Leite

 

Instalações ADEQUADAS

Melhorar a estrutura é zelar pelo bem-estar das vacas de produção

Breno Assis*

Prezar pelo bem-estar dos animais dentro do sistema de produção ao construir instalações adequadas é uma das principais metas a serem atingidas visando melhores ganhos produtivos. A produção de leite com elevados padrões de qualidade inicia-se em instalações que proporcionem o conforto animal necessário.

Em termos gerais, as instalações destinadas a bovinos leiteiros possuem as funções de proteger os animais contra intempéries climáticas, otimizar o manejo desses e promover a movimentação de máquinas e equipamentos de forma econômica e racional. Dessa forma, deve-se buscar uma infraestrutura com as seguintes características:

• Viabilidade econômica.

• Fornecimento de um ambiente de conforto e saúde para os animais.

• Integração entre os sistemas de ordenha, alimentação e descanso.

• Oferta de condições de trabalho adequadas para os ordenhadores e demais funcionários.

• Cumprimento das regulamentações ambientais e sanitárias.

Há que se considerar determinados requisitos fundamentais no planejamento da estrutura de exploração leiteira, no que se refere a condições provenientes de natureza climática, estrutural e social. Nesse sentido, as considerações a seguir correlacionam bem-estar animal com ganhos, ao minimizar alguns transtornos observados corriqueiramente nas propriedades de exploração leiteira intensiva.

• Boas instalações permitem que os animais descansem por tempo adequado e consumam alimentos dentro das suas necessidades.

• Pisos com frisamento correto evitam que as vacas escorreguem e tenham fraturas ou traumatismos, assim como a textura e a inclinação adequadas neste piso poupam o desgaste excessivo dos cascos.

• Estábulos ou piquetes em locais limpos e secos evitam a proliferação e a contaminação por germes patogênicos

Vale a pena lembrar que níveis de excelência em produtividade, atrelados a condições de bem-estar animal, estão também condicionados a tarefas envolvendo todos os elementos participantes do sistema, incluindo a equipe de trabalho. É imprescindível uma equipe composta de profissionais comprometidos e engajados a colocar em prática tudo o que foi projetado.

PLANEJAMENTO DA SALA DE ORDENHA

A sala de ordenha deve ser planejada considerando tamanho do rebanho, produtividade, nível de mecanização, número de ordenadores e os planos de expansão. Deve possuir um pé direito de pelo menos 4 m de altura para um bom nível de ventilação.

Além disso, deve se localizar próxima aos galpões de confinamento, com o objetivo de os animais caminharem menores distâncias sob o sol, além de tornar as ordenhas diárias mais eficientes.

Com o objetivo de diminuir a relutância dos animais em adentrarem ou, até mesmo, permanecerem na sala de ordenha, é necessário evitar algumas situações, como criar ambientes fechados, diferenças bruscas de luminosidade entre locais claros e escuros, curvas muito fechadas a serem feitas pelos animais e desníveis de pisos.

Salas de ordenha sem paredes laterais são preferidas, pois aumentam a ventilação natural; o ambiente fica menos abafado durante o verão, são mais econômicas, aumentam a reflexão sonora e demandam menores gastos de tempo e água na limpeza das instalações após cada ordenha.

CURRAL DE ESPERA

O curral de espera deve possuir área de 2 a 2,50 m² por animal. O piso deve ter uma inclinação no sentido da sala de ordenha, estimulando a passagem das vacas do curral de espera para a ordenha

O estresse calórico é um fator preocupante quando se fala de curral de espera. Caso não sejam tomados os devidos cuidados, a sala de espera pode se tornar o ambiente mais estressante para os animais, considerando todo estábulo de produção leiteira. Neste sentido, para obter condições térmicas adequadas, o ideal é utilizar coberturas artificiais, como os sombrites, que são uma opção de baixo custo; ventiladores, aspersores e sempre a presença de bebedouros.

Em sistemas de produção leiteira que realizam duas ordenhas por dia, os animais não devem permanecer mais de 90 minutos na sala de espera, enquanto que em sistemas de três ordenhas diárias, este tempo cai para 60 minutos.

COMEDOUROS

Os animais alimentam-se geralmente juntos, sendo necessário evitar competições por comida, o que pode levar à redução no consumo e, consequentemente, à diminuição na produtividade e à predisposição a patologias como deslocamento de abomaso e acidose ruminal subaguda. Desta forma, é imprescindível determinar um adequado espaço de cocho, possuindo aproximadamente 1,25 m linear por animal.

Outro ponto importante é atentar-se à limpeza dos cochos, retirando resíduos de alimentos do dia anterior, que podem estar fermentados, prejudicando, também, o consumo dos animais.

Em sistemas de produção leiteira que utilizam pista de alimentação, esta deve permanecer de 5 a 15 cm acima do nível onde se encontra a vaca e possuir largura entre 0,80 a 0,90 m. Os corredores de alimentação devem ter largura entre 1,80 e 2,0 m para as vacas que estão comendo, além de 0,70 m para a circulação dos demais animais.

BEBEDOUROS

Para assegurar a produção de leite, manter a temperatura corporal e demais funções vitais dos animais adequadas, é necessário oferecer a eles uma água fresca e limpa, com proporções quantitativas em torno de 20 a 40 litros por dia, devendo os bebedouros serem construídos de maneira a oferecerem tal demanda.

A altura dos bebedouros deve ser próxima a 0,75 m e a largura deve ser de 0,70 m, caso o acesso seja por apenas um lado, ou de 1,0 m, caso seja pelos dois lados. De certa forma, o dimensionamento dos bebedouros obedece à relação de disponibilidade de água pelo número de animais com acesso.

A vazão de água é ainda mais importante do que as dimensões dos bebedouros, no sentido de evitar a restrição de água para os bovinos. A vazão não deve ser inferior a 10-20 litros por minuto, evitando um tempo longo de enchimento e renovação da água.

Os bovinos possuem maior afeição para bebedouros mais rasos, com água limpa, que permitem a visualização do fundo. Outro fato é que estes animais preferem consumir a água com temperatura entre 25 e 30 °C, tendendo a diminuir o consumo quando a temperatura desta está abaixo de 15 °C.

CAMAS

As camas devem ser planejadas para que as vacas consigam deitar, levantar descansar e ruminar normalmente. Os cubículos devem ter uma largura mínima para que os animais possam deitar e levantar e uma largura máxima para que não deitem de forma inadequada ou virem-se dentro do cubículo, prezando por conforto e limpeza da instalação. Em relação ao comprimento, caso sejam construídos cubículos muito compridos, as vacas deitam muito à frente, acumulando fezes na cama. Por outro lado, cubículos muito curtos podem gerar relutância dos animais para deitar, devido ao desconforto. Sendo assim, as metragens recomendadas são largura de 1,22 m por animal e comprimento de 5,48 m por animal.

Em relação ao material para compor as camas, a areia é mais indicada, por ser um material inorgânico e que manejado corretamente diminui os níveis de proliferação bacteriana nas camas. Além do mais, a prevalência de claudicação em animais submetidos a camas de areia é menor se comparada a outros materiais.

PISO

O tipo de piso que compõe o estábulo de produção leiteira deve permitir que as vacas caminhem seguras, sem medo de cair ou escorregar. Devem ser construídos com materiais que suportem o peso dos animais e que provoquem o menor impacto negativo sobre os cascos.

O piso de concreto com ranhuras é o mais utilizado, por proporcionar maior facilidade de limpeza, segurança na pisadura dos animais, durabilidade e preço acessível. Este tipo de piso deve possuir composição, inclinação e design próprio, de acordo com a área onde será utilizado. Metragem: inclinação de 1% a 2%, ranhuras com 1,2 cm de largura e profundidade, espaçadas por 5 a 8 cm.

TELHADO

Os telhados exercem grande influência térmica no ambiente, sendo assim, devem ser bem planejados de acordo com a orientação, inclinação, tipo de telha e largura de beiral, os quais interferem de maneira direta na quantidade de calor que entra e sai das edificações.

A altura ideal para o pé-direito é de 4 a 4,5 m, para obter uma boa troca de calor entre o animal e a cobertura e entre o animal e o ambiente externo. Com o objetivo de melhorar a saída do ar quente e evitar o acúmulo de gases no interior das edificações do estábulo leiteiro, o telhado deve ser dotado de uma abertura na cumeeira, denominada lanternin, cuja altura deve ser de 5 cm para cada 3 m de largura do galpão.

Para Breno Assis, é míope a visão que não enxerga retorno econômico ao investir nas instalações

Em relação ao tipo de telha utilizado na composição dos telhados, a telha de barro apresenta os melhores índices de conforto, seguida pelas telhas de cimento amianto pintadas de branco e pelo alumínio, respectivamente. Aspergir água sobre o telhado também auxilia na redução da temperatura da telha, resultando na diminuição da carga térmica radiante sobre os animais.

CLIMATIZAÇÕES

É comprovado que o estresse térmico tem efeitos negativos sobre o bem-estar das vacas leiteiras e consequente redução na produtividade destas. É imprescindível a adoção de estratégias para a dissipação do calor no estábulo de produção leiteira intensiva.

A ventilação das instalações pode ser feita por meio de métodos naturais ou artificiais. Para uma boa climatização natural, é necessário levar em consideração a orientação, a localização e a estrutura dos pavilhões de alojamento, com o objetivo de tirar partido das correntes de ar, diferenças de temperatura e pressão.

Por vezes, quando a ventilação natural não é suficiente, recorre-se à ventilação artificial, lançando mão de sistemas de climatização com ventiladores e, para locais de alto estresse térmico, o sistema de resfriamento evaporativo adiabático, o qual combina ventilação e nebulização de água. Os ventiladores devem ser instalados à altura média do pé-direito, pois o ar neste local é mais fresco e o jato deve direcionar-se para baixo, sem incidir diretamente sobre a cabeça do animal. Os ventiladores podem ser instalados no curral de espera, nos locais de repouso dos animais e no corredor de alimentação. No sistema de resfriamento evaporativo adiabático ocorre a formação de gotículas extremamente pequenas, que aumentam muito a superfície de uma gota d'água exposta ao ar, o que assegura a evaporação mais rápida, levando a sensação de frescor. Este sistema é mais efetivo em climas de alta temperatura e baixa umidade.

IMPACTO ECONÔMICO

Mesmo diante destas constatações, ainda existem produtores de leite que encaram as instalações como um investimento de baixo retorno. Todavia, esta visão é míope ao não considerar a influência que as instalações bem desenhadas e dimensionadas têm na saúde animal, no longo prazo, impactando, positivamente, no aumento da qualidade e produtividade do leite.

Para obter bons níveis produtivos, atrelados à qualidade do produto final, no caso o leite, é extremamente necessário considerar as condições de bem-estar dos animais que compõem o sistema de produção. Nesse sentido, com o trabalho em questão, é possível concluir que as instalações que compõem os setores do estábulo de produção leiteira intensiva possuem grande impacto em diversos parâmetros comportamentais e fisiológicos dos animais, influindo nas condições de acondicionamento, alimentação, saúde em geral, manejo e conforto térmico, dentre outros. Dessa forma, é imprescindível um planejamento prévio na construção das instalações, adequando-as à realidade de cada sistema de produção, bem como a manutenção das mesmas ao longo do tempo.

*Breno Assis é médico-veterinário e técnico da equipe IDEAGRI (www.ideagri.com.br).