Caprinovinocultura

 

Alternativas contra a verminose

Tratamentos seletivos diminuem resistência de parasitas por uso indiscriminado de medicamentos

Denise Saueressig
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O problema sanitário que mais afeta os rebanhos de ovinos e caprinos merece uma atenção especial por parte dos criadores. As doenças causadas pelos parasitas provocam perdas econômicas significativas e, dependendo do grau de contaminação dos animais, altos índices de mortalidade.

Mas, além do desafio de combater a ocorrência das verminoses, os produtores vêm enfrentando o agravante da resistência dos parasitas aos anti-helmínticos disponíveis no mercado. "O problema ocorre em função do uso indiscriminado e pouco técnico destes princípios ativos", conclui o veterinário Alessandro Minho, pesquisador da Área de Sanidade Animal da Embrapa Pecuária Sul.

A cultura do emprego frequente de produtos antiparasitários é antiga no Brasil e precisa ser alterada para o uso mais racional e sustentável, defende o também veterinário Marcelo Molento, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Existem dados que indicam o uso desses medicamentos até 10 ou 20 vezes em um ano. Em casos extremos, mas não incomuns, alguns criadores utilizam anti-helmínticos nos animais a cada três semanas", cita.

Os veterinários recomendam que os produtores dediquem atenção a medidas que representam alternativas à vermifugação generalizada do rebanho. Tudo começa com um programa de controle que deve contar com a ajuda de um especialista. A contagem de ovos por grama de fezes (OPG) é fundamental para monitorar o problema e verificar se o medicamento utilizado continua eficaz. "O tratamento seletivo e com critérios técnicos visa os animais que realmente necessitam desse manejo, com ênfase em exemplares jovens e fêmeas gestantes", indicam os pesquisadores.

IDENTIFICAÇÃO DA ANEMIA

Entre os principais nematoides gastrintestinais de ruminantes, um dos mais agressivos é o Haemonchus contortus, parasita hematófago que pode ocasionar perdas que ultrapassam os 200 ml de sangue por dia em um animal. "Isso significa que uma infecção grave pode acarretar redução no ganho de peso, anemia, diminuição da fertilidade e até levar à morte de animais jovens. A mortalidade de cordeiros depende do tipo de manejo sanitário do rebanho e do grau de estabelecimento de resistência parasitária na propriedade, podendo variar entre 10% e 60%", detalha Minho.

O método Famacha, que foi desenvolvido especificamente para o controle de infecções por H. contortus, avalia a coloração da conjuntiva ocular do ovino, utilizando como base de comparação o guia ilustrativo do cartão Famacha. De acordo com a cor verificada, é possível avaliar o grau (de 1 a 5) de anemia do animal.

Método Famacha avalia o grau de anemia por meio da observação da conjuntiva ocular dos ovinos

Realizar o exame é simples, mas requer um treinamento básico para segurar o animal, abrir corretamente o olho e classificar o grau de anemia. "Como sabemos, existem outras causas de anemia em pequenos ruminantes que devem ser averiguadas quando houver suspeita clínica. Por isso, o avaliador deve receber um treinamento técnico para conhecer a correta utilização do método e incorporar o compromisso de avaliar todos os animais do rebanho. O tempo adequado para adaptação com o novo sistema e sua implantação são requisitos indispensáveis para o sucesso da técnica", observa Minho.

Em sistemas extensivos, o ideal é que os testes sejam realizados periodicamente no período chuvoso, momento em que as pastagens estão mais contaminadas. Na época seca, o exame pode ser feito uma vez por mês.

A implantação do Famacha é relativamente barata e seu custo de manutenção é agregado ao tempo gasto pelo funcionário ou produtor. "Pensamos que, com o exame periódico dos animais, outros problemas sanitários e nutricionais, ou mesmo a resistência aos vermífugos, podem ser identificados precocemente no rebanho", acrescenta o professor Marcelo Molento.

LANTAS E HOMEOPATIA

A resistência aos antiparasitários químicos ampliou as linhas de pesquisa baseadas em alternativas ao tratamento das verminoses. No Nordeste, um trabalho realizado por pesquisadores da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) e da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal da Bahia demonstrou a eficácia de extratos vegetais extraídos de plantas da caatinga e de medicamentos homeopáticos no controle de endoparasitas de caprinos e ovinos.

Pesquisador Alessandro Minho: manejo com critérios técnicos visa os animais que realmente precisam da medicação

Uma das espécies estudadas foi a Caesapinia pyramidallis, popularmente conhecida como catingueira. "A planta foi efetiva no controle da verminose, com redução da carga parasitária superior a anti-helmínticos tradicionais, bem como uma maior ação imunomoduladora, com produção de anticorpos específicos contra o parasitismo. Os estudos experimentais de eficácia e segurança já foram concluídos, e a próxima etapa é a patente do produto para a fabricação em escala por laboratório comercial", explica o veterinário Farouk Zacharias, pesquisador da EBDA.

Os trabalhos científicos com homeopatia também apresentaram bons resultados para combate do H. contortus em animais no estado da Bahia. Os estudos seguem em andamento, com um grande número de pesquisadores envolvidos e muitos produtores fazendo uso dos medicamentos alternativos, o que tem permitido um melhor ajuste das medicações. "No caso dos produtos fitoterápicos, estamos trabalhando com outras opções de plantas e estabelecendo as doses terapêuticas adequadas", relata Zacharias.