Leite

 

Pastejo ROTATIVO

Técnica permite controlar alturas do capim antes e depois do pastejo

Domingos Sávio Campos Paciullo, Carlos Augusto de Miranda Gomide e Carlos Renato Tavares de Castro*

Apesar das dimensões continentais brasileiras, é cada vez maior a pressão ambiental sobre a abertura de novas fronteiras agrícolas. Aliada a este fato, a atual expansão da cultura da cana-de-açúcar e da silvicultura, promovida pelo crescimento do programa de agroenergia, tem representado também um impacto sobre as áreas de pastagem no Brasil, seja pela competição direta entre as atividades, seja pela valorização fundiária que aumenta o custo de oportunidade do uso da terra.

Por um lado, especialistas têm apontado que esta substituição de área de pastagens para as culturas da cana, da soja, do milho, entre outras, pode ser compensada por um aumento na produtividade dos sistemas pecuários para que se mantenham as atuais produções de leite e carne. Outro aspecto importante a ser considerado é que, na pecuária, os sistemas produtivos intensivos têm mostrado maior rentabilidade em relação àqueles mais extensivos, desde que conduzidos de forma eficiente.

Neste contexto, o pastejo rotativo é, sem dúvida, uma opção viável para grande número de propriedades brasileiras, sobretudo as produtoras de leite. O manejo intensivo de pastagens tropicais preconiza o uso, sob pastejo rotativo, de gramíneas de alto potencial produtivo na época chuvosa. É importante considerar, também, que em sistemas de produção baseados no uso de pastagens é frequentemente necessário o fornecimento de suplementos volumosos, tais como silagens, fenos e cana-de-açúcar, durante a época seca do ano, o que representa uma demanda de área para tais cultivos.

PASTEJO ROTATIVO

Uma das vantagens do pastejo rotativo é que, pela intensificação na produção forrageira por área, torna-se possível aumentar a taxa de lotação da fazenda e/ ou liberar áreas para cultivos alternativos e, assim, incrementar a produção de forragem para a época seca, reduzindo a dependência de insumos externos à propriedade. Entretanto, vale salientar que a simples adoção de um ou outro método de pastejo, contínuo ou rotativo, não garante incremento na produção de forragem. O crescimento das plantas responde a fatores como água, nutrientes, luz e temperatura. O manejo também é um fator que interfere no crescimento do pasto e embora tecnicamente não haja diferença entre os métodos (rotativo X contínuo), no pastejo rotativo se tem, na prática, maior controle das alturas do pasto antes e depois do pastejo. Este controle é fundamental para aumentar a eficiência de colheita da forragem, sobretudo em gramíneas tropicais. O efeito negativo do alongamento do colmo sobre a eficiência de pastejo é maior em gramíneas de crescimento ereto, as chamadas gramíneas cespitosas (capim-elefante, colonião, Tanzânia, Mombaça, Marandu), do que naquelas de porte baixo.

Trabalhos têm mostrado que a presença excessiva de colmos, além de prejudicar o uso eficiente do pasto, compromete, também, a rebrota seguinte ao pastejo. Desde que se tenham condições favoráveis para o crescimento das plantas (chuvas, temperaturas, nutrientes, etc.), resíduos mais baixos associados a períodos de descanso adequados têm proporcionado rebrotas mais vigorosas e melhor estrutura da vegetação, caracterizada por alta relação folha-colmo e baixa participação de folhas mortas.

CARACTERÍSTICAS DO ROTATIVO

O pastejo rotativo se caracteriza por alternar períodos de uso (ocupação ou pastejo) e de descanso (recuperação ou rebrota). Uma das características do pastejo rotativo é que, por permitir melhor controle da intensidade de desfolha e do período de rebrota da planta, favorece a uniformidade do pastejo e melhora a eficiência de uso da forragem. Estas vantagens ocorrem sob maiores taxas de lotação em resposta ao aumento da produção de forragem, conseguido por maior eficiência no uso de insumos (adubos).

O controle exercido sobre as condições do pasto é que torna o pastejo rotativo o método indicado para pastagens consorciadas de gramíneas e leguminosas e pastos de gramíneas cespitosas, pois estas espécies, por seu hábito de crescimento, são mais susceptíveis à competição de outras plantas e, após longos períodos de descanso, têm sua estrutura comprometida pelo crescimento do colmo e pelo acúmulo de forragem morta. Entretanto, o uso do pastejo rotativo não é exclusivo para gramíneas cespitosas, pois espécies de crescimento prostrado também são utilizadas neste método com ótimos resultados, como é o caso das gramíneas dos gêneros Cynodon (coast-cross, Tifton 85 e estrela) e Brachiaria (Marandu e Xaraés).

Segundo Domingos Sávio, o pastejo rotativo favorece a uniformidade do pastejo

Durante a ocupação do piquete e dependendo da intensidade do pastejo, caracterizada pelo tempo de ocupação e pela taxa de lotação (número de animais/hectare), o pasto passa por uma rápida alteração da altura, da quantidade de forragem e estrutura. Após a retirada dos animais do piquete, é dado ao pasto um período para recuperação, teoricamente retornando à condição original (pré-pastejo). Esta recuperação depende de uma série de fatores já descritos. Além disso, fatores relacionados à forma e à fisiologia da planta, como o resíduo deixado após o pastejo, principalmente de folhas verdes, e o número de perfilhos prontos para se desenvolverem vão garantir boa e rápida recuperação do pasto.

Duas questões principais do pastejo rotativo são as definições dos períodos de descanso e de ocupação dos piquetes. Em outras palavras, quando entrar com os animais no piquete e quando retirá-los. A definição destes prazos, além de influenciar as características do pasto, condiciona o número de piquetes a serem utilizados.

Vale ressaltar que longos períodos de ocupação (acima de sete dias) podem resultar em pastejos desuniformes. Isto porque os animais preferem colher as folhas mais novas. Como no verão as gramíneas tropicais apresentam alta taxa de crescimento, uma planta pastejada pode, após quatro ou cinco dias, apresentar novas folhas que terão a preferência dos animais, que tenderão a repetir o pastejo nestas áreas. Este processo leva ao esgotamento das plantas e pode gerar áreas superpastejadas, enquanto parte do piquete não é utilizado, tornando-se envelhecido, com acúmulo de hastes e folhas mortas. Além disso, os animais tendem a se concentrar numa mesma área para descanso durante o período de ocupação, o que prejudica a recuperação desta área. Assim, deve-se buscar uma combinação entre períodos de descanso e de ocupação, a fim de se conciliar a uniformidade do pastejo e números de piquetes necessários. De um modo geral, períodos de ocupação entre três e sete dias parecem permitir um bom ajuste, sem prejuízo para a uniformidade do pastejo.

Considerando, por exemplo, o período de ocupação de três dias e o período de descanso de 36 dias, teremos, para o pastejo de um lote de animais, a necessidade de 13 piquetes. No entanto, se conseguirmos, com prática de adubação e/ou irrigação, reduzir o período de descanso para 24 dias, o número de piquetes pode Leite Leite Sombra gera benefícios para o gadoreduzir para nove. Se imaginarmos piquetes de um hectare, é possível liberar, apenas com o manejo, quatro hectares da propriedade para outros usos, inclusive o cultivo de milho ou sorgo para silagem ou mesmo de cana-de-açúcar para uso na época seca do ano, e/ou aumentar o tamanho do rebanho.

O pastejo rotativo torna possível aumentar a lotação da fazenda

A área de cada piquete irá depender do tamanho do rebanho a ser manejado, sua exigência nutricional (idade, peso, nível de produção, etc.) que irá refletir a demanda diária de forragem, do crescimento do pasto que determinará, junto com a demanda diária, a área de pasto por animal e do tempo de ocupação do piquete.

tempo de ocupação do piquete. A área estimada por animal pode ser reduzida em função do uso de insumos que favoreçam a produção de forragem (adubação, irrigação), da redução da demanda de nutrientes do pasto (uso suplementação volumosa e/ou concentrada).

Num rebanho leiteiro, devido à necessidade diária de ordenha dos animais, a troca frequente de piquetes, à medida que se reduz o período de ocupação, não é problema, sendo mais interessante exercer um melhor controle sobre a uniformidade do pastejo.

A redução do período de descanso é uma alternativa interessante para diminuir o número de piquetes necessários no sistema e, ao mesmo tempo, garantir um pasto com boas características para o pastejo. É importante, contudo, considerar que esta redução é possível desde que atendidas as necessidades da planta para rápida rebrotação. Neste sentido, é importante se preocupar com a fertilidade do solo. A correção do pH e o fornecimento de cálcio e magnésio, por meio da calagem, devem ser considerados na implantação da pastagem. Como o manejo rotativo preconiza espécies mais produtivas e, também, mais exigentes em fertilidade, a recomendação tem sido de se elevar a saturação de bases do solo (V%) para valores entre 60% e 70%. Também a aplicação de fonte de fósforo no plantio deve ser observada, a fim de se elevar os teores deste nutriente no solo que de um modo geral são baixos e limitam uma produção mais intensiva. A adubação do pasto durante a época chuvosa é a forma de se repor os nutrientes extraídos pela produção de forragem e acelerar a recuperação da planta. Esta adubação deve ser feita de forma parcelada ao longo da estação chuvosa, após a saída dos animais do piquete. As quantidades de fósforo e potássio a serem aplicadas devem ser baseadas em resultados da análise anual ou bianual do solo e, assim como o nitrogênio, também variam em função do nível de produção desejado.

*Domingos Sávio, Carlos Augusto e Carlos Renato são pesquisadores da Embrapa Gado de Leite