Caprinovinocultura

 

Produção valorizada com a genética

Investimento de criatórios especializados dissemina qualidade entre o rebanho brasileiro

Denise Saueressig
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O crescimento da caprinovinocultura no Brasil vem estimulando investimentos em genética por parte de criatórios especializados. Em diferentes regiões do País, produtores trabalham com reprodutores e matrizes capazes de fornecer as melhores características aos rebanhos comerciais e, consequentemente, à carne que chega ao consumidor.

No Rebanho Caroatá, em Gravatá/PE, o esforço pelo melhoramento começou em 1998, quando o pecuarista Luiz Felipe Brennand iniciou a importação de caprinos da raça Boer dos Estados Unidos e adquiriu ovinos Santa Inês de criadores nordestinos. A partir do ano 2000, chegaram à fazenda os primeiros embriões Dorper da África do Sul, berço da raça. "Logo a genética passou a ser aperfeiçoada com as técnicas de reprodução assistida", recorda o veterinário Álvaro Borba, responsável técnico da empresa.

Hoje, o rebanho é formado por 470 animais de elite, entre exemplares Santa Inês, Dorper, Boer, Savana e Toggenburg. O trabalho genético, que é aperfeiçoado com cruzamentos e importações, já rendeu uma série de premiações à Caroatá. Na raça Boer, por exemplo, foram seis anos consecutivos como melhor criador e expositor do Brasil.

A seleção genética conduzida pela Caroatá busca características como altas taxas de fertilidade, adaptação a diferentes condições de clima, precocidade e qualidade da carne. E são justamente esses os diferenciais que atraem compradores de diversos estados. "A maioria dos nossos clientes está no Nordeste, mas já realizamos negócios com criadores do Sudeste, do Centro-Oeste e até do Paraná", destaca Borba.

Engenheiro agrônomo Carlos Vilhena: características dos animais atraem clientes de diferentes regiões do País

As vendas são feitas por meio de leilões, em feiras agropecuárias e de forma direta. O mercado sentiu bastante os efeitos da seca que afetou a Região Nordeste, mas agora está num momento de retomada, avalia o veterinário. Na opinião dele, a genética tem sido fundamental para sustentar o desenvolvimento da caprinovinocultura no Brasil, mas, ao mesmo tempo, a organização da cadeia não acompanhou o processo de evolução qualitativa dos criatórios. "São questões que precisam de um maior suporte dos órgãos governamentais e que travam novos investimentos no setor", constata.

No Rebanho Caroatá, o esforço pelo melhoramento dos animais vai continuar. "A genética é dinâmica e o mercado é quem dita as necessidades e demandas. Há três anos, adquirimos embriões Dorper da Austrália e, mais recentemente, embriões Boer, também da Austrália", conta Borba.

NEGÓCIOS AQUECIDOS

O município de Jarinu/ SP, a cerca de 70 quilômetros da capital, abriga a sede da Dorper Campo Verde, onde ovinos Dorper e White Dorper são selecionados desde 2006. O trabalho iniciou com viagens à África do Sul, onde foram avaliados e escolhidos doadoras e reprodutores para o acasalamento e envio de embriões ao Brasil. Entre 2007 e 2009 foram importados 4,5 mil embriões. "Em 2008, começamos a participar das exposições e, em 2013, conquistamos o pentacampeonato das duas raças na Feinco (Feira Internacional de Caprinos e Ovinos). Na prática, esse é um atestado de credibilidade e o reconhecimento como um criatório de excelência", ressalta o engenheiro agrônomo Carlos Vilhena, gerente da Dorper Campo Verde.

Rebanho da Dorper Campo Verde em Jarinu/SP é formado por mil animais PO e mil fêmeas receptoras

Na opinião do agrônomo, um dos principais diferenciais da fazenda é a grande variabilidade genética, característica que atende criadores de várias regiões do País. "Temos uma clientela forte no Nordeste, no Sudeste e alguns compradores no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, mas já vendemos inclusive para o Acre e para o Amazonas", relata.

A precocidade de terminação também é valorizada. Com 60 dias de vida, na época da desmama, os cordeiros machos têm peso médio de 23 quilos, enquanto as fêmeas pesam, em média, 21 quilos. Assim, aos 100 dias, os animais estão prontos para o abate. "Em São Paulo, o quilo do cordeiro vivo está em torno de R$ 6, um preço muito bom que ajuda a aquecer a demanda por reprodutores voltados aos rebanhos comerciais. Vendemos animais com 12 meses com a confirmação de registro e o exame andrológico com médias de preço entre R$ 2 mil e R$ 3,5 mil", detalha Vilhena. Ele lembra que o reprodutor de elite "Karoo" chegou a ser comercializado por um valor recorde de R$ 108 mil.

O plantel da Campo Verde é formado por mil animais PO, entre machos e fêmeas, e outras mil receptoras. O rebanho alcançou a estabilidade e, como não há sazonalidade na produção, os nascimentos e as vendas acontecem independente da época do ano. A atualização genética segue com a importação de material de outros países. "Neste mês devo retornar à África do Sul e à Namíbia para uma atualização", declara o gerente.

Paralelo ao investimento genético, a Dorper Campo Verde planeja a instalação de uma fazenda voltada à produção de carne. Entre os estados analisados para o novo empreendimento estão o Mato Grosso e a Bahia, mas a definição deve ocorrer somente no próximo ano.