Escolha do Leitor

 

Maior precisão na INSENSIBILIZAÇÃO

Respeito ao bem-estar animal e à segurança dos trabalhadores dos frigoríficos

Augusto Hauber Gameiro e Bianca Gonçalves da Costa*

O correto manejo pré-abate é essencial para que todos os esforços realizados na fazenda visando à produção de animais saudáveis e uma carne de qualidade ao consumidor final se concluam. Recentemente, denúncias contra frigoríficos que realizam procedimentos inadequados tanto do ponto de vista sanitário quanto do ponto de vista do bem-estar dos animais têm gerado grande polêmica e as repercussões incidem diretamente no consumo da carne, resultando uma imagem negativa da produção animal. Os consumidores estão cada vez mais conscientes dos métodos de criação animal e cada dia mais brasileiros começam a se importar como seu alimento é produzido, rejeitando métodos cruéis que causem sofrimento aos animais. Prova disto é o crescente número de pessoas que excluíram a carne de sua dieta, sendo este grupo já é composto por Leitor8% da população brasileira, segundo pesquisa Ibope de 2012. A questão do bem-estar animal vem sendo muito discutida, principalmente, pelas exigências de grandes redes comerciais, como o McDonald's, e do mercado consumidor europeu. A importância notável da exportação da carne para a economia brasileira faz com que grandes redes de frigoríficos invistam na capacitação e na implementação de técnicas que visam ao bem-estar animal.

Segundo o IBGE, em 2012 foram abatidos 31,118 milhões de bovinos no Brasil, representando um aumento de 8% em relação ao ano anterior. Sem dúvidas, as melhorias dos sistemas de produção da fazenda ao supermercado são uma tendência da qual não podemos fugir. A pressão do mercado interno para melhorias nas questões do bem-estar dos animais tende a crescer cada dia mais, portanto, mesmo o produtor que produz carne para atender o mercado brasileiro deve se preocupar com essas questões na hora da negociação com o frigorífico. As perdas resultantes de um manejo pré-abate inadequado são por lesões na carcaça e a ocorrência de carne DFD (escura, firme e seca) e PSE (pálida, flácida e exsudativa), resultantes de estresse prolongado (antes do abate) e estresse agudo (no momento do abate), respectivamente. A questão ética envolvida ao utilizarmos animais que são produzidos e "doam" sua vida com o único intuito de fornecer proteína de alto valor biológico para nós, seres humanos, é uma das principais razões da discussão.

As questões que tangem o abate humanitário não são e nem devem ser unicamente relacionadas ao bem-estar dos animais. O bem-estar do funcionário é fundamental para que todo o manejo seja realizado de forma eficaz. Esse conceito inclui valorização profissional, segurança do trabalhador, equipamentos de proteção individual, horários adequados de descanso, refeitórios e alimentação adequados, sanitários e bebedouros suficientes, com boas condições de uso e próximos do local de trabalho. Todos esses fatores influem para que o funcionário aceite treinamentos e deseje melhorar seu rendimento diário. O funcionário deve saber da importância do seu trabalho, sendo visto como um colaborador dentro de todo o processo, merecendo atenção do frigorífico nas decisões das políticas relacionadas à melhoria de qualidade. O produtor deve estar atento a esses detalhes a fim de buscar a valorização do seu produto, transformando-se num potencial para exportador ou ganhando maior aceitabilidade pelo mercado consumidor interno.

Gráfico 1 - Curva de probabilidade estimada de o animal não ser insensibilizado em função da pressão da pistola (considerando distância de 2 cm do tiro em relação ao alvo recomendado e a 3ª hora de turno de trabalho do insensibilizador)

O produtor deve estar atento aos cuidados oferecidos aos seus animais desde a saída da fazenda até o momento do abate. De preferência, negociar com frigoríficos próximos e que tenham acesso por estradas com boas condições, além do treinamento dos motoristas. Estas medidas possuem o objetivo de evitar gasto excessivo de energia muscular, lesões, fraturas e hematomas que resultam em perdas. Para viagens com mais de duas horas de duração, o motorista deve parar o caminhão e oferecer água aos animais, além de verificar se todos estão bem e se não há nenhum animal caído. Um animal que cai no caminhão pode ser pisoteado por outros, podendo sofrer fraturas, esmagamentos e até vir a óbito. Além do sofrimento do animal, esse problema atrapalha o descarregamento dos animais no frigorífico. O animal ferido terá dificuldades em sair do caminhão, exigindo o trabalho de vários funcionários. Outro ponto do descarregamento é deixar os animais saírem juntos, porém, organizadamente, do caminhão, os bovinos tendem a seguir uns aos outros e de início é comum eles reconhecerem o ambiente para saber aonde irão pisar, pois possuem medo de cair. A presença de sombras, degraus e vãos podem assustar os animais e dificultar a saída dos mesmos. Gritos, agressões e movimentos bruscos também podem fazer os animais "empacarem". O correto é nenhuma pessoa posicionar-se na frente dos animais ou próximo da rampa de desembarque, estando sempre nas laterais do caminhão. Deve-se priorizar que os animais mais próximos da rampa saiam primeiro e, depois, tocar os que estão mais pertos da frente do caminhão, pois espantar os animais que não estão próximos à rampa pode causar acidentes, quedas e o pisoteamento dos primeiros animais que estão realizando a análise do ambiente.

Gráfico 2 - Curva de probabilidade estimada de o animal não ser insensibilizado em função da distância do tiro em relação ao alvo (considerando pressão da pistola ajustada para 175 psi; e a terceira hora de turno de trabalho do insensibilizador)

A condução dos animais pode ser feita com o uso de bandeiras, que auxiliam a guiar os animais, por funcionários treinados, permitindo um manejo silencioso, seguro e mais tranquilo para os animais e funcionários. Neste ponto, a colaboração do pecuarista é muito importante, pois, se as bandeiras já são utilizadas na fazenda, o manejo no frigorífico fica muito mais fácil, pois os animais já estão adaptados. Cuidado também deve ser tomado com o tempo de jejum dos animais, que deve ser de 24 horas, tendo-se em consideração que estes descansarão por 24 horas, caso o transporte tenha duração de mais de duas horas, e receberão somente água no frigorífico. Animais que provenientes de locais próximos poderão ter, no mínimo, seis horas de descanso no frigorífico somente com dieta hídrica. A importância de se abater animais de locais próximos também está relacionada ao jejum, pois um jejum prolongado também altera a qualidade de carne, além de ser muito prejudicial ao bem-estar dos animais.

Figura 1: Local adequado para o disparo em taurinos (Roça, 2007).

Figura 2: Localização correta para o tiro em zebuínos (Roça, 2002).

Um dos pontos mais críticos do pré-abate é o momento da insensibilização dos animais. Em bovinos ela é comumente realizada através do uso de pistola de pneumática, podendo causar perfuração ou não no cérebro do animal. O objetivo é causar uma lesão irreversível no sistema nervoso central, a fim de que o animal perca a consciência imediatamente e não vivencie os momentos da sangria, isto é, o corte dos grandes vasos na base do coração, que provocará a morte do animal. Para verificar se esta etapa está ocorrendo da maneira correta alguns testes são recomendados para verificar a presença de sensibilidade dos animais: testes à dor por pressão no septo nasal e língua; presença de movimentos e reflexos oculares e palpebrais; contrações da mandíbula, vocalizações, movimento da região cervical e movimentos da coluna vertebral; pedaladas persistentes dos membros torácicos; movimentos de orelha e cauda; presença de respiração rítmica. A consciência pode retornar em 30 segundos, quando os animais recebem o método sem penetração do sistema nervoso central, sendo assim, a comunicação na linha de abate é muito importante, evitando-se que os bovinos fiquem aguardando pela sangria. Nos casos de pistola penetrativa, a sangria deve ser realizada até 60 segundos após a insensibilização, evitando-se que o animal venha a morrer antes da sangria ou, em alguns casos, voltar à consciência. Animais mal insensibilizados podem apresentar uma contração das pálpebras, como se o olho estivesse quase se fechando. Ao notar animais sensíveis, é essencial que a insensibilização seja refeita com o uso de uma pistola manual posicionada do ponto correto da cabeça do animal. A insensibilização correta, além de diminuir o sofrimento do animal durante a sangria, também garante a segurança dos trabalhadores. Os animais sensíveis ficam, muitas vezes, ativos e podem levantar na área de vômito. É muito comum o magarefe que realiza a sangria levar coiceadas das patas dianteiras; ele tenta escapar e pode acabar escorregando no chão úmido pelo acúmulo de água e sangue. Vale ressaltar que este profissional possui um instrumento altamente cortante e que desequilíbrios podem causar graves lesões tanto para ele quanto para colegas que estejam próximos. Após o corte, deve-se aguardar três minutos para que ocorra o máximo escoamento possível de sangue, garantindo a morte do animal e a boa qualidade da carne. Além disso, animais que sofrem os cortes subsequentes à sangria na linha de abate antes dos três minutos podem ainda estar vivos e sentirem dor ao sofrer o corte dos mocotós, cornos e orelhas. É visível em animais sensíveis os movimentos dos membros e da cabeça na hora desses cortes antes da adequada sangria.

Em uma pesquisa desenvolvida por nossa equipe de pesquisadores (Costa et al., 2012) concluímos que, durante a insensibilização, alguns fatores são fundamentais para o sucesso final, tais como a pressão da pistola e o posicionamento correto da pistola.

PRESSÃO DA PISTOLA PNEUMÁTICA

Para que a pressão e a velocidade do pino sejam adequadas e causem a lesão necessária, a manutenção da pistola é fundamental, como se percebe no gráfico 1.

Figura 3 - Diferentes angulações da pistola em relação ao crânio do animal. A letra A indica o posicionamento correto e a angulação correta do disparo, as letras B e C demonstram o posicionamento correto da pistola, porém, com angulações inadequadas (Neves, 2008)

Neste estudo com 2.037 animais, comprovamos que a redução da pressão da pistola foi responsável pelo aumento do número de animais sensíveis, sendo uma pressão de 115 psi ineficiente para a insensibilização de bovinos. Vemos, portanto, como é importante para a garantia da qualidade da carne um funcionário treinado para verificar os sinais de sensibilidade dos animais na identificação de um problema com a insensibilização. Nestes casos uma nova insensibilização deve ser realizada, por isso é importante que na área de vômito exista uma pistola manual. A pressão deve seguir as indicações do fabricante da pistola, por isso é muito importante ter o manual da pistola em português. A pressão pode variar entre 160 a 190 libras, sendo que o porte e a conformação dos animais devem ser avaliados. Por exemplo, se o lote a ser abatido possui animais grandes, com conformação óssea mais exuberante, deve-se utilizar pressões próximas do 190 libras. Recomenta-se usar as pressões mais altas quando se utiliza a pistola não penetrante. A qualidade e o correto funcionamento do compressor são fundamentais para se alcançar a pressão adequada da pistola.

POSICIONAMENTO DA PISTOLA

O melhor local para a insensibilização de bovinos pode variar de acordo com a subespécie, conforme as figuras 1 e 2.

A angulação da pistola também é muito importante para que se consiga causar a maior lesão possível no sistema nervoso central do animal, conforme pode ser visto na figura 3.

No mesmo estudo, demonstramos também a importância do local de disparo, sendo que, quanto mais o local efetivo do disparo se distancia do local correto, a probabilidade de o animal não ser insensibilizado aumenta significativamente. Se, por exemplo, o tiro ocorrer a 6 cm distante do local ideal, a probabilidade de o animal não ser insensibilizado é de 8%, que é bastante expressiva (gráfico 2).

Finalmente, destacamos a importância do treinamento do insensibilizador e das adequadas condições de trabalho. É fundamental o treinamento de funcionários. Neste sentido, a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA), em colaboração com o Ministério da Agricultura Pecuária e Abasteciemnto (MAPA), vem ajudando muitos frigoríficos a melhorarem o manejo de abate através de treinamentos do STEPS – Programa Nacional de Abate Humanitário.

As perdas resultantes de um manejo pré-abate inadequado refletem diretamente na qualidade da carne. As pressões da sociedade também vêm aumentando em relação à maneira com que os animais devem ser criados, portanto, chamamos a atenção à importância deste assunto para toda a cadeia da carne, especialmente para os pecuaristas. Ao produzir alimentos, o profissional da área deve ter em mente que não está somente realizando uma atividade profissional, mas está lindando com vidas humanas e animais, e o resultado do trabalho pode interferir na qualidade de vida dos mesmos.

*Gameiro e Bianca são pesquisadores do Laboratório de Análises Socioeconômicas e Ciência Animal da FMVZ/USP

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