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MAIS DIGNIDADE

É o que o mundo pede em relação ao tratamento dos animais de produção

Adilson Rodrigues
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Gritos, xingamentos, pauladas, choques, vultos estranhos, incisões sem anestesia, pisoteamentos e até marteladas. O que seria o cenário perfeito para um thriller de terror faz parte do dia a dia de muitos bovinos de corte no Brasil. Não que o horrendo roteiro seja realidade na totalidade das fazendas ou exclusivo do Brasil, fato é que o País ainda engatinha na adoção de manejos menos aversivos. O País goza de um invejável mercado interno de carne bovina e ainda possui um produto apreciado no mundo todo. Entretanto, o diferencial do bem-estar animal já vem sendo colocado na pauta de negociações pelos importadores e na mesa dos consumidores mais seletos. Afora o aspecto comercial, o respeito aos seres provedores de alimento não deixa de ser uma questão moral.

Segundo a prof. dra. Mônica Calixto Ribeiro de Holanda, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, bem-estar animal é uma ciência focada em prevenir o sofrimento desnecessário e assegurar boa qualidade de vida até o último momento de existência, inclusive, com uma morte humanitária. Promove-se isso respeitando as cinco liberdades do indivíduo: livre de fome, sede, dor, doença, medo e ansiedade. Ao considerar que 30% da carne bovina destinada ao consumo da população brasileira provêm do abate clandestino, já seria argumento suficiente para mostrar que não estamos tratando bem nossos animais de produção.

Adentrando a porteira das fazendas, esbarra-se com outra dificuldade, a questão moral. A norte-americana Mary Temple Grandin, referência mundial quando o assunto é bem-estar animal, lembra que a ética na bovinocultura compreende muitas áreas, mas uma preocupação recorrente seria em relação a procedimentos dolorosos aos quais os bovinos são submetidos, como a descorna. "Pesquisas mostram que medicamentos para dor seriam efetivos nesse procedimento", exemplifica. Uma boa notícia é que nos últimos anos, as discussões sobre o tema evoluíram no Brasil, tanto que resultaram no 1º Workshop Internacional de Bem-Estar Animal, com a participação de especialistas do mundo todo.

"A preocupação com bem-estar animal é uma realidade nas indústrias exportadoras e as fazendas que fornecem matéria-prima a elas estão, gradualmente, se adequando. No varejo, alguns supermercados ensaiam alguma 'satisfação' aos consumidores mais exigentes e o próprio Ministério da Agricultura sinaliza ações efetivas para o setor", destaca João Gilberto Bento, superintendente na Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), presente no evento internacional. Uma realidade oposta mostra-se quando consideramos as fazendas que abastecem o mercado interno, 90% do total. O médico-veterinário Renato dos Santos, um dos pioneiros na construção de um Centro de Referência de Manejo Racional em Campo Grande/MS, denuncia que apenas o interesse sobre o tópico cresceu bastante. "Entre conhecer e aplicar há distâncias enormes", pondera.

Para ele, uma parcela de culpa recai sobre os próprios técnicos, recusando-se enxergar o bem-estar animal como um sistema rentável à propriedade. Até mesmo as Academias não ajudam a criar tal cultura, além do fato de uma parcela enorme de produtores desenvolver pecuária extrativista. "O maior erro é não enxergar o benefício financeiro gerado pelas boas práticas de manejo na melhoria da qualidade da matéria-prima, como a redução das lesões e o aumento do rendimento de carcaça. O pecuarista prefere ficar na mesmice de afirmar que qualquer valor agregado à carne fica com o frigorífico", observa. Neste tocante, seria mais interessante empregar uma visão mais macroeconômica da cadeia, pois, de acordo com o médico-veterinário, o produtor enxerga a indústria como cliente, quando, na verdade, seria o consumidor final, restringindo o atendimento às demandas.

Acertar os padrões de bem-estar no Brasil depende de uma ação orquestrada, avalia Reinaldo Lourival

Outro agravante está na mão de obra. É primordial conscientizar todas as pessoas envolvidas no processo produtivo, do dono do negócio ao porteiro do estabelecimento, e não apenas os vaqueiros. Durante uma vacinação contra febre aftosa, por exemplo, é muito comum todos os funcionários auxiliarem no manejo. "A principal falha cometida pelo pecuarista na condução das práticas de bem-estar animal não está relacionada a instalações ou maquinário deficitários e, sim, à falta de valorização dos funcionários", garante o prof. dr. Luís Fernando Soares Zuin, capacitador da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo.

Na outra ponta da cadeia produtiva, o desafio está nos frigoríficos com selo de inspeção municipal e estadual, onde reside a falsa percepção de incremento nos custos associados à capacitação e à modernização das plantas. "Para o atendimento dos padrões de bem-estar animal, não são necessários grandes investimentos, mas grandes mudanças na atitude", ressalta Reinaldo Lourival, diretor Nacional da WSPA Brasil (World Society for the Protection of Animals), que na tradução para o português significa Sociedade Mundial de Proteção Animal. A entidade está presente em vários países e possui status Consultivo Geral na Organização das Nações Unidas. De acordo com o diretor, o problema inicia-se com as condições de trabalho dos próprios trabalhadores. "Muitas vezes nos deparamos com pequenos matadouros sem recursos para sequer atender requisitos básicos previstos na lei, como equipamentos adequados de insensibilização", relata.

Matheus Paranhos lembra que barreiras técnicas de bem-estar animal já estão sendo impostas no mundo

Tudo isso também tem ramificações na cultura do consumidor brasileiro. Quando ele faz uma compra consciente, colabora para o avanço da atividade pecuária como um todo. Mas, por sua vasta extensão territorial, o Brasil apresenta realidades desiguais. "Se você visitar capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, vai identificar consumidores pouco, moderadamente e muito exigentes. Talvez tenhamos de passar por uma situação de equilíbrio social e de uma maior oportunidade em termos de educação para avançarmos significativamente. Vamos chegar lá", analisa o prof. Matheus Paranhos da Costa, pioneiro nos estudos sobre bem-estar animal no País e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Etco).

"Como ainda não temos um mercado sensível ao tema, a cadeia avança de maneira cautelosa, para não criar regras de aplicações restritivas", complementa Bento, da ABCZ. O estágio atual de bons tratos compreende a regulamentação, principalmente em relação aos manejos de pré-embarque, transporte e pré-abate. Mesmo assim, a taxa de interessados em saber como o gado vem sendo tratado cresce a cada ano. Prova disso, é o crescente número de pessoas que excluíram carne da dieta, composto por 8% da população brasileira (IBOPE 2012). "Cremos que para alcançar bons níveis de bem-estar na cadeia é necessário um tripé sólido baseado em conhecimento, capacitação e consumo consciente (3Cs)", observa Lourival. Conforme aponta, a evolução brasileira depende de incentivos do Governo, no campo da ciência e inovação tecnológica, e da indústria de alimentos e cosméticos, não ficando a reboque da legislação internacional.

E as regras dos importadores devem ficar mais duras. A Comunidade Europeia, em geral, tem sido mais exigente, apesar de algumas divergências entre os próprios países-membros. Dentre as grandes redes de alimentos, o Mac Donald's lidera o movimento. "As barreiras alfandegárias pautadas no bem-estar animal são realidade. Antes eram alguns importadores, agora são muitos. As exigências estão passando de um aspecto da relação comercial para um importante elemento nas relações políticas", categoriza o prof. Matheus Paranhos, do Grupo Etco. Porém, isso não assusta Bento. Ele enxerga as exigências mais como oportunidades do que ameaças, em virtude do sistema produtivo brasileiro ser a pasto, respeitando as liberdades do bovino. "Com melhor orientação no manejo de curral, mais ações de conscientização aos colaboradores, ajustes nos confinamentos e regras mais precisas no transporte e manejos pré-abate, poderemos usar nosso diferencial", conclui o superintendente da ABCZ.

Atento em tratar o tema como uma questão ética e não meramente comercial, o Ministério da Agricultura firmou uma parceria com WSPA para elaborar uma instrução normativa (IN) que modernize as boas práticas de manejo sugeridas nos decretos Nº 24.645, de julho de 1934, e Nº 64/2000, de 22 de abril, que regem o setor. Em síntese, a proposta foca harmonização dos critérios exigidos pela Organização Internacional de Epizootias, da qual o Brasil é signatário. Um dos principais pontos será a responsabilidade do frigorífico frente à aplicação do bem-estar no abate, obrigando a permanência de um responsável habilitado na planta. Outra modificação é a inserção de critérios para determinar a insensibilidade do animal após o atordoamento. "Os fiscais federais terão acesso a um texto melhor elaborado sobre o que pode ou não ser feito no abatedouro", explica Lourival, da WSPA.

Para José Bento, exigências de bem-estar são mais uma oportunidade do que ameaça real para o País

O Projeto da IN de manejo, pré-abate e abate humanitário está em consulta pública e não tem data para vigorar. Enquanto isso não acontece, os pecuaristas podem investir em treinamentos. O esforço pode ser hercúleo. "O maior desafio é a resignação do funcionário, voltando a fazer o manejo errado quando não estiver sendo supervisionado pelo gerente ou proprietário", adverte Luís Zuin, da USP, que já participou de capacitações na Argentina, no Chile e no Uruguai, além do Brasil. Ele acredita ser necessário um trabalho permanente e não apenas um curso de algumas horas.

Uma prática que vem ganhado força na pecuária brasileira e também se mostra eficiente ao conforto animal é a integração lavoura-pecuária-floresta, como demonstra o chileno Francisco Galindo, prof. na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), principalmente no tocante ao estresse calórico. "Em monoculturas, no dia mais quente, a temperatura corporal do bovino pode variar entre 29° e 57°C. Quando com árvores a umidade do ar aumenta e os indicadores caem significativamente", sugere.

Da mesma forma, investir um pouco mais na estrutura da fazenda gera ótimos benefícios socioeconômicos. Currais antiestresse, por exemplo, já são realidade no Brasil há muito tempo e são importantes não só para o animal como para preservar a integridade física do empregado. Instalações seguras reduzirão o número de acidentes pela metade. Motivados, os vaqueiros treinarão o gado à rotina. Essencial neste momento trocar gritos, pancadas e choques pelas bandeiras de manejo, guiando os animais com tranquilidade até o curral. "Agressão não é ferramenta de manejo", critica o veterinário Renato dos Santos. O prof. Luís Zuin reforça que, ao adotar as boas práticas de manejo, os boiadeiros melhoram a qualidade de vida, ficando mais calmos e tendo mais tempo para aproveitar o dia. "Uma esposa de vaqueiro relatou-nos que, antes da capacitação em bem-estar, o marido chegava estressado e gritando. Não brigando, apenas falando alto demais", conta.

E como deveria ser instalação adequada? Segundo Lúcio Coelho, executivo de Vendas dos Currais Itabira, é aquela em forma curvilínea. O animal pensa voltar para o local de origem, sentindo-se mais seguro para avançar. Seringa, tronco e embarcadouro, além de também serem em curva, precisam ser fechados, evitando que os bovinos vejam a movimentação externa. O boi é um bicho "bobo", ele não enxerga profundidade, então, assusta-se com sombras, poças d'água ou um casaco pendurado na cerca. "Materiais resistentes, como o concreto protendido, aliados às boas práticas de manejo e treinamento do pessoal envolvido são a receita para uma criação mais racional, livre de prejuízos e acidentes", resume Coelho. Ele sugere evitar movimentar grandes lotes de animais na área da seringa, tronco e embarcador, sempre respeitando a proporção de 2m/UA (Unidade Animal, equivalente a um boi de 500 kg).

Tronco de contenção, ou brete, deve integrar o pacote tecnológico. Igualmente, colabora para eficiência e segurança mútua do operador e do animal. Confere precisão ao manejo, sem torná-lo mais demorado (comprovado em pesquisas). Cerca de 300 vacinações podem ser feitas por hora. A mesma quantidade obtida no tronco coletivo. "Equipamentos sem ruídos e que não tenham muita evasão de claridade fazem o animal se sentir mais calmo e seguro, conferindo segurança aos funcionários", diz José Otacílio da Silveira, proprietário da Coimma. O equipamento permite realizar uma descorna em 30 minutos e um parto cirúrgico em 50 minutos, operações impossíveis em mecanismos coletivos. Segundo o empresário, o investimento em um tronco de contenção retorna em dois anos nos grandes confinamentos ou na pecuária seletiva e de três a quatro anos na engorda. A vida útil do produto é de dez anos ou mais.

Está provado que bem-estar animal é uma necessidade na produção pecuária e o caminho para atingir bons patamares é por meio da educação. Entretanto, poucas universidades brasileiras discutem o sistema na sala de aula. Por este motivo, Mapa e WSPA assinaram convênio para transformá-lo em discplina obrigatória nos cursos de Medicina Veterinária. No Chile é assim, segundo informa a dra. Carmem Gallo, da Universidade Austral de Chile (UACH). E esse nem é o país da América Latina mais evoluído na metodologia. No Uruguai, o respeito aos animais é ensinado já na educação primária. "Nos países latino-americanos existe a mentalidade machista de se impor agressivamente aos animais. A melhor forma de acabar com isso é trabalhar as crianças", finaliza Carmem. Talvez medidas desse porte possam promover a redução de lesões presentes em 40% dos bovinos abatidos nos frigoríficos. É uma perda de [email protected]/cabeça.

A PRÁTICA DO EMBARQUE E DESEMBARQUE

A ida ao curral é sempre desgastante, ainda mais quando na entrada ao caminhão. Este ponto é o primeiro contemplado na legislação de bem-estar animal. No manejo racional, o embarque dos bovinos começa com o planejamento das ações. A primeira medida é nunca apartar animais doentes ou fracos. É muito provável que eles não aguentem a viagem e deitem, correndo o risco de serem pisoteados. Aplicação de medicamentos é proibida no momento de subir no veículo.

Lembrando que o embarque nunca pode ser concomitante ou após outros manejos da fazenda, é preciso estar em dia com a Guia de Trânsito Animal e demais documentos. Assim, se atenua atrasos nos casos de possíveis paradas em postos fiscais ou policiais. Um contato com a planta frigorífica favorece rotas, cálculos do número de caminhões e da capacidade de lotação das "gaiolas", os compartimentos de carga. Isso ajuda a diminuir a espera dos motoristas, que, por sinal, precisam ter livre acesso a banheiros, água e área de descanso.

A checagem dos brincos de identificação e uma condução tranquila dos lotes são possíveis com dois vaqueiros posicionados atrás do lote e um orientando a marcha. A boiada demora um pouco para entender a situação. Pressioná-la quando há transição entre instalações não é uma boa estratégia. Sinuelos – bois dóceis e acostumados ao manejo – são uma boa solução. Ferrões, paus, bastões elétricos são impedidos.

Embarque correto, com seringa e corredor em largura ideal, sem frestas ou degrau entre plataforma e caminhão

Três homens são suficientes para dividir lotes com até 200 cabeças. O aboio (canto do vaqueiro) em tons graves (nunca estridentes) e sinais simples e consistentes, sempre direcionados àqueles animais que estiverem com atenção no peão, proporcionarão melhor resposta ao manejo. Se ocorrer mistura de lotes, deixam-se os indesejados por último. Existem três modelos de currais de apartação: o "de canto", o menos eficiente; "tipo ovo" e o "apartador em linha".

Aqueles que não forem embarcados precisam ser devolvidos aos locais de origem o mais rápido possível. Os lotes devem ser formados de acordo com a capacidade de lotação das gaiolas. Mantendo os mesmos lotes juntos no caminhão, elimina-se ocorrência de brigas. Se realmente preciso agrupar diferentes categorias, o desejável é deixá-los em convívio uma semana antes. O momento do aparte pode ser aproveitado para pesagem. Porém, quando com jejum, o interessante é que seja em dias antes do embarque.

A última etapa do processo é o embarcadouro, que permitirá o acesso ao caminhão. O ideal é que as paredes tenham 1,80 m de altura e sejam lacradas, ou com frestas mínimas, prevenindo distrações e sustos. A largura do corredor é essencial para uma fila indiana e para que não haja emparelhamentos. Medidas ideais são entre 80 e 90 cm – um metro apenas quando se tratar de raças mais avantajadas.

A inclinação da rampa em torno de 12 graus facilita a subida. Quanto mais íngreme, maior a chance de acidentes. O piso deve ser de borracha ou cimentado, com estruturas antiderrapantes, espaçadas 30 cm uma da outra, como se fossem as grades dos pisos das gaiolas. Nas laterais do embarcadouro, uma passarela lateral permite o manejo seguro dos funcionários. O último lance em nível por pelo menos dois metros e o veículo estacionado encostado à plataforma garantem o acesso sem riscos.

Para que tudo flua de forma natural, o embarcadouro carece oferecer distâncias apropriadas às manobras dos caminhões. A presença de pessoas, muitas vezes do próprio motorista, em cima do compartimento de carga inibe o progresso do lote. Na chegada ao destino, os mesmos cuidados acima garantem um desembarque em segurança.

ESTRESSE NO TRANSPORTE

Dentro do caminhão, começa a fase mais crítica na vida dos bovinos de corte, sendo um dos pontos a ser revisados na normativa em consulta pública. Estradas ruins, superlotação das gaiolas, embarque de animais fracos, contundidos ou doentes, pisos inadequados e imprudência na direção compõem uma fórmula explosiva para o estresse. E quanto mais distante o frigorífico maior a probabilidade de acidentes e mortes.

Normalmente, o transporte é realizado por caminhão-truck, carreta com um ou dois pisos ou um biarticulado denominado "Romeu e Julieta". Mais raramente utiliza-se caminhão de dois eixos, também chamado de "Toco". "Veículos com piso único são melhores opções para embarque e desembarque", relata o zootecnista Murilo Henrique Quintiliano, da BEA Consultoria e Treinamento. O campeão da estrada é o truck, respondendo por 66% da preferência, pelo menos é o que demonstra estudo elaborado pelo prof. Matheus Paranhos, ao observar o transporte de 19.450 bovinos.

Para Murilo Quintiliano, veículos com somente um piso são mais fáceis de serem trabalhados no transporte

No mesmo estudo, ele identificou que a categoria registrou menos quedas ao desembarque, apenas 1%, enquanto a carreta de dois pisos representou o triplo. Muito provavelmente por causa da rampa de acesso ao segundo nível ser muito íngreme. No piso duplo, 90% dos animais caídos levantaram somente após choque. No truck, a taxa baixou para 19%. O número de acidentes ainda é atenuado com medidas simples. A começar pela escolha do motorista, que deve estar descansado e ser um boiadeiro.

Manutenção constitui outro ponto importante. Checar pneus, freios, suspensão, motor, além da existência de parafusos soltos, pontas expostas e pisos em condições indesejáveis previne muita dor de cabeça. Limpeza é fundamental. Os abatedouros são proibidos de liberar caminhões sujos. Muito comum também os veículos terem os lados totalmente lacrados. Os animais ficam mais calmos e menos fezes e urina são alçadas ao asfalto. O problema é que reduz a ventilação e dificulta a inspeção durante as paradas. Estas, por sua vez, necessitam ser planejadas com antecedência.

Para tanto, importante dispor de informações sobre fazendas ou outros locais apropriados para desembarque ou transbordo. O condutor tem de fugir das rodovias ruins, mesmo que leve um pouco mais de tempo para chegar ao abatedouro. Com tudo planejado, é hora de encher o caminhão. A maior preocupação é em relação à lotação. Em caso de queda, o bovino necessita de espaço para levantar. Por outro lado, uma densidade menor que a desejada torna mais difícil manter equilíbrio. Descobrir a quantidade ideal de cabeças por área torna-se possível graças à ajuda do Grupo Etco, que desenvolveu uma fórmula própria para isso. Primeiro passo é calcular o peso médio dos bovinos na gaiola. Depois, divide-se o valor do seu comprimento pelo indicador atribuído ao peso desejado listado na tabela de densidades criada pelo centro de pesquisas.

Para o caminhão amarelo da figura, por exemplo, que tem três gaiolas, sendo a primeira com 2,35 m de comprimento, a do meio com 5,51 m e a terceira com 2,45 m, os números de animais (NA) com peso ajustado de 500 kg seria descoberto da seguinte forma:

• 1ª Gaiola: NA=2,35/0,51= 4,6* => 4 animais

• 2ª Gaiola: NA=5,51/0,51= 10,8* => 10 animais

• 3ª Gaiola: NA=2,45/0,51= 4,8 *=> 4 animais

Note que a quantidade de animais é arredondada, sempre, para baixo (caso do 10,8 e 4,8 do modelo).

Um erro intolerável é embarcar a carga sem conferir o piso, impreterivelmente de borracha e com sistema antiderrapante. Esse nada mais é que grades "soldadas em topo", formando quadriláteros no tamanho de 30 a 35 cm. As grades dão estabilidade aos animais. Mas, mesmo com medidas de segurança, freadas bruscas e curvas em alta velocidade são certeza de quedas. Neste momento, é função do motorista vistoriar, assim como em qualquer outra parada. A regra é que sejam pit stops rápidos e à sombra. Sol a pino eleva a temperatura dentro do compartimento e induz a produção de amônia, presente na urina, causando desmaios e mortes. Cobertura no teto é bem-vinda, desde que com telas de sombreamento, na proporção de 50% a 70%. Nunca lonas; elas cozinham os animais.

Em caso de atrasos ou adiantamentos no horário, é preciso comunicar ao abatedouro. O tempo de viagem não pode exceder 12 horas, conforme rege o artigo 3º do decreto nº 25.645, de 10 de julho de 1934. Em períodos maiores, o desembarque é obrigatório. Água e comida servidas à vontade. Alguns animais rejeitam alimento e sentem-se intimidados pelo local estranho. Gritos e agressões só pioram a situação. Descanso de 18 horas, com jejum de seis horas antes do reembarque, é recomendado. "Muitas vezes o jejum no frigorífico – obrigatório por lei – supera 12 horas. Sobretudo, nas viagens de longa distância, e isso é um problema", lembra Quintiliano.

A capacidade de carga do caminhão truck acima é 18 animais de 500 kg, sendo 4 no 1º compartimento, 10 no 2º e 4 no 3º. No detalhe, sistema antiderrapante

Segundo Paranhos, não existem estudos sobre o limite máximo de 12 horas, que poderia levar em consideração questões como raça e condições físicas do animal, do clima e das estradas. Em trajetos curtos, até quatro horas, raramente, o gado aleita. Já no dobro do tempo, começam a deitar. Facilitam-se quedas, especialmente nas situações de manobras bruscas. O animal não se levanta, sendo pisoteado. "O motorista deve respeitar os limites da rodovia. O ideal é que a velocidade seja reduzida nos primeiros 20 minutos de viagem, para que os animais se acostumem com o movimento do veículo", adverte Quintiliano.

Segundo José Otacílio, o tronco de contenção possibilita 300 vacinações por hora

"O número de inspeções varia de acordo com a agitação dos animais, a dificuldade de condução nas estradas e os imprevistos como freadas bruscas e curvas fechadas. O motorista tem de possuir a habilidade de perceber os momentos certos de parar", adverte o consultor. Para viagens à noite, aconselha-se iluminação no compartimento de carga ou, pelo menos, uma lanterna em mãos.

Se o animal deitou ou caiu, cansaço, doença ou ferimento lideram a lista de ocorrências. Antes de içá-lo, verifica-se se há espaço suficiente. Bater palmas ou na lateral do veículo seriam formas sensatas de estimular a reação do indivíduo acidentado, além do uso da voz em tom firme; sem grito. Às vezes, cabe reposicionar os demais. Choque é último recurso. Se tudo falhou depois de três tentativas, aplique no lombo, e nunca por mais de um segundo. Ainda deitado depois de dois choques é porque está exausto.

Nesse ponto, o animal sofre demais e apresenta perdas econômicas irreversíveis. O ideal seria proceder um abate de emergência. "Pontos de apoio organizados pela indústria e o Serviço de Inspeção Federal seriam condições perfeitas para situações de emergência enquanto o transporte por longas distâncias for uma realidade no País", propõe Quintiliano. Talvez fosse viável. O Governo da Bahia discute projeto para construção de entrepostos frigoríficos modulares com inspeção em cinco municípios, de forma a coibir o abate clandestino.

Enquanto não se concretiza, o jeito é seguir com os animais deitados e informar o frigorífico, para que um magarefe (açougueiro) esteja pronto para o abate de emergência. Algumas vezes, a queda decorre de comportamento agressivo, motivado por um mau manejo na fazenda ou pela mistura de lotes diferentes. No primeiro caso, os animais se acalmam nos primeiros minutos de estrada. No segundo, troca-se o agressor de gaiola. Persistindo o problema, ele segue amarrado na lateral do caminhão. Um laço na base do chifre ou um cabresto completam a imobilização. A frequência de inspeções vai aumentar em virtude disso.

MÉTODOS DE INSENSIBIZAÇÃO

No frigorífico, o ponto crítico de bem-estar de bovinos é o momento da insensibilização. De acordo com o prof. inglês Neville Gregory, do Royal Veterinary College, o uso de pistolas pneumáticas de dardo cativo - método adotado no Brasil - é eficiente quando atinge o alvo. Para um abate eficaz, o tiro precisa transpassar o tronco cerebral e o cérebro intermediário. Ele é determinado facilmente ao se identificar o ponto de interseção de um "X" imaginário traçado dos olhos do boi em direção aos chifres, como pode ser visto na figura a seguir. Acertado na mosca, há morte cerebral seguida de desmaio.

Se o abatedor notar que o tiro falhou, ajustes na energia e na velocidade da pistola são necessários. Para ajudar neste manejo, muitas plantas brasileiras, especialmente aquelas habilitadas a exportar, utilizam um Box de Atordoamento. O animal é imobilizado e um mecanismo levanta sua cabeça até o ponto ideal para um disparo certeiro. A margem de erro é muito pequena, seis centímetros fora do local são suficientes para que o animal permaneça ativo ou retorne a consciência após 30 segundos. Desta forma, o dardo deve ser posicionado um pouco inclinado para trás, e não reto nem à frente.

Por este motivo, a sangria é realizada não mais que 60 segundos após o atordoamento. Três minutos garantem um escoamento de sangue apropriado e uma morte digna. Se a sangria acontece antes desse período, o animal ainda poderá estar vivo e sentir muita dor ao sofrer o corte dos mocotós, cornos e orelhas. "É visível os movimentos dos membros e da cabeça quando o processo é feito de forma incorreta", relata o prof. Augusto Hauber Gameiro, coordenador do Laboratório de Análises Socioeconômicas e Ciência Animal (LAE), da Universidade de São Paulo.

Gameiro e a equipe de pesquisadores do LAE observaram o abate de mais de 2.000 bovinos e comprovaram que a redução da pressão da pistola foi responsável pelo aumento do número de indivíduos sensíveis ao abate, com uma pressão de 115 libras mostrando-se insuficiente para o efeito desejado. A calibração ideal seria entre 160 e 190 libras, sendo a máxima mais adequada a animais grandes, com conformação óssea mais exuberante. No caso de emergência, é importante que uma pistola manual esteja à disposição na área de vômito, além da permanência de um funcionário treinado para identificar casos de sensibilidade. O estudo completo pode ser conferido na "Escolha do Leitor", que trata especificamente do tema.

Se quiser optar pelo manejo racional, esqueça choques, chutes e pauladas

Outros processos utilizados mundialmente no abate de animais de produção são o elétrico e a câmara de gás, sendo o primeiro mais comum na avicultura e o segundo na suinocultura. O professor Moham Haj, da University of Bristol, Inglaterra, esclarece que, no método elétrico, a sangria é determinante para manter a ave inconsciente, impedindo que o sangue retorne ao cérebro. Falhas nesta etapa resultam em morte hedionda. A insensibilização ocorre em série, com as aves penduradas pelos pés, sendo imersas em água e expostas a um choque de 10 v/cm durante quatro segundos. Os indivíduos ainda podem apresentar diferentes graus de resistência, o que pode tornar o choque ineficiente.

No caso do procedimento com gás, ele é realizado de três formas: CO2 em alta concentração, CO2 em duas fases (baixa e depois alta) e CO2 com gases inertes. O problema é que este método exige um período maior para desacordar o suíno quando comparado com os anteriores. Antonio Velarde, do Instituto de Recerca y Tecnología Agroalimentáries (IRTA), da Espanha, mostrou em testes com humanos as reações do organismo à exposição excessiva de dióxido de carbono. Quando inerte a níveis de 10% de CO2, as pessoas relataram sentir gosto ruim na boca. Isso decorre da reação dos químico-receptores presentes na laringe. Com o CO2 em 20%, começa a falta de ar e a 60% a fadigação extrema, lembrando que o gás torna-se aversivo aos seres humanos e suínos já a partir de 40%.

"Com CO2 a 70%, o animal perde a consciência depois de 33 segundos. A partir dos nove segundos, ele já tenta fugir. Quando em 90%, perde os sentidos no 27º segundo. É mais rápido, todavia, pior de sentir", afirma o veterinário do IRTA. Entretanto, a forma na qual a situação transcorre de forma menos traumática para o animal. Os suínos podem andar até as gaiolas em duplas, sendo submergidos em um poço, com paradas intermediárias, e com diferentes concentrações do gás. Na corrente sanguínea, o dióxido gera desmaio. Se misturado aos gases inertes, como oxigênio, nitrogênio e argônio, e, dependendo da combinação entre eles, pode não ocorrer aversão, mas o tempo de abate se prolonga em muito.

"Já tivemos experiências mal sucedidas com o atordoamento elétrico de bovinos. Nosso gado tem uma estrutura corporal diferente, com pernas mais longas, e os eletrodos não fixavam nos lugares certos. Além do mais, o rebanho brasileiro não é padronizado. E seria muito difícil criar um equipamento adaptado às diferentes raças, cruzamentos e categorias", avalia o prof. Matheus Paranhos, do Grupo Etco. A principal queixa do especialista é em relação à inexistência de estudos nesta área, que, segundo acredita, é prejudicial para maiores avanços.


COMO PROCEDER NOS CASOS DE:

Falhas mecânicas dos veículos

Solicite outro veículo para transbordo e desembarque os animais em local adequado nas proximidades.

Envolvimento em acidentes

Sinalize para evitar atropelamento de animais; conduza-os para local seguro e socorra os que estejam presos

Bloqueios de estrada

Sem rotas alternativas ou previsão de liberação, desembarque em locais alternativos. Na impossibilidade, procure sombra e água

Veículo retido pela fiscalização

Solicite outro caminhão para transbordo e prossiga. Problemas com documentos dos animais, desembarque em fazenda próxima

Fonte: Manual de Boas Práticas de Manejo no Transporte


FIQUE POR DENTRO

O abate humanitário consiste no conjunto de práticas e operações, baseadas em critérios técnico-científicos, que assegurem o bem-estar desde o embarque na propriedade rural até o manejo no frigorífico. Neste quesito, a WSPA treinou, desde 2008, 5.800 profissionais de frigoríficos municipais e estaduais, além de fiscais federais.