Entrevista do Mês

 

Revolução no manejo e nas instalações

De personalidade e trajetória carismáticas, a norte-americana Mary Temple Grandin trouxe uma nova visão para a lida com os animais. Portadora de autismo, é projetista de instalações e professora de Ciência Animal na Universidade do Colorado. Nesta entrevista exclusiva fala de projetos, da experiência no Brasil e sua preocupação com a dor dos animais.

Luiz H.Pitombo

Revista AG – Como estão caminhando as pesquisas e os projetos que desenvolve atualmente, especialmente os relacionados à pecuária de corte?

Mary Temple Grandin – No meu mais recente projeto, identificamos que as vacas da raça Angus possuem diferenças individuais quanto ao seu comportamento maternal, relacionado à defesa dos bezerros. Algumas mães são mais vigilantes que outras. Existem vacas que chamam seus bezerros quando estes se encontram ameaçados, enquanto que outras não fazem nada disso.

Revista AG – Em se tratando de bem-estar animal na área da pecuária, aonde os produtores norte-americanos evoluíram mais nos últimos tempos?

Temple Grandin - Nos últimos dez anos, mais e mais pecuaristas passaram a utilizar métodos de manejo que são menos estressantes para o gado. Como exemplo daria o parar de assobiar e de gritar nos vários momentos dalida; a ausência de cachorros nos currais e a compreensão dos princípios que regem a zona de fuga dos bovinos. Assim, para se fazer o gado avançar para frente, e em fila, é preciso caminhar com rapidez ao lado de cada animal na direção oposta à do movimento que é desejado. Quando a pessoa cruzar pelo ponto de equilíbrio, localizado na altura do ombro do animal, este se moverá para frente.

Revista AG - Em que aspectos considera que seria mais importante se evoluir: instalações ou o próprio comportamento humano?

Temple Grandin - Para se ter um bom manejo, são importantes tanto as instalações como o treinamento do pessoal. Boas instalações e currais fazem com que o manejo daquele animal fique mais fácil e menos estressante, mas as pessoas precisam saber como utilizá-los corretamente.

Revista AG – E sobre suas atividades relacionadas à indústria frigorífica, que, aliás, estão nos primórdios de sua atuação na área?

Temple Grandin – O início do meu trabalho esteve centrado principalmente no projeto e no desenho de instalações, enquanto que nos mais recentes me concentrei no desenvolvimento de sistemas de mensuração que ajudem as pessoas a manter um manejo calmo e de baixo estresse.

Revista AG – Qual o motivo deste último foco de preocupações?

Temple Grandin - Algumas pessoas possuem a tendência de regredir aos maus hábitos, a não ser que as práticas de manejo com o gado sejam pontuadas. Os pecuaristas podem facilmente obter medidas indicativas do estresse ou do manejo inadequado verificando o número de animais que apresentam comportamentos como queda durante o manejo; ir de encontro à cerca; dar coices e vocalizações enquanto estão presos.

Revista AG – Como o autismo contribuiu para o desenvolvimento de seu trabalho e pesquisas com animais, particularmente com os bovinos?

Temple Grandin – Em minhas atividades relacionadas ao comportamento do gado, o autismo me auxiliou porque sou uma pensadora extremamente visual, que pensa em fotografias. Isso contribuiu para que percebesse detalhes visuais que assustam os bovinos, pocomo sombras, reflexos de luz em poças d'água e outras distrações. Você precisa se abaixar no curral para ter a mesma visão proporcionada pelos olhos de uma vaca, eliminando pontos de distração que possam fazer com que os animais parem e se recusem a movimentar.

Revista AG – Quais seriam alguns dos pontos que trazem este tipo de desvio da atenção no dia a dia?

Temple Grandin – Dentre os mais comuns, estão reflexos em metais brilhantes; veículos parados perto dos corredores de um curral; um casaco ou uma corda dependurados na cerca. Também interferem cães; objetos jogados no chão, como garrafas d'água; raios de sol, além das sombras e poças d'água. Ao se utilizar laterais que sejam sólidas, frequentemente se estará ajudando a bloquear a visão do bovino para coisas que o distraiam.

Revista AG – A partir de sua visita ao Brasil, que avaliação faria sobre o bem-estar nas fazendas de gado de corte?

Temple Grandin – Visitei vários confinamentos e plantas de abate quando estive no Brasil. Gostei realmente dos confinamentos quando vi animais tranquilos, pois as pessoas ficavam bastante tempo em contato com o gado, que assim se tornava calmo. Em uma das unidades de abate que visitei, os animais eram manejados de maneira não estressante quando eu estava olhando, mas, quando pensavam que tinha ido embora, passavam a usar excessivamente choques elétricos. É por isso que recomendo auditorias com vídeos para as práticas que envolvem a lida com animais na indústria frigorífica.

Revista AG – Quais os aspectos que os brasileiros, em sua avaliação, precisam dar maior atenção para evoluir nessa área?

Temple Grandin – Penso que são extremamente importantes o treinamento e a supervisão. Como falei antes, uma boa instalação não irá funcionar bem se for utilizada por pessoas com treinamento fraco. O primeiro passo é fazer com que as pessoas que lidam com os animais se tornem mais calmas e parem de gritar. O grito é muito estressante para o gado.

Revista AG - De uma maneira geral, onde se encontram os maiores desafios a serem superados com o gado de corte?

Temple Grandin – O manejo e o transporte são duas áreas do bem-estar animal extremamente relevantes e que precisam melhorar. Caminhões superlotados são a principal causa de contusões e essa carne precisará ser cortada da carcaça, trazendo grandes prejuízos econômicos. Uma boa direção ao volante também é essencial, pois paradas bruscas ou acelerações rápidas podem tirar o equilíbrio dos animais...E quando um animal cair dentro do caminhão, ele será pisoteado e sofrerá contusões pelos outros animais.

Revista AG - Como vê os conceitos e a relação entre bem-estar, direito animal e ética, que são aspectos que nos últimos tempos passaram a ser questionados por setores da sociedade em muitos países?

Temple Grandin – O bem-estar animal significa um bom ambiente e um bom manejo. A utilização de métodos menos estressantes de lida promove tanto o bem-estar como também traz vantagens econômicas, porque o gado que fica agitado e assustado no manejo terá um menor ganho de peso. As pessoas que defendem os direitos animais frequentemente acreditam que eles não deveriam ser utilizados para a alimentação. Já a ética abrange muitas áreas, mas uma grande preocupação neste setor são os procedimentos dolorosos feitos com os animais, como a descorna. Existem pesquisas que mostram que o emprego de medicamentos que diminuem a dor podem ser efetivos nesse procedimento... No futuro, os pecuaristas poderão ser solicitados a utilizar este tipo de medicamentos que traz alívio para essas situações de dor.

Revista AG - Que tipos de pesquisas vêm sendo realizadas com o bem-estar animal e o que mais se busca atualmente?

Temple Grandin – Existe um número muito elevado de boas pesquisas sendo realizadas. O uso de medicamentos que trazem alívio à dor na descorna e na castração é justamente uma área majoritária de trabalho. São necessários mais estudos para o desenvolvimento de produtos desta categoria que sejam fáceis de utilizar e que não sejam caros demais. Outra área que requer mais pesquisas é a de aditivos alimentares beta-agonistas para a promoção de crescimento. Alguns grupos de animais alimentados com esses aditivos tiveram problemas doloridos nos pés e músculos, além de estresse térmico. Isso não é aceitável, é importante que se reduza a dor e o sofrimento. Pesquisas mostram que os bovinos sentem dor.

Revista AG – E no seu caso, para onde apontam suas pesquisas e novos projetos?

Temple Grandin – Uma área de atuação será a da "aclimatação" do gado para a lida. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostram que o treinamento de novilhas jovens através da passagem tranquila pelo curral irá ajudar a reduzir o estresse quando forem manejadas no futuro. Isso irá ajudar na produtividade.

Revista AG – Para encerrar a entrevista, gostaria de comentar ou acrescentar algo?

Temple Grandin – Sim. Tenho um bom volume de informações disponíveis no meu website (www.grandin.com). Além dos artigos em inglês, há vários outros traduzidos para o espanhol.