Caindo na Braquiária

 

A alegria da cria de volta ao MS

Alexandre Zadra - Zootecnista
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O vento de julho e a movimentação dos quase 200 animais reunidos na remanga de terra deixavam uma nuvem de poeira espessa no ar enquanto diagnosticávamos os tipos raciais existentes no rebanho matrizeiro da fazenda do Chico, cliente do veterinário Neto Morette, jovem, mas sagaz especialista em reprodução que me acompanhava. Foi nesse contexto que iniciamos mais uma excelente semana de trabalho na região entre Bataguassu e Santa Rita do Pardo, região que abriga boa parte da cria do Mato Grosso do Sul.

Nesse rebanho, encontramos matrizes cruzadas Canchim/Nelore, Brahman/Canchim/Nelore, Bonsmara/Canchim/Nelore, Red Angus/Nelore e Nelore apuradas. Se para muitos inexperientes consultores é uma salada de raças, essa imagem é um verdadeiro colírio para meus olhos, pois, quando reparamos com mais acuidade, notamos que a grande maioria delas possui pelo muito curto e repete cria anualmente, significando ser boas matrizes dentro daquele ambiente.

Para os objetivos do Chico, criador que possui em torno de 3.000 matrizes, fazendo também recria a pasto e engordando no confinamento estratégico, suas vacas o atendem, deixando muito claras algumas premissas para definirmos os melhores acasalamentos. Toda fêmea de seu criatório deve ser produzida através de seu próprio rebanho. As novilhas serão desafiadas e devem enxertar precocemente por falta de espaço na fazenda para recria de fêmeas pré-púberes e todos machos cruzados devem ser abatidos com peso acima de 500 kg , precoces e inteiros, com terminação adequada no confinamento.

O setor de cria que se encontrava fadado ao malogro ressurge com força total na esteira dos altos preços pagos pelos invernistas aos bezerros de qualidade superior, sobretudo produtos de cruzamento industrial. Machos esses que possuem um conhecido potencial de ganho em peso, como ocorre com os bezerros meio-sangue britânicos observados na Fazenda Beatriz em companhia do zootecnista Rodrigo, os quais foram desmamados acima de 280 kg somente com o leite das Nelore selecionadas e vêm ganhando mais de 700 g/dia em pastos com muita massa e uma pequena suplementação alimentar de 300 g/dia.

Tão logo desembarcamos na fazenda administrada pelo zootecnista José Eduardo, propriedade que trabalha com 3.000 matrizes Nelore em processo de seleção, participando de um programa de melhoramento que reúne selecionadores de todo o Brasil, pudemos notar um modelo de gestão a ser seguido, pois a empresa trabalha alicerçada por manejo intensivo de pastos, suplementação com silagem de cana no inverno, confinamento estratégico e muito zelo na escolha da genética a ser usada para produzir os touros e matrizes que comporão o rebanho de cria, bem como os disponibilizados ao mercado. Como se não bastasse, adotam a estratégia de fazer cruzamento industrial nas vacas com valor genético inferior à media do rebanho com o intuito de gerar os bois a serem engordados no confinamento.

Já na visita ao rebanho gerenciado pelos zootecnistas Bruno e Viviane, tivemos a enorme satisfação de registrar a produção de bezerros cruzados Brangus/Nelore com grande estrutura e ganho de peso a pasto e a grata notícia do bom trabalho dos touros Brangus a campo, o que nesse momento propício da cria nos faz crer que exista um terreno fértil para o uso de touros sintéticos (Brangus, Braford, Canchim) e adaptados (Bonsmara, Caracu e Senepol) para, juntamente aos zebuínos, forjar a próxima geração de bons bezerros geneticamente superiores que ocuparão as pastagens e confinamentos da região.

A definição das raças no rebanho do Chico, a fim de atender suas necessidades, foi o uso de sêmen de Angus nas Nelore, Brangus em todas as cruzadas azebuadas (cruzadas Canchim ou cruzadas Brahman) e Bonsmara nas F1 Angus.

O orgulho de ser criador voltou, basta não sermos hedonistas e trabalharmos com o que de melhor há em tecnologia para fazer a cria tão desejada pelo mercado invernista.