Feno & Silagem

 

TECNOLOGIA DE PONTA

Algumas ferramentas para avaliação de um bom processo de ensilagem

Lucas José Mari*

As Boas Práticas na Ensilagem são ações tomadas em todos os momentos durante o processo de ensilagem, com vistas aos seus pontos críticos. Iniciam-se com o plantio da cultura, passam pelo exato ponto de colheita, uma boa picagem e processamento, compactação e vedação. Enganam-se aqueles que acham que a silagem termina na cobertura com a lona, pois ainda faz parte desse processo o bom manejo de retirada e a estabilidade do produto após a abertura do silo.

Técnicos em ciências agrárias podem assessorar os produtores durante a ensilagem, demonstrando quais são os pontos falhos e em que se pode melhorar. Todavia, as ferramentas para essa avaliação ainda são escassas.

Todos os anos algumas toneladas de matéria seca de silagem (e dinheiro!) são perdidas para a atmosfera. Essas perdas, muitas vezes, são incompreendidas e confundidas com o material deteriorado na camada superior ou lateral, mas são muito mais que isso. São perdas devido ao processo fermentativo propriamente dito e podem ser inflacionadas se houver fermentações indesejáveis, como as contaminações por enterobactérias, Clostridium sp. e leveduras, por exemplo, além de perdas após a abertura do silo, desencadeadas por micro-organismos aeróbios. Nesse aspecto, quando a temperatura da massa ensilada está 2°C acima da temperatura ambiental, cerca de 1% de matéria seca pode desaparecer diariamente, ou seja, parte da massa está, literalmente, se queimando.

Devido à necessidade de se identificar os principais pontos da ensilagem e demonstrar em que se pode ter mais atenção, a equipe técnica da Lallemand Animal Nutrition desenvolveu uma ferramenta chamada CSI, do inglês Corn Silage Investigation, ou Investigação da Silagem de Milho, em tradução literal. Apesar de ter o foco principal em silagem de milho, os pontos críticos podem ser avaliados em todos os tipos de silagem.

CSI - CORN SILAGE INVESTIGATION

O CSI é um software desenvolvido a fim de que os principais pontos do processo possam ser quantificados. Com ele, pode-se dar número às variáveis e, assim, saber em que patamares estão e quais precisam ser melhorados.

Antigamente, nas visitas de consultores e demais técnicos nas fazendas, muitos desses pontos eram subjetivamente avaliados por aspecto, coloração, cheiro, dentre outros pontos. Não que isso não seja importante e ainda faça a diferença para o produtor, mas, tendo a possibilidade de todas essas variáveis serem repetidas da mesma maneira de um ano a outro, pode-se acompanhar de uma maneira pormenorizada.

A ideia do CSI é não apenas dizer se está ou não bem compactado e sim o quão compactado está. Não apenas se a massa foi bem fermentada, mas quão fermentada está e, finalmente, se está estável após a abertura.

Nas figuras de 1 a 5 são demonstradas as avaliações que consistem o CSI. A figura 1 é a página geral com os quatro pontos principais: temperatura, pH, densidade e fatores de compactação.

Figura 1 - Página geral com os 4 pontos principais: temperatura, pH, densidade e fatores de compactação

Figura 2 - Parâmetros do programa CSI da Lallemand Animal Nutrition para avaliação de silagens

Na figura 2, está a página para inserção de dados de temperatura da massa na face do silo, ou seja, da massa em exposição aeróbia. Os estudos científicos sobre a estabiliFigura 4 - Variação do pH em função do teor de MS em silagens Figura 3 - Comparação da temperatura da face do silo com a temperatura ambientaldade aeróbia de silagens consideram que a silagem alcance, no máximo, 2º ou 3°C acima da temperatura ambiental. Isso quer dizer que, numa temperatura ambiental de 25°C, a máxima temperatura que a silagem poderia chegar seria de 27 ou 28°C. Se estiver acima disso, considera-se uma silagem instável e o aquecimento dessa massa leva à queima ou à combustão de nutrientes.

Figura 3 - Comparação da temperatura da face do silo com a temperatura ambientaldade

Figura 4 - Variação do pH em função do teor de MS em silagens

Veja que no software do CSI faz-se a comparação da média da temperatura dos pontos superiores (T1, T2 e T3) e inferiores (T4, T5 e T6), com a temperatura ambiental, em medidas tomadas com um termômetro de haste.

Figura 5 - Influência de parâmetros de colheita na necessidade de compactação

Figura 6 - Densidade de MS avaliada pelo software CSI

Alguns inoculantes de silagens têm justamente essa função. Não somente melhorar o perfil fermentativo da massa, mas também mantê-la mais estável até ser consumida pelo animal. O principal ator, neste caso, tem sido o Lactobacillus buchneri, uma das bactérias mais estudadas ao redor do mundo recentemente, em vista da sua capacidade de produção de ácido acético, um reconhecido inibidor do crescimento de fungos e leveduras. Diminuindo assim o aquecimento da massa após a exposição aeróbia.

Outro ponto de destaque do programa CSI é o pH da silagem, que mede indiretamente quão bem a forragem foi fermentada. O pH final de silagens de milho ou sorgo apresenta uma faixa, já bem conhecida, entre 3,8 e 4,2, entretanto, isso pode e deve variar em função do teor de matéria seca da forragem, do tipo de forragem ensilada e, até mesmo, da estabilidade da massa em aerobiose, conforme explicado na figura 2. Na figura 3, pode-se verificar que, dependendo do pH avaliado e do teor de MS da forragem, haverá uma mensagem de uma acidificação boa, mediana ou má.

Naquilo que se refere ao pH em estabilidade, nem sempre um pH baixo quer dizer uma silagem estável. Pode ocorrer da silagem não apresentar estabilidade aeróbia suficientemente boa e, com o desenvolvimento de leveduras na presença de oxigênio, essas consumiriam o ácido lático - o principal responsável pelo baixo pH da silagem. Ressalta-se que os pontos de avaliação do CSI têm interações importantes entre si.

Também tem influência na qualidade da silagem a densidade em que a massa foi acomodada e este parâmetro também pode ser avaliado no campo, e o software alimentado traz a resposta se a densidade está boa, intermediária ou ruim. O exemplo disso pode ser verificado na figura 4.

Neste programa, considera-se uma densidade alta quando ela está acima de 240 kg de MS/m3. No Brasil, geralmente se utiliza essa medida em kg de massa verde ou fresca/m3, mas a avaliação em MS está menos sujeita a variações do próprio teor de MS e de variações das espécies vegetais utilizadas.

Finalmente, outro parâmetro, ou melhor, conjunto de parâmetros a serem avaliados, são os fatores de compactação, e na figura 5 pode-se ter uma ideia daquilo que o influencia: taxa de colheita, rendimento de massa e teor de MS da forragem a ser colhida. Trazendo como resposta um valor teórico da necessidade de compactação da massa para que a densidade seja mais próxima possível da ideal, que seria de 240 kg de MS/m3.

Face exposta de um silo e uma fotografia de calor mostrando que ele se apresenta estável

Veja com os dados da figura 5 que, para o exemplo seguido, há necessidade de um trator de 4.000 kg fazendo essa compactação.

É importante lembrar que a compactação deve ocorrer por todo o período de colheita. Não é porque não chegou forragem nos últimos minutos que a anterior já está suficientemente compactada. Fala-se que o tempo de compactação deve ser igual ou até mesmo superior ao tempo de colheita, ou seja, se houver colheita durante 10 horas ao longo do dia, a compactação deverá ser de 10 horas ou mais nesse mesmo dia.

Em resumo, pode-se ver que todos os parâmetros avaliados no software do CSI estão interligados e, assim, devem ser considerados. Por exemplo: se uma forragem não foi bem compactada, a densidade será mais baixa e a fermentação pode ser ruim, trazendo um pH mais alto; por sua vez, a deficiência de compactação poderá levar a uma maior penetração de oxigênio na massa, elevando a temperatura por meio do crescimento de micro-organismos aeróbios. Estes micro-organismos podem consumir o ácido lático da massa, elevando ainda mais o pH e assim por diante, ficando difícil distinguir o que é causa e o que é efeito nesse processo de deterioração.

O intuito o programa é pontuar e ter objetivos a serem atingidos, bem como proporcionar a possibilidade de comparação e verificar se houve progresso ou regresso de um ano para outro.

CÂMERA FOTOGRÁFICA INFRAVERMELHA

Também existe outra ferramenta sendo trabalhada no campo pela equipe de campo, que é a câmera térmica ou infravermelha. Trata-se de uma câmera digital que é capaz de tirar uma foto digital convencional, juntamente a uma foto em que se demonstre e diferencie a temperatura da face exposta do silo.

O exemplo pode ser observado, respectivamente, na foto digital convencional e na infravermelha (acima).

Observe que na foto infravermelha os pontos Sp2 e Sp3 apresentam temperaturas de cerca de 29°C, a temperatura ambiental no dia era de 30°C, ou seja, a silagem estava estável. A temperatura no ponto Sp1 era a temperatura da silagem exposta à incidência solar direta. Dessa maneira, foi solicitado se escarificar as faixas onde se encontram os pontos Sp2 e Sp3, o que pode ser observado na foto digital, para demonstrar a temperatura real da massa inoculada com Lactobacillus buchneri, que se demonstrou bem estável com temperatura, até mesmo, inferior à ambiental.

A interpretação destes dados depende de muitos aspectos já relacionados acima no que se refere ao CSI e devem ser analisados em conjunto.

Novas técnicas e avaliações estão aparecendo e serão de grande valia ao produtor rural. São tecnologias que poderão ajudar o pecuarista na identificação dos gargalos do processo de produção de silagem. Deverá ser objetivo do técnico e do pecuarista encontrá-los e tomar as ações necessárias para prover maior rentabilidade na produção animal.

*Lucas Mari é médico-veterinário, doutor em Ciência Animal e Pastagens e gerente de Probióticos da Lallemand Animal Nutrition [email protected]