unidade de Negócios Bovinos da Zoetis¹. ²TackZuron Pour-on ³Dectomax