O Confinador

 

CHEGA DE POEIRA!

Tiago Fernandes*

Em menos de quatro décadas, o Brasil dobrou o rebanho bovino, passando de cerca de 100 milhões de cabeças para pouco mais de 200 milhões, embora, nesse período, as áreas disponíveis para pastagens terem sido reduzidas. Atualmente, passamos por um cenário de fortes mudanças, pois nunca se discutiu tanto sobre assuntos como intensificação, sustentabilidade, integração entre lavoura e pecuária, como também nunca se investiu tanto em técnicas de manejo de pastagens, sistemas de irrigação, técnicas de conservação do solo e da fertilidade. E de outro lado, um cenário de forte pressão pela preservação do meio ambiente, e que tem cada vez mais contribuído para o aumento do confinamento no país.

Os benefícios do confinamento para o pecuarista são muitos, o principal e mais característico é a possibilidade de se aglomerar um grande número de animais em uma pequena área, o que vai de encontro com as tendências atuais de se produzir cada vez mais em um menor espaço de tempo, porém, todos esses benefícios conseguidos com a alta lotação de animais têm inconvenientes de diversas ordens, dentre eles a poeira, que tem causado sérios problemas aos confinadores, destacando-se:

• Poluição do ar e do ambiente;

• Riscos para saúde humana;

• Riscos para saúde e bem-estar animal;

• Prejuízos de ordem laboral, trabalhista e empresarial.

A poluição do ar se deve principalmente pelo mau cheiro, que aumenta muito em períodos chuvosos, quando os resíduos de alimentação, fezes e urina fermentam, ocasionando o mau cheiro. Também é a poeira que torna o ambiente, em muitos casos, totalmente impróprio para o trabalhador; sendo os dois de cunho trabalhista: um relacionado às condições de higiene e medicina do trabalho, devido às condições insalubres do ambiente; e o segundo ligado à segurança do trabalho, pois torna o ambiente opaco ou quase que totalmente sem visibilidade, aumentando também risco à integridade física do trabalhador.

As ameaças associadas à saúde humana e relacionadas à exposição direta e indireta à poeira mais frequentemente são gripes, resfriados e alergias diversas, tais como da garganta, das narinas, dos olhos e, em alguns casos, até da pele e dos ouvidos. Entretanto, esses problemas podem se tornar crônicos de acordo com o grau e o tempo de exposição do ser humano a estas condições, podendo desenvolver, com o passar dos anos, não só uma pneumonia, mas uma série de complicações respiratórias, prejudicando seriamente a saúde.

Não só o ser humano sofre as consequências da exposição à poeira, mas os bovinos também, apesar de aparentemente serem mais resistentes que o homem às condições. Eles ficam expostos por um período muito maior que o ser humano e também apresentam diversos problemas de ordem respiratória, que, geralmente, são crônicos, e interferem no seu comportamento normal, diminuindo seu apetite natural, causando estresse, perdendo peso e até morte por complicações respiratórias, geralmente causadas pela pneumonia.

Há pouco menos de uma década, a Organização Mundial da Saúde Animal (OIE) publicou a Declaração Universal de Bem-estar Animal, que versa sobre as cinco liberdades que devemos garantir aos animais, as quais: livre de fome e de sede e má nutrição, livre de medo e de perigo, livre de desconforto físico e térmico, livre de dor e de ferimento e doença e liberdade para expressar padrões normais de comportamento. E, quando condicionamos os animais à poeira intensa, não estamos garantindo o direito de estar livres de perigo, pois, sem dúvida, estão sujeitos a ter algum tipo de complicação leve ou aguda ligado à poeira. E mais, não estão livres de doença, assim como não estão livres do desconforto físico, pois a poeira é agressiva ao ser vivo e também provoca o estresse animal, o que, de certa forma, também impede que expressem padrões normais de comportamento, ou seja, daí também surge uma das necessidades primordiais de ser fazer o controle dessa poeira.

É inegável que os problemas ocasionados pela poeira também influenciam negativamente na motivação dos que laboram no confinamento e, sem dúvidas, gera queda no desempenho. O trabalhador tende a buscar melhores condições para si, podendo até largar a atividade. Fato é que a poeira torna o ambiente de trabalho insalubre e isso dá margens às ações indenizatórias e aos problemas com a legislação trabalhista. Além dos possíveis prejuízos das ações trabalhistas, ainda se tem a queda de desempenho, que causa prejuízos de ordem qualitativa e quantitativa.

A importância do controle da poeira está relacionada às melhorias no bem-estar animal, no ambiente e na motivação da força de trabalho, aumento da rentabilidade do empreendimento, cumprimentos às leis trabalhistas e eliminação das condições ruins de higiene e medicina do trabalho, redução nos riscos crônicos e agudos à saúde do homem e dos animais, preocupação com a opinião da sociedade sobre a atividade, além do ganho de credibilidade no empreendimento e o reconhecimento socioambiental. Também não se pode deixar de citar os benefícios ao consumidor final, que consumirá um produto mais saudável, pois contribui significativamente na redução da administração de antibióticos nos animais. Com isso, a atividade passa a ser vista de uma forma melhor por aqueles que não conhecem esse ambiente e até por aqueles que são contra, contribuindo, assim, para o desenvolvimento e o crescimento de uma atividade tão importante e que deveria ser mais valorizada.

Existem diversas formas e métodos para controlar a poeira, todavia, a maioria está baseada no uso da água como meio de se alcançar o controle desejado, e dependendo da técnica se usa mais ou menos água. Em alguns casos se faz o uso de associações com produtos específicos, garantindo assim uma maior eficiência no resultado final, reduzindo a quantia de água utilizada.

Em um confinamento existe a poeira oriunda de dentro dos piquetes, gerada pela movimentação dos animais, e também aquela no entorno dos piquetes, ocasionada pelo trânsito de caminhões, veículos e maquinários que realizam os trabalhos do dia a dia no confinamento. O controle da poeira fora dos piquetes somente é feito em dias muito críticos, e com caminhõespipa, aplicando água nas vias por onde mais transitam os maquinários, e, normalmente, devido aos custos, não utilizam produtos estabilizantes, ou seja, aquele tipo de produto que com apenas algumas aplicações faz a supressão da poeira.

Ainda se tratando de controle fora dos piquetes, se pode utilizar outra solução que praticamente não é muito utilizada devido aos custos, que é o uso de um sistema de irrigação subterrânea, em que os emissores de água (miniaspersores) são projetados paralelamente aos cochos. O ideal para que não se gaste água o dia todo com as estradas é utilizar a irrigação para aplicar produtos que estabilizam a poeira, pois o gasto é pequeno por causa da pequena lâmina d'água aplicada, e sem utilizar maquinários. Ainda se consegue estabilizar a formação constante de poeira destas áreas com pouca água e produto, todavia, se tem mais esse custo de investimento com a implantação deste sistema.

Por outro lado, dentro dos piquetes do confinamento a poeira deve ser controlada com sistema de irrigação, pois é o método mais prático para transpor as cercas que limitam os piquetes, sem falar na economia de água e de custo operacional que um sistema de irrigação proporciona quando bem dimensionado. A aplicação de água somente é possível através da aspersão, podendo-se utilizar microaspersão e aspersão convencional.

O sistema de irrigação por microaspersão consiste basicamente em fixar o sistema de irrigação em uma estrutura aérea. Essa estrutura custa caro. Os microaspersores têm uma área de abrangência menor e chegam a usar um número até 20 vezes maior de emissores (dependendo do projeto técnico), se comparado com o método de aspersão convencional. Um ponto falho que também não pode ser esquecido é frequência de manutenção, que aumenta conforme o número de aparelhos, além da necessidade da utilização de um sistema de filtragem de água, que também necessita de acompanhamento constante. A conclusão do projeto também demora um pouco mais - em média, cinco vezes mais tempo que no método convencional.

Sistema de irrigação por aspersão ajuda a melhorar qualidade do ar

Outros dois fatores são muito importantes e devem ser ponderados: o primeiro se refere à quantia de água utilizada pelo sistema de microaspersão, que, por estar a cerca de cinco metros de altura e por ter gotas menores e mais leves, perde muita água por percolação (evaporação da gota antes de atingir o solo) e pela deriva - aquelas gotas que são carregadas pelo vento e não atingem o solo do piquete -, devendo-se calcular uma lâmina d'água maior. O segundo fator é o bolsão térmico que se forma entre o solo e a cortina d'água que a irrigação por microaspersão aplica, pois isso contribui para o aumento do calor, fato este que potencializa também o desconforto animal.

Para Tiago Fernandes, uso de aspersores de médio porte é mais apropriado para controle da poeira

Outro meio de controlar a poeira com irrigação é com a Aspersão Convencional, que consiste em um sistema de irrigação que também faz a aspersão d'água, porém, com emissores de médio e de grandes portes. Contudo, os aspersores de médio porte possuem uma eficiência, normalmente, melhor em relação àqueles de grande porte (canhões), além do fato de economizar água e energia no cumprimento do seu papel, em função dessa melhor eficiência.

Por tudo que já foi abordado sobre o sistema de microaspersão, pode-se deduzir que a aspersão convencional é um sistema que proporciona agilidade na implantação, menor complexidade na manutenção, maior flexibilidade em relação à qualidade da água, menores custos indiretos com infraestrutura e mão de obra de instalação, além do fato de se usar uma menor quantia de água para o controle da poeira. Basicamente, pode-se utilizar de dois meios para fazer controle da poeira por Aspersão Convencional, tanto pode ser por Aspersor Canhão como por Aspersores de Médio porte.

O sistema de irrigação por aspersor com canhão tem a desvantagem de empregar grandes potências de motores e aplicar uma alta precipitação de água, formando barro, ou seja, aplica muita água em pouco tempo, além do jato d'água pesado que desagrega partículas espirrando barro e também o fato de assustar demasiadamente os animais. Da mesma forma que os microaspesores, torna-se inviável para uma boa eficiência na aplicação da água. Já com os aspersores de médio porte é possível se obter um bom resultado, possibilitando menores precipitações d'água e maior controle sobre a formação de barro dentro do piquete; emprego de menores potências de motores para o sistema de irrigação e, finalmente, menor uso de água no controle final da poeira.

*Fernandes é técnico agrícola e projetista da Rocha Irrigações - [email protected]