Sala de Ordenha

 

A elevação dos preços do leite e a política de importações

Marcelo Carvalho

Em média, nos últimos 15 anos, a produção inspecionada de leite no primeiro semestre do ano normalmente é 5% maior do que a produção no mesmo período do ano anterior. Contudo, os dados do primeiro trimestre de 2013 apontam queda na produção inspecionada de 1,4% sobre o mesmo período do ano anterior e, embora não tenhamos os dados do segundo trimestre ainda, a expectativa é que o acréscimo da produção do primeiro semestre de 2013 sobre 2012 tenha sido mínimo - se é que houve.

A disponibilidade de produtos lácteos por pessoa (considerando importações e exportações, além da produção) caiu ainda mais no primeiro semestre. Nosso cálculo indica que cada habitante teve à disposição no primeiro trimestre -4,3% de leite em comparação a 2012, mostrando escassez do produto.

Essa escassez é que estimulou a forte elevação dos preços no atacado e no varejo (gráfico abaixo), que traz os amostrados pelo Cepea/USP. Os valores não estão corrigidos pela inflação.

A menor disponibilidade de leite resultou em aumento de preços. Na realidade, a situação atual é reflexo de três fatos pontuais: 1) Crise de 2012, com preços em queda a partir de junho e custo de alimentação nas alturas; 2) Escassez de leite no mercado internacional; 3) Correção cambial, dificultando importações.

Nesse sentido, o governo parece considerar a redução ou eliminação da Tarifa Externa Comum, de 28%, para produto de fora do Mercosul, como uma tentativa de reduzir os valores.

Uma questão importante a discutir é se a eventual redução das tarifas irá resultar em entrada de leite nesse momento, reduzindo os preços e aliviando a inflação como supostamente pretende o governo.

Se considerarmos os valores do leilão gDT, bem como o patamar de câmbio, em R$ 2,25 para julho, constataremos pelo que nos últimos meses o valor do produto no mercado internacional ficou acima do preço médio pago ao produtor brasileiro, de forma que o fim da TEC não resultaria em maior entrada de leite no momento, gerando, por outro lado, insegurança ao produtor brasileiro, que não conta com as políticas públicas de vários países que poderiam exportar para cá sem impostos.

Os efeitos poderiam vir justamente quando não seria mais necessário importar: a partir de novembro/dezembro, quando se espera uma maior oferta no mercado mundial, com redução de preços, no momento em que por aqui também a oferta aumenta.

Por outro lado, pode-se argumentar que embora as cotações no leilão gDT estejam mais elevadas do que o leite nacional, o valor do produto que entra no País tem resultado em custo abaixo do valor pago ao produtor. Em julho, por exemplo, a diferença teórica foi de R$ 0,05/litro a favor do leite importado, mais barato que as cotações internacionais.

A diferença, portanto, existe, mas não é significativa no momento. Assim, além de pouco efetiva, o fim da TEC iria gerar insegurança e desestímulo para os meses e anos seguintes, criando um efeito cascata e tornando o setor dependente das importações, piorando a balança comercial brasileira.

Melhor seria estabelecer um programa de redução gradual das tarifas, caso o objetivo seja de fato inserir o Brasil em um ambiente de mercado mais livre – o que concordo plenamente. Esse processo, porém, teria de ser acompanhado por uma série de medidas de apoio.

Marcelo Pereira de Carvalho, diretor-executivo da AgriPoint Carlos Eduardo Venturini, estagiário, graduando em Ciências Econômicas pela ESALQ/USP