Sobrevoando

 

Ecologia

Toninho Carancho
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Estes dias recebi um e-mail com o título "Manifesto Serrano". Trata-se basicamente de um grito de socorro de vários criadores de gado da região serrana do Rio Grande do Sul.

Eles se manifestam totalmente contrários à lei que proíbe o uso de fogo em determinada época do ano para a limpeza do campo.

Dei uma sobrevoada sobre esta região, que conheço bastante, e faço algumas considerações.

Esta região dos Campos de Cima da Serra, que se estende pelo Rio Grande do Sul e por Santa Catarina, até o final da década de 1970 explorava a floresta nativa existente, basicamente a araucária (pinheiro), e a criação de gado de forma extensiva, com o uso do fogo nos meses de julho e agosto.

No início da década de 1980, o corte de araucárias foi proibido, pegando muitos produtores de surpresa. Do dia para a noite, milhares de pessoas perderam mais da metade de seu sustento. Muitas destas pessoas viviam exclusivamente do corte da árvore. Imagine você, de um dia para o outro perder a metade ou mais dos seus vencimentos...

Claro que isso foi feito em nome da ecologia.

Depois de um tempo, a prática de colocar fogo nas pastagens foi sendo cada vez mais controlada e, por fim, proibida. E aqui cabe uma rápida explicação. Nesta zona de campo, a queima feita em julho e agosto (meses de inverno no Sul, com grande umidade no solo), queima somente a sobra de pasto do verão. Este fogo passa rapidamente, queimando a palha seca, não afetando o solo (prática mais que centenária nesta região) e deixando os campos lindos e com uma brotação excepcional. Nesta região, a roçada é impraticável em boa parte dos campos por ser muito "dobrado" e com aflorações de pedra.

Mas, é claro, em nome da ecologia esta prática é totalmente inaceitável.

Pois bem, em nome da ecologia e da preservação, hoje os ontem belíssimos Campos de Cima da Serra se transformaram em matos de pinus (árvore não nativa do Brasil), lavouras de batata, lavouras de milho e muitos campos sujos.

Lembro, novamente, que esta área de campo tem uma topografia "dobrada", morros, declives acentuados, coxilhas e pedras aparentes. Ou seja, uma terra muito sujeita à erosão.

O criador de gado de tempos atrás, que preservava o mato nativo, cortando o que era necessário à sobrevivência e ao bem-estar, criando gado de maneira realmente ecológica, sem lavrar o campo, sem fazer erosão, foi empurrado pelos "ecologistas" de plantão a plantar árvores exóticas, lavrar o campo que não deveria ser lavrado e não poder utilizar de forma sustentável o restante do campo por ficar sujo demais. Ou fazia isso ou morria de fome.

Além disso, com matos de pinus e não podendo queimar o campo anualmente, o perigo de incêndios aumentou muito. Agora sim o perigo de acontecer um fogo realmente destruidor é iminente. Com a palha dos campos alta e densa e com os matos de pinus ao redor, muita flora e fauna, gado, cercas, casas, galpões e vidas humanas estão em perigo.

Tudo em nome da ecologia.

Não sou contra o plantio de árvores exóticas, nem contra o plantio de milho, batata ou o que for, mas, tudo tem o seu lugar e forma de fazer. E nos Campos de Cima da Serra foi feito de forma errada. Não se pode queimar o campo, mas pode arar. É inacreditável!

Em outras áreas do Brasil, infelizmente, ocorre a mesma coisa.

É triste, todavia, é a realidade brasileira. Os produtores e criadores nunca são ouvidos quando se tratam de assuntos pertinentes a eles mesmos. Eles não devem saber nada mesmo...