Do Pasto ao Prato

 

PARA COMPRAR GADO DE REPOSIÇÃO SEM MEDO

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

A nossa comercialização de bovinos de reposição ainda é feita muito na base da pedra bruta. Os leilões de gado comercial pouco informam sobre as características dos animais e os produtos são tratados como se fossem iguais (novilha é novilha, bezerro é bezerro, vaca é vaca e por aí vai). Ainda muitos leilões não disponibilizam informações de peso dos animais e, quando estas estão presentes, o comprador deposita pouca fé nos dados, pois tem receio de possíveis "ajustes". Pois bem, desta forma, a venda de animais de reposição é feita em um sistema de baixa confiança e de necessária cautela e proteção: sempre há temor em relação ao peso real dos animais, em relação à padronização dos lotes (será que não tem algum refuguinho no meio deste lote?...). A consequência desta situação é que muitas vezes igualamos em valor produtos de qualidade diferente e pouco valorizamos aqueles com muita qualidade. O resultado em reais por kg é que o "muito bom" vale igual ou quase igual ao "médio". A necessária proteção que o comprador se impõe não favorece uma lógica de produzir e ofertar animais e lotes cada vez melhores.

Alguns avanços básicos e simples podem ajudar a quebrar este ciclo vicioso para a venda de animais. Disponibilizar mais e melhores informações tem bom valor: no caso do peso dos animais informar, além da média, os valores mínimos e máximos (nos dá uma ideia da padronização), descrever mais detalhadamente a composição dos lotes em idades e raças ou cruzamentos (exemplo - Bezerros: 12 Angus, 12 Hereford e 01 Cruza Leiteiro). É preferível ser transparente e informar que no lote há um animal de menor valor comercial do que insistir numa lógica de que "se passar, passou...". Na questão sanitária, comunicar as vacinas e os tratamentos realizados no lote demonstra organização e tem relevância para o comprador. Estes exemplos citados acima são simples e passíveis de execução em qualquer leilão, seja por um Sindicato Rural ou por uma empresa leiloeira.

As certificações de produto e processo são naturalmente ferramentas mais elaboradas e de maior garantia. Este é o próximo passo para melhor comercializar animais. Diversos países já trabalham com certificações que agregam valor aos animais: de garantia das informações (certificando o peso e a qualidade dos animais em um lote), de sanidade (garantido que o protocolo sanitário "x" foi realizado nos animais), de genética (assegurando que os animais são de tal raça ou cruzamento), de genética superior (endossando que os bovinos são filhos dos melhores touros em suas raças e comprovados por programas de avaliação genética), de sistema de produção (mostrando que os animais foram produzidos de forma orgânica, a pasto, com suplementação, etc).

EUA e Uruguai são países que estão bem à frente de nós neste assunto. Somente uma empresa americana, a Superior Livestock (Dallas, TX), comercializa aproximados 2 milhões de bovinos por ano com estas certificações e em leilões transmitidos por TV ou Web. No Uruguai, várias empresas operam neste sistema, porém, com menor grau de complexidade nas informações disponíveis. O grande volume de animais comercializados nestes leilões permitiu ao Uruguai reunir todas as informações em um banco de dados único (Associação de Consignatários de Gado) e prover atualização semanal de mercado para todos os pecuaristas. Na página desta entidade, estão os preços para todas as categorias comercializadas com riqueza de informações (mínimos, médios, máximos, tendência, etc). O avanço não ocorre só para os leilões, mas para o setor como um todo. Quanto mais transparentes e disponíveis os dados, maior é a confiança do comprador.

Enganam-se os que pensam que a transmissão de um leilão é o grande avanço. Transmitir a venda de animais tem pouco ou nenhum impacto sem o recheio de informações sobre o produto e sem a confiança do comprador. Mudar este modelo de venda de animais de reposição é um processo lento, e necessário. Com as melhorias em transparência e informação, ganham o vendedor, o comprador e a pecuária brasileira.