Leite

 

Interação NUTRIÇÃO- REPRODUÇÃO

Ciclo estral é uma dinâmica endócrina contínua, iniciada pela ovulação, que leva à formação de um corpo lúteo e à secreção de progesterona. A duração varia entre 17 e 24 dias (média de 21 dias) - sendo que esta duração está relacionada ao número de ondas foliculares que ocorrem durante o ciclo, pois quanto maior o número de ondas foliculares maior será o período.

O ciclo pode ser dividido em quatro fases que são limitadas por eventos reprodutivos coordenados pela secreção de hormônios, sendo elas: pró-estro (fase que antecede o estro ou o cio, encerrando no momento em que a fêmea aceita a monta do macho; estro (se inicia com a aceitação do macho pela fêmea e se encerra quando a fêmea deixa de aceitá-lo); metaestro (fase em que ocorre a ovulação da vaca) e diestro (fase de maior duração, terminando com a regressão fisiológica do corpo lúteo).

De forma geral, o GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas), secretado pelo hipotálamo, atinge esta glândula e estimula a liberação das gonadotrofinas, FSH (hormônio folículo estimulante) e LH (hormônio luteinizante).

O FSH estimula o crescimento dos folículos ovarianos, a maturação dos ovócitos e atua na secreção de estrógeno pela camada da granulosa do folículo ovariano. O LH induz a secreção de estrógenos no folículo ovariano e atua em uma série de alterações estruturais no folículo, que culminam com a ruptura do folículo e a expulsão do óvulo do seu interior (ovulação), além de estimular as células do corpo lúteo a produzirem progesterona.

Além desses hormônios citados, muitos outros estão envolvidos na complexa relação entre reprodução e nutrição, como progesterona, estrógeno, insulina, hormônio do crescimento (GH), leptina, etc.

Nos ruminantes, a nutrição influencia a fertilidade, diretamente através do fornecimento de nutrientes específicos, que são necessários para os processos de desenvolvimento do folículo, ovulação, maturação oocitária, fertilização, sobrevivência embrionária e estabelecimento da gestação; e, indiretamente, atuando sobre as concentrações circulantes dos hormônios e outros metabólitos sensíveis aos nutrientes que são requeridos para o sucesso destes processos (Robinson et al., 2006).

A subnutrição traz como consequência a perda do peso vivo, que afeta a reprodução, inicialmente reduzindo a taxa de concepção (cios menos férteis) e, em casos extremos, após uma significativa perda de massa corporal, provocando o anestro, condição em que os ovários apresentam-se inativos ou afuncionais.

Esta condição também reduz o número de folículos que emergem e que estarão disponíveis para ovulação. Já se sabe que a redução da taxa de ovulação pode ser prevenida através do incremento nutricional (flushing alimentar – maior fornecimento de energia) no período de dez dias antes da monta. De fato, o período crítico para que ocorra um efeito estimulatório da suplementação nutricional pode ser até mesmo inferior a esse.

A principal fase na qual a nutrição pode afetar o desenvolvimento do feto é o início da gestação. Este efeito é particularmente delicado até seu reconhecimento materno, que no bovino ocorre entre 17 e 25 dias após a concepção. Após esta fase ocorre na fêmea gestante a alteração na partição dos nutrientes, com maior prioridade para a gestação. Desta forma, variações nutricionais refletem menos no desenvolvimento do embrião.

No ovário, o efeito da nutrição é estimular a foliculogênese, via modificações associadas com alterações intrafoliculares nos sistemas metabólicos glicose-insulina, IGF e leptina, os quais, uma vez estimulados, levam à supressão da produção de estradiol (Scaramuzzi et al., 2006).

Em situações de desnutrição, os folículos ovarianos crescem até o estágio de emergência, porém, é raro que continuem se desenvolvendo. Após esta fase, os folículos são dependentes de gonadotrofinas, e como em condições de nutrição inadequada a secreção destes hormônios está alterada, não se completa o desenvolvimento folicular.

A nutrição pode influir sobre a função ovariana por efeitos sistêmicos: (I) ao nível hipotalâmico, através da síntese e da liberação de GnRH; (II) hipófise anterior, através do controle da síntese e da liberação de FSH, LH e hormônio de crescimento (GH); e (III) ao nível ovariano por regulação do crescimento folicular e síntese de esteroides (Diskin et al., 2003).

Uma nutrição adequada acarretará em uma concentração de glicose sanguínea alta, consequentemente a de insulina também aumentará, acarretando em um melhor crescimento folicular, haja visto sua importância aos hormônios gonadotróficos. Além disso, a maior concentração de glicose também é responsável por um melhor recrutamento de folículos. No entanto, quando o contrário ocorre, ou seja, menor concentração de glicose sanguínea provocada por uma nutrição deficiente, consequentemente, observa-se também menor concentração de insulina, que acarreta menor liberação dos hormônios gonadotróficos (FSH e LH), além de reduzir a concentração de IGF-I. Este perfil hormonal irá causar desenvolvimento lento e anormal de folículos que nunca chegarão a ovular.

Um correto desenvolvimento folicular precisa de níveis adequados de proteína. Rações com níveis insuficientes têm sido associados à diminuição da manifestação e ao atraso da aparição do cio, à redução do índice de concepção ao primeiro serviço e à morte embrionária.

Em contrapartida, os possíveis efeitos negativos dos excessivos níveis de proteína nas rações sobre a reprodução têm sido muito discutidos. Alguns autores defendem a ideia de que os problemas reprodutivos oriundos do excesso de ureia estão associados a trocas no ambiente uterino, ocorrendo diminuição da motilidade dos espermatozoides no útero, danos aos óvulos e/ou danos ao desenvolvimento inicial do embrião no útero. Além disso, a proteína em níveis acima do que as vacas necessitam tem sido envolvida em aumentos nas concentrações de amônia e ureia no leite e no sangue, que são usadas como marcadores de fertilidade reduzida (Butler, 1998).

Mudanças em curto prazo no plano nutricional de minerais têm demonstrado influenciar o recrutamento de pequenos folículos antrais (1 a 4 mm), sem afetar as concentrações circulantes de FSH, resultando em um maior número de ovulações após um tratamento superovulatório (Gong et al, 2002).

Os efeitos da suplementação dos macro e microminerais sobre os aspectos de reprodução em bovinos não apresentam consenso na literatura. Existem trabalhos que apresentam resultados benéficos na suplementação deste ou daquele elemento, o que não é confirmado por outros autores. De fato, não é fácil, ou às vezes possível, comparar resultados de trabalhos realizados em condições diferentes, os quais variam desde a categoria animal, raça, condições ambientais, de solo e dieta fornecida.

Segundo Sabrina Coneglian, correto desenvolvimento folicular precisa de níveis adequados de proteína

Existe um consenso, porém, no fato de que, quando a suplementação for benéfica, naquelas condições existia uma situação de deficiência do elemento suplementado. O que não se pode, nem se deve, extrapolar para outras condições.

A eficiência reprodutiva dos ruminantes é o resultado de fertilidade, prolificidade e sobrevivência das crias, fatores estes que são fortemente influenciados pela nutrição. A disponibilidade de nutrientes tem sido correlacionada com a melhoria dos índices reprodutivos e produtivos em ruminantes, sendo fundamental no controle da eficiência de tecnologias voltadas à reprodução.

Dois estudos no Brasil com fêmeas da raça Nelore sob baixa ou alta ingestão de matéria seca avaliaram características do ciclo estral tanto em novilhas (Mollo et al., 2007) quanto em vacas não lactantes (Martins et al., 2008). No primeiro trabalho, as novilhas submetidas à alta ingestão de matéria seca ovularam folículos maiores e formaram corpos lúteis maiores sem, entretanto, apresentarem diferenças nas concentrações circulantes de estradiol Leite Leite Sombra gera benefícios para o gadoe progesterona. No segundo estudo, apesar de não ter sido detectada diferença no tamanho do folículo ovulatório entre vacas com alta e baixa ingestão de matéria seca, as concentrações séricas pré-ovulatórias de estradiol foram maiores nas vacas com baixa ingestão de matéria seca. Em ambos os estudos as concentrações circulantes de insulina foram mais altas nas fêmeas sob alta ingestão de matéria seca.

Murphy et al. (1991) reportaram que novilhas submetidas a um baixo consumo alimentar têm reduzido o tamanho e a persistência do folículo dominante se comparadas a animais submetidos a elevados planos energéticos. Uma restrição alimentar aguda por cerca de doze dias diminui a taxa de crescimento e o maior diâmetro do folículo dominante, bem como induz falha do folículo dominante para ovular após luteólise induzida com prostaglandina (Mackey et al., 1999).

Vacas alimentadas com dietas de alta energia têm menores folículos do que vacas alimentadas em dietas com baixa energia, porém, vacas submetidas a dietas com elevados níveis de energia produzem melhores oócitos de boa qualidade. Esses resultados sugerem que a qualidade oocitária é influenciada pelo consumo alimentar e o grau do efeito pode ser influenciado pelo período fisiológico e pela lactação. Isto ressalta a importância de se evitar severas mudanças na dieta no período pré-cobrição.

A inter-relação entre a nutrição e a reprodução é um tema complexo e as respostas são frequentemente inconsistentes e variáveis, mas de fundamental importância para chegarmos à máxima produtividade na pecuária leiteira. Desta forma, é necessário um contínuo estudo sobre esse assunto, além de aplicarmos estes conhecimentos no campo.

*Sabrina Coneglian é zootecnista, doutora em Nutrição de Ruminantes. integrante do Departamento de Inovação, Qualidade de Produto e Assistência Técnica – Vale Fertilizantes [email protected]