Caindo na Braquiária

 

Da soja de Parecis ao boi preoce de Juína

Alexandre Zadra

Após seis anos longe, era hora de visitar o Centro-Oeste do Mato Grosso, mais especificamente a cidade de Juína, emancipada em 1979 do Município de Aripuana, tendo como atividade forte a pecuária.

Acompanhado por Cedric Minelli e Ricardo Vilas Boas, talvez os mais experientes profissionais de venda de sêmen do MT, tínhamos um plano de paradas em importantes pecuaristas até chegar a nosso destino. Foi logo após o almoço que fizemos nossa primeira visita em Barra dos Bugres. Essa propriedade é muito bem gerenciada pelo veterinário Fabio, um dos grandes conhecedores da prática da reprodução bovina e da lida de campo. Nessa propriedade, conhecemos rebanhos de diversas raças puras, como Nelore pintado, onde Fabio nos confidenciou o quão custoso é fazer um animal destacado pela pintura, sendo ao mesmo tempo produtivo. Pudemos também admirar a precocidade do Sindi PO, bem como a pureza do Guzerá. Comercialmente, a fazenda trabalha com matrizes Nelore, onde vem usando sêmen de Angus para fazer o cruzado F1, animal que será terminado a pasto castrado. O que nos deixou fascinados foi o capricho com as casas das colônias de empregados, onde uma particularidade é não haver distinção de moradia entre capataz e campeiros. Todas as casas da colônia obedecem ao mesmo padrão de construção.

Após uma boa noite de sono e um café reforçado, partimos logo cedo para uma reunião com Ricardo , outro gerente de um grande grupo de fazendas, sediado em Tangará da Serra, cidade entre as cinco maiores do estado. O lidimo administrador traçou um perfil do sistema de produção, o qual tem como base matrizes Nelore seleção PO e aneloradas comerciais, voltadas à produção de superprecoce com a cabeceira da bezerrada F1, confinando-a após desmame. Tais bezerros são suplementados com ração no creep-feeding a partir dos 60 dias, consumindo 100 kg de ração, em média. Os animais destinados à produção de superprecoce são escolhidos através do peso mínimo.

Viria então a etapa da viagem que para mim significaria a epítome da agriagricultura moderna, onde percorremos mais de 150 km de estrada na famosa e impressionante Chapada dos Parecis. Para muitos estudiosos, uma das maiores extensões de terras contínuas agricultáveis do mundo, deixando-me extasiado com a qualidade da terra que outrora era habitada por índios, num cerrado alto de solo areno-argiloso.

Passando sobre o lindo rio Juruena, não tardaria para desembarcarmos em Juína, no nosso destino final, a fim de participar do dia de campo da Fazenda Coroados, da família Basilio, e visitar o projeto do pecuarista Genes Rios.

Na manhã seguinte, seguimos Castanheiras, município que dista 30 km de Juína, onde, mesmo já preparados para encontrar o melhor da genética Senepol no dia de campo do Sr. Jorge e filhos, nossa expectativa foi superada em demasia, encontrando uma apresentação de diversos lotes de cruzamento, entre Nelore e Angus, Wagyu e Angus, Wagyu x meio-sangue Angus (tricross), Senepol x Nelore e Senepol x meio-sangue Red, bem como o Wagyu PO, Senepol PO e Nelore PO. Um dia de campo digno de aprendizagem do cruzamento na prática. Vale lembrar que hoje o projeto genético da Fazenda Coroados é tocado no campo por Douglas Basilio, um dos filhos pródigos, formado em veterinária; enquanto isso, o irmão, Diogo, presidente do Sindicado Rural de Juína, lidera a classe pecuária da região.

Após almoçarmos com outros 300 participantes do Dia de Campo, na Coroados, rumamos para a Fazenda Montanha, do Sr. Genes Rios, quase vizinha dos Basilio. Lá, observamos bezerros F1 Angus de excelente qualidade no pé de matrizes Nelore. Já as matrizes meio-sangue Angus são cobertas por Senepol, a fim de manter um pelo muito curto dos bezerros. O objetivo do Sr. Genes é abater animais inteiros F1 com no máximo 24 meses, e com acabamento mínimo através do confinamento próximo a cidade, onde planta o próprio milho para silagem.

Foi uma viagem muito proveitosa nessa região ora valorizada pelas pedras preciosas e colonizada recentemente, sendo imperativa a construção de novos abatedouros na região para minimizar a dependência que os criadores têm dos preços impostos pelo único frigorífico local, cotações que ficam quase sempre aquém dos praticados no restante do estado.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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