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Mais carne BRASILEIRA

Para atender à grande demanda, Brasil terá de passar por mudanças, destacam especialistas durante o Congresso Internacional da Carne

Bruno Santos
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Uma questão foi unânime entre os especialistas, autoridades e palestrantes que participaram do Congresso Internacional da Carne, em Goiânia/GO. Todos acreditam que o Brasil tem todas as condições de suprir a grande demanda mundial por alimentos, principalmente os de origem animal. Entretanto, precisará ter investimentos em tecnologias para promover mudanças.

A senadora e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu, já na abertura do primeiro painel, que teve como tema "As visões dos setores", já alertou o público para gargalos do setor.

Segundo dados da senadora, atualmente, as barreiras internacionais nos privam de 40% das exportações mundiais. Japão e Estados Unidos são dois exemplos. Essa limitação ocorre porque o selo brasileiro de gado livre de Aftosa com vacinação não tem validade científica.

Mas, antes de pensar no mercado externo, tem de se pensar na melhoria das vias de acesso para o Brasil, tais como, ferrovias, rodovias e hidrovias. A presidente da CNA propõe que o transporte via cabotagem (navegação entre portos marítimos) seja revisada urgentemente. "A cabotagem brasileira é muito ruim, precisamos rever as leis arcaicas que nos regulamentam e também é preciso um investimento forte nesse transporte, pois através dele conseguiríamos desafogar e muito as estradas", cita.

O investimento em tecnologia também será fundamental, principalmente, devido à pressão ambiental. O produtor terá de produzir mais em menos área. Segundo a palestrante, algo perfeitamente possível, pois somente com a aplicação de tecnologia poderiam ser liberados 70 milhões de hectares. "Nos últimos 40 anos aumentamos nosso rebanho em 160% e conseguimos manter nossas áreas estáveis. Isso prova que com tecnologia poderemos ser ainda mais precisos na produção", lembra.

Outro ponto destacado pela senadora foi em relação à harmonização da cadeia produtiva. Para ela, tem de haver uma aproximação entre os quatro elos do setor (produtor, frigorífico, varejo e consumidor), para poder chegar num consenso quanto à tipificação de carcaça, questão essa que há anos vem sendo discutida e cada vez mais toma força. "Se não criarmos um modelo de carcaça não chegaremos a lugar algum. Precisamos seguir os exemplos dos modelos argentinos, uruguaios e australianos, para ter carcaças uniformes", salienta Kátia Abreu.

Mas para essa padronização, o produtor terá de investir na propriedade, principalmente em tecnologia para a pecuária deixar de ser uma atividade extrativista e passar a ser um negócio profissional. Kátia Abreu acredita que só com esse investimento o produtor terá melhor remuneração e melhor formação de preços do produto. "Um produtor que aplica tecnologia não pode ganhar a mesma bonificação de um produtor que não o faz. Ele tem de ser valorizado e gratificado por isso", complementa.

"Nos últimos 40 anos aumentamos nosso rebanho em 160% e conseguimos manter nossas áreas estáveis", diz a senadora Kátia Abreu

Kátia Abreu destacou ainda a importância do mercado interno brasileiro, que com a ascensão das classes C e D não para de crescer. "Hoje, exportamos apenas 15% da carne e a média de consumo interno subiu de 36 kg para 42 kg por pessoa durante um ano. É um dado valiosíssimo", salientou.

O primeiro painel – "Produção de carnes: as visões dos setores" – contou também com a apresentação do sócio-diretor da OIA Certificadora Socioambiental, Xico Graziano, que falou sobre a comunicação na sociedade e a forma como a mídia e a sociedade, de forma geral, avaliam o tema.

Com uma brincadeira, e mostrando o desconhecimento da mídia, Graziano "apresentou" para os expectadores do congresso os vários tipos de bois identificados pela sociedade. Segundo ele, o primeiro deles é o "Boi Histórico", aquele que o pecuarista insiste em produzir desde o começo dos tempos. O segundo é o "Boi Devastador", aquele que a sociedade aponta como responsável pelos desmatamentos das florestas. Outro boi identificado é o "Corrupto", aquele usado apenas para lavagem de dinheiro. Também tem o "Boi Poluidor", responsável pelo efeito estufa. E ainda o "Boi Verde", considerado o mais ecológico de todos. Por último, existe o "Boi Certificado". Esse é o mais moderno, pois tem garantia de origem e de qualidade.

"Isso prova o desconhecimento da população sobre qual, de fato, é o gado do Brasil. É preciso trabalhar essa imagem para evitar riscos e mentiras dissipadas", salienta Graziano.

O Painel contou ainda com a apresentação do presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Antônio Jorge Camardelli, que fez uma exposição histórica sobre o gado no Brasil e os principais frigoríficos, e do diretor responsável pelo Comitê de Sustentabilidade ABRAS, Adriano Santos, que iniciou a terceira palestra com enfoque no setor varejista.

ORGANIZAÇÃO DA CADEIA

O tema central do segundo painel foi gestão e organização da cadeia produtiva da carne bovina, que levou aos participantes três palestras. A primeira foi "Boi a pasto, um bom negócio para a Austrália".

Peter Barnard, gerente geral de comércio e serviços de economia da Meat and Livestock Australia (MLA), da Austrália, destacou que, apesar das dificuldades enfrentadas na produção, a Austrália vem sendo bem-sucedida no mercado nacional. "As vendas nos mercados externos se tornaram mais valiosas nos últimos 15 anos", avalia. Ele destaca que, para os próximos 10 anos, o país espera que a produção a pasto seja melhor.

O consultor internacional Francisco Vila debateu sobre o caminho do boi: "A revolução na pecuária". Para ele, a produção da pecuária está inserida na realidade e terá de mudar conforme as tendências. Richard Brown, diretor da empresa de consultoria Gira, da Inglaterra, levantou questões como em que estágio o homem está em relação à produção de carne bovina? Para ele, a visão de análise de mercado do Reino Unido está otimista.

SANIDADE E QUALIDADE

O secretário-geral do International Meat Secretariast (IMS), Hsin Chung Huang, abriu os trabalhos do terceiro painel falando sobre Sustentabilidade para o setor pecuário. O palestrante explicou a missão da entidade formada por 90 membros e representada por mais de 30 países. Comentou sobre a oportunidade que o IMS oferece para a troca de experiências entre os países produtores. Dissertou sobre a sustentabilidade e como esse conceito deve ser aplicado de forma diferente em cada país.

Já Luis Alfredo Fratti Silveira, do Instituto Nacional de Carnes do Uruguai (INAC), tratou da qualidade da carne uruguaia e como chegou a esta conquista. Um esforço de longo prazo: 400 anos com a produção passando de geração em geração nas famílias que produzem gado de corte. Hoje, o país é o sétimo exportador mundial.

O diretor do Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC), Sebastião Guedes, apresentou de forma didática uma leitura da cadeia da carne brasileira. Segundo ele, o mercado movimenta o equivalente a 8% do Produto Interno Bruto (PIB), com valor de R$ 330 bilhões. A produção de 10,6 milhões toneladas é dividida em 78% para o Brasil e 21% para exportação.

TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICAS

foram os pontos principais das palestras do quarto painel. O ex-presidente do Banco do Brasil e doutor em economia Gustavo Loyola levantou questões sobre o futuro global da proteína animal. O Brasil, segundo Loyola, está perdendo acordos comerciais importantes. "É preciso dar uma sacudida na política comercial brasileira. O Brasil enfrenta uma turbulência na questão econômica e sofre com as mudanças do mercado internacional, como a valorização do dólar contra as demais moedas", pontua.

A tendência do mercado mundial de carnes foi destacada pelo representante do banco agrícola Rabobank, Gulherme Bellotti. Para ele, o aumento de renda é proporcional ao aumento de proteína, e isso exige dos países aumento de produção. "Em primeiro lugar está o Brasil, que será o principal provedor de alimentos, seguido por Estados Unidos", pontua.

Ainda dentro das discussões do tema do painel, Fernando Adauto Loureiro falou do mercado no Rio Grande do Sul. Ele explica que o estado produz anualmente 600 mil toneladas e que o consumo per capita é acima da média, com cerca de 50 kg por habitante. "Somos autossuficientes na produção. O que produzimos aqui é consumido em solo gaúcho", enfatiza.

O presidente executivo da Federação Colombiana de Pecuária (Fedegan), José Félix Lafaurie Rivera, debateu sobre o acesso a novos mercados. Para o colombiano, há uma tendência mundial em produzir e consumir mais proteínas animais. "Nos últimos 50 anos, houve um grande crescimento populacional, aumento dos salários e do consumo de carne. Esse tipo de situação tende a incrementar o mercado."

"É preciso trabalhar a imagem do gado no Brasil para evitar mentiras dissipadas", salienta Xico Graziano

Para finalizar a temática, István Wessel, um dos criadores da Confraria Wessel, apresentou ao público os passos para conseguir vender a carne. O empresário fez um breve relato de como a família, vinda da Ucrânia, conseguiu se firmar no mercado de carne brasileiro há mais de 50 anos. Ele afirma que toda a família trabalhou de forma intensa para desenvolver o negócio da carne no País, apresentando cortes e produtos até então pouco conhecidos dos brasileiros.

CARNE COMO ALIMENTO FUNCIONAL

Mau humor, deficiência cognitiva, anemia, aumento de colesterol e problemas cardíacos são apenas alguns dos sintomas de quem retira a carne bovina da alimentação. Estes e outros dados foram apresentados durante o último painel do Congresso Internacional da Carne, com o tema "Carne como alimento funcional".

A nutricionista e consultora Licínia de Campos falou sobre as dietas da moda, utilizadas sem conhecimento técnico, e dos pontos positivos de uma alimentação balanceada que não restrinja a ingestão de carne bovina. A nutricionista desmitificou, ainda, mentiras sobre a carne, como a demora do organismo em digeri-la.

A segunda palestra do painel ficou a cargo do diretor-técnico do Sebrae Goiás, Wanderson Portugal Lemos, com o tema "Estabelecendo confiança com o consumidor". Ele ressaltou que a qualidade da carne do século 21 passa por todo o processo de produção e comércio.

GOIÁS É PALCO DOS DEBATES

Por conta da grande relevância do estado para o setor, Goiânia foi escolhida para sediar, entre os dias 25 e 27 de junho, o Congresso Internacional da Carne. O evento foi uma realização da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Goiás) e do International Meat Secretariat (IMS-OPIC) e contou com a participação de mais de mil pessoas durante os três dias de realização.

O presidente do Sistema Faeg/Senar, José Mário Schreiner, já na abertura do evento, destacou o orgulho em receber pecuaristas vindos de dez países diferentes para o congresso. "Da mesma forma com que cresce nossa importância como estado produtor e como representante dos produtores rurais goianos, cresce nossa responsabilidade por fornecer uma maior quantidade de alimento e de qualidade", disse.


VISITA TÉCNICA

O Congresso iniciou sua programação com uma visita técnica à propriedade Boa Vereda, localizada no município de Cachoeira Dourada, distante 244 km de Goiânia. Com o tema "Sistema Integração Lavoura- Pecuária-Floresta (ILPF)", os participantes puderam ver o trabalho realizado nos 250 hectares da fazenda. O engenheiro-florestal e proprietário da fazenda, Abílio Pacheco, apresentou ao grupo como funciona o Sistema ILPF na produção de carnes, além dos aspectos práticos e econômicos. Ele conta que, futuramente, a população irá enfrentar grandes cinco problemas ligados à energia, água, alimento, ambiente e pobreza. "O Sistema ILPF atua para suprir estas necessidades. Já que, por meio da madeira, nós produzimos energia; os eucaliptos plantados conseguem armazenar melhor no solo as águas das chuvas, fazendo um reaproveitamento", avalia Abílio.