Raça do Mês

 

GUZERÁ

reforça produção de leite aliada à de carne

Luiz H. Pitombo

Após alguns testes em exposições regionais, a raça Guzerá promoveu em maio, na Expozebu 2013, em Uberaba/MG, o primeiro julgamento com pista exclusiva para animais selecionados com ênfase na produção leiteira. Estes somaram 127 produtos inscritos por 15 expositores, que contribuíram para que o total da raça atingisse 332 animais.

O zebuíno de dupla aptidão manteve seu crescimento de participação no evento, com volume 17% maior de animais e 11% a mais em número de expositores, contando também com selecionadores do Paraná e da Bahia, que não haviam comparecido em 2012 e que se somaram aos criatórios de outros cinco estados (SP, RJ, MG, MS e GO), além do Distrito Federal.

No torneiro leiteiro foram quebrados dois recordes da raça, com as grandes campeãs Vaca Adulta Aurora WM, que rendeu a média de 45,5 kg de leite/dia, e a Vaca Jovem Guabiroba Fiv, com média de 33,74 kg/dia. Nos sólidos, a vaca Guzerá campeã em gordura rendeu a média mais elevada de todas as raças presentes, 7,14%, enquanto que a campeã de proteína chegou a 4,01%. Este conjunto de números atesta o potencial da raça no leite.

A possibilidade do julgamento em pista separada era uma demanda antiga de criadores que trabalham mais as características leiteiras do Guzerá e que foi instituída para que possam mostrar a evolução destes animais. "Não vamos nos dividir, pois o Guzerá continua sob um mesmo comando", enfatiza Antônio Pitangui de Salvo, presidente da Associação dos Criadores de Guzerá do Brasil (ACGB). Ele acrescenta que a raça irá ganhar maior visibilidade e um aumento na presença de animais nas exposições. Também foi instituído um ranking para o segmento leiteiro.

Salvo destaca o bom momento da Guzerá, "que mudou e se mostra uma raça alinhada com a pecuária moderna, com funcionalidade, eficiência na produção de leite, carne e beleza dos animais", afirma. Neste cenário, salienta o importante papel que ela desempenha nos cruzamentos com outros zebuínos e taurinos, o que no passado quase a levou ao desaparecimento. A heterose é beneficiada pela pureza da raça, que é criada na Índia há milênios e que chegou ao Brasil no fim do século XIX. Além disso, Salvo aponta a grande rusticidade, que permite ao Guzerá viver em condições adversas e a converter forragens grosseiras em carne e leite de maneira lucrativa ao pecuarista.

Na cruza com o Holandês, que resulta no Guzolando, aponta que os animais ganham adaptação ao clima quente, aumentam o teor de gordura do leite, dentre outros. São animais, como lembra, que entram em reprodução aos 24-28 meses, produzem 4 mil kg de leite em 305 dias a pasto com algum concentrado, emprenham de 45 a 60 dias pós-parto e resultam em matrizes longevas, chegando até 10 crias. Existe na ACGB uma diretoria específica responsável por este cruzamento.

Segundo Ariane Menicucci, cresce o interesse pela aptidão leiteira do Guzerá

O dirigente conta que na fazenda que possui em sociedade na Bahia, enquanto os machos Nelore desmamam aos 7-8 meses de idade com 6,4 arrobas (rendimento estimado de 50% de carcaça), na cruza com o Guzerá este peso sobe para 7,1 arrobas. Também conta dos benefícios para se fazer o tricross, quando fêmeas F1 Nelore x Angus, Hereford, Simental ou Limousin desmamam crias com média de 8,7 arrobas.

Os reprodutores Guzerá, como destaca o dirigente, trabalham bem a campo no repasse de vacas, mas também existe a possibilidade da inseminação artificial. Como seus imponentes chifres dificultam o manejo, Salvo diz que os criadores são estimulados a descornar os machos, como tem sido feito.

HORIZONTE DE EXPANSÃO

A raça Guzerá possui atualmente dez associações ou núcleos regionais distribuídos pelo País. O criatório tem forte presença em Minas Gerais, mas apresenta crescimento nas regiões Centro-Oeste e Norte, como em Rondônia e no Acre. Neste último estado, para realização de cruzamentos com Nelore ou o tricross.

No ano passado, foram registrados na Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) um total de 31.270 produtos da raça, com crescimento de 12% sobre o ano anterior. Estes registros foram solicitados por cerca de 900 criadores diferentes e, como a ACGB está com 168 sócios, Salvo avalia que há uma margem grande para crescer e que é preciso trazer estes pecuaristas para a entidade.

Para ampliar o número de criatórios pelo País, diz que a associação atua com mais afinco em sua área de marketing, por exemplo, participando de mais exposições e procurando formas para aprimorar o boletim mensal da raça produzido pela associação. Salvo acrescenta que se verifica a possibilidade de se passar a realizar duas publicações anuais da revista da ACGB, que atualmente tem periodicidade anual.

atualmente tem periodicidade anual. De acordo com dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), foram comercializadas, no ano passado, 46.997 doses de sêmen de Guzerá Leiteiro, com crescimento de 8,2% sobre as vendas do ano anterior. Com o Guzerá, este volume atingiu a 136.915 doses, mostrando recuo de 19%. Segundo Salvo, a menor venda deste grupo não reflete a realidade, pois diz que existem muitos criadores da raça que remetem os animais para coleta e eles próprios se encarregam da venda, o que não funciona, como admite, uma vez que não possuem a capilaridade de uma equipe de vendas. O dirigente considera que é preciso melhorar a interface criadores/centrais, pois, dentre outros, estas podem ser parceiras na difusão do Guzerá e, neste sentido, realiza contatos com essas empresas.

Os programas de melhoramento genético desempenham um papel fundamental para se avançar com os índices da raça, corrigir tetos e buscar animais de temperamento cada vez melhor, como já tem sido constatado por técnicos que atuam no setor. Mas, Salvo diz que, além dos números fornecidos pelos computadores nas avaliações, se procura pinçar dentre os produtos mais evoluídos os de maior beleza. "É funcionalidade e paixão", reconhece.

Antônio de Salvo comenta que integra o grupo de criadores que esteve na Índia para buscar embriões nas destacadas regiões onde se cria a raça. Os animais já estão nascendo e ele se mostra confiante com a nova genética que chega e com a possibilidade de "refrescamento de sangue" que esses produtos trazem.

FORÇA DA SELEÇÃO

Como braço técnico da associação, foi criado em 1992, por iniciativa do então presidente da entidade Bernhard Winkler, o Centro Brasileiro de Melhoramento Genético do Guzerá (CBMG), que atua em parceria com os diferentes programas e centros de pesquisa que atuam com a raça (Embrapa Gado de Leite, ABCZ/PMGZ Corte e Leite, ANCP, UFMG e Núcleo Moet).

Não vamos nos dividir, pois o Guzerá continua sob um mesmo comando, enfatiza Antônio Pitangui

Atualmente, o CBMG é presidido por Ariane M. Figueiredo Menicucci, também selecionadora do zebuíno, que aprova o julgamento em pistas distintas. "Existe um espaço para a raça que o Guzerá Leiteiro poderá ocupar, aumentando visibilidade, e o julgamento em separado era uma necessidade", como diz. Ela aponta que assim será possível se avaliar melhor as particularidades de cada grupo, por exemplo, das novilhas de corte e de leite aos 24 meses, como diz que pode constatar na Expozebu deste ano.

Ariane reafirma a dupla aptidão da raça, comentando que, mesmo nos indivíduos leiteiros, não se deseja que acabem com a capacidade de ganho de peso e musculosidade. "Não se procura um animal descarnado", aponta. Ariane comenta que na seleção se busca aprimorar aspectos como volume de leite, qualidade de tetos e úbere, persistência da lactação, temperamento, fertilidade, reprodução e precocidade.

Citando dados do Programa Nacional de Melhoramento do Guzerá para Leite (PNMGuL), indica que participaram do Sumário de 2013, com dados do ano anterior, 79 rebanhos colaboradores, sendo 55 puros e 24 mestiços. As avaliações acumulam dados de 8.633 lactações e o teste de 527 touros, sendo que a identificação de marcadores moleculares para algumas características já existe para esses animais, como para a capa-caseína. No ano de 2000, quando saiu o primeiro sumário, eram apenas 18 rebanhos integrantes e 24 touros em teste.

O incremento na média de produção de leite foi de 50 kg/ano, tomando por referência o período a partir de 2003, com o volume médio do ano passado ficando em 2.130 kg/vaca/lactação. A redução na idade ao primeiro parto obtida foi a de 13 dias/ano desde o início do programa em 1994, sendo que atualmente ela está em 43 meses (±3,5 anos) e o intervalo entre partos é de 18 meses.

Na linhagem de corte, as metas visam aprimorar basicamente aspectos relacionados a reprodução, precocidade, desenvolvimento ponderal, dentre outros, e, ao longo dos anos, têm igualmente apresentado avanços expressivos em diferentes características de impacto. Tomando por referência dados do Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ Corte/ABCZ), a DEP média dos reprodutores de 2.000 para ganho de peso médio diário, que era de 9,4162 g/dia e elevou-se no ano passado para 20,0802g/dia. Já a idade ao primeiro parto (IPP) com DEP média de menos 8,37 dias, atingiu menos 29,05/dias, considerando o mesmo período. No caso do Sumário de Corte deste ano do PMGZ, constam dados referentes a 4.460 touros da raça, 26.946 matrizes e 65.028 produtos jovens.

Numa avaliação sobre a situação atual da raça, Ariane Menicucci diz que é de "clara expansão, com o mercado demonstrando outra visão e concepção da raça, que é altamente rentável". Ela conta, por exemplo, que cresce o interesse em sua produção de leite, apontando que atualmente comercializa animais ao Sul de Minas Gerais, na própria região da fazenda, onde predominam as raças Girolando, Gir e a Holandesa, enquanto antes seu mercado ficava ao Norte do estado.