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Defesa é o melhor ATAQUE

Notar a presença das clostridioses é sinal de que o prejuízo já chegou

Romualdo Venâncio

Segundo estatísticas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), em 2008 foram registrados 669 casos de carbúnculo sintomático e 195 de botulismo. No ano passado, as notificações saltaram para 14.225 e 15.009, respectivamente. Levando-se em conta que essas são duas das clostridioses mais prejudiciais à pecuária brasileira, assusta. Mensagem relevante por trás das estatísticas é que há falhas no sistema preventivo das fazendas.

As clostridioses são infecções e intoxicações causadas por bactérias anaeróbicas do gênero Clostridium e representam um risco gigantesco à pecuária, por dois fatores primordiais: além de serem letais (matam os animais a partir da liberação de toxinas), seus causadores estão espalhados por todas as propriedades com criação de bovinos. A contaminação pode ocorrer pelo simples pastejo, e aí as bactérias ficam alojadas no aparelho digestivo dos bovinos. "São doenças de solo, portanto, estão em todo lugar. Onde a criação é feita a pasto, tem de vacinar", alerta o médico-veterinário e fiscal federal agropecuário João Crisostomo Mauad Cavallero. "E a contaminação é exponencial. Se houver um animal morto por botulismo, por exemplo, no meio da pastagem, rapidamente o problema se espalha", acrescenta.

Francisco Lobato informa que houve grandes avanços em relação à qualidade e à eficiência das vacinas

Especialistas afirmam que as clostridioses podem causar mortalidade de até 15% em rebanhos não vacinados. O prejuízo vai além do valor por cabeça, pois implica reposição do gado, intensificação do manejo sanitário, mais cuidados com a pastagem, revisão da dieta do criatório (sobretudo da mineralização), ou seja, são gerados mais custos e novas demandas para a equipe da fazenda. Portanto, seja qual for a situação, a prevenção será sempre a melhor providência.

IDENTIFICAÇÃO

Quando se fala em clostridioses, é grande a lista de enfermidades. Há as neurotrópicas (botulismo e tétano), que atacam o sistema nervoso dos animais; as hepáticas (hemoglobinúria bacilar e hepatite necrótica), cujo alvo principal é o fígado; as enterotoxemias, que afetam os sistemas digestivo, respiratório, circulatório, renal e nervoso central; e as mionecroses (carbúnculo sintomático, também chamado de "manqueira" ou "mal de ano", e gangrena gasosa ou "edema maligno"), que acometem principalmente musculatura e tecido subcutâneo.

Embora existam características semelhantes em meio a essa variedade de doenças, muitas são as particularidades quanto à epidemiologia, sintomas clínicos, diagnóstico, patologia e controle. Até porque cada grupo ataca uma região diferente no organismo. Quanto mais se souber sobre o problema existente na região, melhor tende a ser o processo de prevenção. E como obter informações precisas se as clostridioses podem até ser confundidas com outras doenças? Dois fatores são essenciais: histórico e assistência técnica.

A atuação dos clostrídios também pode ocorrer de forma regionalizada, com maior incidência de um tipo específico nesta ou naquela área. A consulta a criadores vizinhos, veterinários e outros profissionais ligados à saúde animal, como técnicos das entidades de produtores locais, certamente ajudará a descobrir quais foram as enfermidades já encontradas por ali. No entanto, quando houver ocorrência de morte de animais na fazenda com suspeita de clostridioses, os exames laboratoriais são essenciais.

João Cavallero chama a atenção para a importância do conhecimento técnico no momento de se fazer a coleta do material a ser enviado para o diagnóstico. "Em muitos casos, o pessoal de campo faz uma avaliação muito superficial das lesões de um animal morto e já descreve como suspeita de clostridiose. Ou então faz uma coleta insuficiente de material. Isso dificulta a análise laboratorial e, consequentemente, a indicação mais apropriada da prevenção, o que pode resultar em falha vacinal", comenta o veterinário.

QUALIDADE NA VACINAÇÃO

Toda vez que se fala em manejo sanitário, vale comentar a relação direta entre sanidade e nutrição. Da mesma maneira que não adianta o pecuarista investir na melhor dieta se o rebanho não estiver saudável, é improvável – para não dizer impossível – garantir que o gado se mantenha sadio sem que seja bem alimentado. Diversos casos de contaminação por clostridioses ocorrem exatamente porque animais com deficiência de fósforo na dieta tentaram supri-la a partir de ossos de outros bovinos.

Estratégia é outra palavra que sempre deve acompanhar os cuidados com a saúde do criatório, tanto no tratamento quanto – e principalmente – na prevenção. A vacina é peça fundamental para uma ação estratégica na proteção do rebanho contra clostridioses, mas é imprescindível lembrar que, para alcançar os resultados esperados, as orientações do fabricante têm de ser seguidas à risca.

Atualmente, a indústria de produtos veterinários oferece uma diversa gama de vacinas, inclusive opções polivalentes, que imunizam o gado contra vários antígenos. Esse tipo de vacina oferece proteção mais ampla, o que é favorável para situações nas quais não se sabe exatamente que clostridiose combater. Além disso, o manejo sanitário fica mais prático. Por outro lado, Cavallero acredita que em certos casos sobra proteção, pois a vacina protege o rebanho até de doenças que não existem naquela região.

Para o veterinário do MAPA, ponto crucial no que diz respeito à prevenção é o controle de qualidade das vacinas. "Nem todas são fiscalizadas no processo de produção, como as destinadas ao botulismo, que, por ser uma doença de sintomatologia nervosa, se enquadra no Programa Nacional de Controle da Raiva dos Herbívoros (PNCRH)", afirma Cavallero, que defende a institucionalização de um programa semelhante para as clostridioses. Segundo ele, o estímulo para a criação de um projeto nesse sentido viria por pressão do mercado global ou dos próprios pecuaristas. "Produtor que está perdendo gado por conta das clostridioses pode exigir providências do governo."

avanços em relação à qualidade e à eficiência das vacinas. Quem confirma é uma das autoridades no assunto, o professor da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Francisco Carlos Faria Lobato. "Quando realizamos análises das vacinas no começo dos anos 2000, a qualidade era inferior, o que motivou o MAPA a intensificar o controle. O número de laboratórios até diminuiu por conta do maior rigor."

Lobato iniciou esse trabalho em 1986, quando ainda era mestrando, a partir do controle de vacinas clostridiais. A primeira avaliação, feita com uma vacina contra toxoides botulínicos, foi concluída em 1989, período em que o Brasil registrou um surto de botulismo. "Na década de 1990, chegaram a morrer mais de 1 milhão de fêmeas por causa da doença. A situação melhorou a partir do controle oficial da qualidade das vacinas pelo MAPA", recorda Lobato.

DIFUSÃO DE CONHECIMENTO

O Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Federal de Minas Gerais se tornou um difusor de conhecimento sobre prevenção às clostridioses. Sobretudo por conta do grupo de estudos coordenado pelo médico-veterinário e professor Francisco Carlos Faria Lobato. Os trabalhos iniciados em 1986 vêm sendo atualizados com o passar dos anos, criando assim uma linha de pesquisas de grande importância para toda a cadeia produtiva da pecuária.

Além das análises de produtos já existentes e diagnósticos, também há dedicação ao desenvolvimento de novas vacinas. "Buscamos parcerias com outras universidades para aprimorar a prestação de serviços", comenta o professor, que também divide seu tempo com a realização de palestras para produtores e outros veterinários.


CLOSTRIDIOSES COM MAIOR IMPACTO SOBRE A PECUÁRIA

BOTULISMO

É causado por toxinas produzidas pelo Clostridium botulinium (principalmente C1 e D) e se apresenta como epizoótico e esporádico.

A primeira forma ocorre pela deficiência de fósforo, com os animais tentando ingerir ossos ou cadáveres de outros bovinos. Intensificar a produção a pasto sem o devido cuidado com a nutrição do solo e das plantas e tentar amenizar custos com a redução (ou até a restrição) da suplementação mineral do rebanho potencializam o problema.

O botulismo esporádico pode ser causado pelo uso de cama de frango na alimentação do gado, o que é proibido por lei, ou por ingestão da toxina botulínica produzida em poças de água estagnada.

Sinais clínicos: paresia e paralisia flácida dos músculos esqueléticos; dificuldade de locomoção por incoordenação motora dos membros posteriores; dificuldade respiratória; paralisia da língua.

Controle: correção da deficiência de fósforo; eliminação das fontes de contaminação (remoção e incineração de carcaças nas pastagens); vacinação com toxoides botulínicos dos tipos C e D no período das secas e reforço depois de 42 dias.

HEMOGLOBINÚRIA BACILAR

Essa infecção é mais comum em regiões úmidas e seu causador é o Clostridium haemolyticum. De forma geral, acomete mais os animais com idade superior a dois anos.

Sinais clínicos: depressão, anorexia, anemia, diarreia sanguinolenta, hemoglobinúria e colapso. Sem tratamento, o animal morre dentro de um a três dias após surgirem os sintomas.

Tratamento: com o uso imediato de penicilina ou tetraciclina em altas doses e soro antitóxico (500 a 1.000 ml). A doença pode desaparecer em 12 horas.

Controle: vacinações sistemáticas de todos os animais. As vacinas devem ser aplicadas por via subcutânea, de preferência em duas doses com intervalo de quatro a seis semanas na primovacinação e reforço semestral. Realizar banhos antiparasitários periódicos em áreas endêmicas e incinerar cadáveres.

ENTEROTOXEMIAS

Mais comuns em ovinos e caprinos, os causadores são os Clostridium perfringens dos tipos A, B, C, D e E, além do Clostrdium sordelli e do Clostridium septicum. Instalados no trato intestinal dos bovinos, multiplicam as exotoxinas. Também conhecida por "doença da superalimentação" ou do "rim polposo", a enterotoxina é causada pelo agente C. perfringens tipo D e está presente em pequenas quantidades no intestino dos animais sadios. Esse clostrídio produz toxinas que são eliminadas normalmente. Alterações bruscas na alimentação, em geral de dietas ricas em carboidratos e proteínas e pastagens luxuriantes, provocam aumento exagerado na produção dessas substâncias, podendo atingir a circulação geral de sangue e alcançar órgãos como cérebro, rins, pulmões, fígado e coração.

CARBÚNCULO SINTOMÁTICO

Doença infecciosa causada pela bactéria Clostridium chauvoei, que costuma se alojar nas grandes massas musculares, como do posterior dos animais, causando inflamação. Por isso, também recebeu o nome de "manqueira". Os bovinos mais atingidos pela enfermidade têm idade entre seis meses e dois anos de idade, com taxa de letalidade muito próxima de 100%.

Sinais clínicos: claudicação acentuada (com inchaço da parte superior do membro atingido), apatia, perda do apetite, atonia ruminal e febre.

Tratamento: é feito com aplicação de altas dosagens de penicilina e suporte com fluidoterapia, embora as chances de recuperação sejam mínimas.

Controle: evitar traumas; incinerar cadáveres; cuidar da assepsia da pele e materiais a serem utilizados durante procedimentos vacinais, punções venosas e intervenções cirúrgicas; imunizar recém-nascidos de forma adequada via colostro; vacinar bezerros aos três meses de idade, com reforço 30 dias depois e uma terceira dose aos nove meses de idade.


Reprodução em perfeito FUNCIONAMENTO

Doenças "silenciosas" acarretam graves prejuízos na fase reprodutiva da vaca

Fátima Costa

A vaca saudável com o bezerro ao pé é a imagem que todo o criador gosta de ver, mas para tanto é necessário fazer um manejo sanitário adequado para cada região. Caso contrário, está aberta a temporada para doenças reprodutivas no rebanho. Entre as muitas existentes, os especialistas apontam como principais Brucelose, Diarreia Viral Bovina (BVD), Leptospirose e Rinotraqueíte Infecciosa dos Bovinos (IBR).

Segundo o professor doutor Geraldo Márcio da Costa, do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Lavras (UFLA/MG), essas doenças podem causar aumento do número de abortamentos, do intervalo entre partos e do nascimento de bezerros fracos ou mortos. "Não há sinais característicos para cada uma das doenças. O diagnóstico deve ser feito mediante análise laboratorial, do histórico de perdas na monta e das categorias mais afetadas, como novilhas e vacas", justifica.

Tal é a gravidade que na cidade de Cafelândia, no oeste paranaense, a 550 quilômetros da capital Curitiba, por exemplo, os produtores de leite receberam o apoio municipal da Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente do município para controlar a Brucelose. Ao todo, 60 pecuaristas receberam gratuitamente a vacina. Basta que se procure o departamento veterinário para agendar a vacinação. "É importante dizer que a imunização contra Brucelose, em todas as fêmeas bovinas e bubalinas, entre três e oito meses de idade, se tornou obrigatória a partir de 2004, com a criação do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal [PNCEBT]", afirma Costa.

A atenção para a Brucelose não é à toa. Ele explica que a doença é causada pela bactéria Brucella abortus. A transmissão entre os animais se dá de diversas formas, a mais comum é via transplacentária, ou seja, a fêmea infectada transmite ao feto durante a gestação. Pode também ser transportada pelo colostro, pela ingestão de pastagem contaminada e pelo hábito dos animais se lamberem. "Quando a fêmea aborta contamina as áreas com uma carga muito grande de 'brucellas' e elas sobrevivem durante um longo período no ambiente", explica.

Outro dado relevante apontado pelo médico-veterinário Raul Mascarenhas, pesquisador do Departamento de Sanidade Animal da Embrapa Pecuária Sudeste, e que é contrário ao que muitos pecuaristas pensam, dificilmente haverá a transmissão do touro para a vaca por meio do coito, devido às características de pH vaginal e imunidade em nível de mucosas. "Quando infectado, o macho desenvolve uma orquite [inflamação dos testículos] e, consequente, infertilidade, já a vaca albergará a Brucella abortus em seu útero até que fique prenhe e aborte no último terço da gestação. A morte fetal ocorre nesta fase devido à produção de "eritritol" pelo útero gravídico, que estimula a multiplicação bacteriana e resulta na lesão placentária, comprometendo a nutrição e a respiração fetal", diz.

fetal", diz. Por se tratar de uma zoonose, há uma grande preocupação em termos de saúde pública, segundo o pesquisador. O principal grupo de risco são os magarefes (pessoas responsáveis pelo abate) - embora a Brucella abortus permaneça pouco tempo no sangue, o contato contínuo com diversos animais aumenta a probabilidade de infecção -, seguidos dos veterinários que manipularão a vacina viva atenuada e, por último, os demais profissionais ligados à pecuária. "A brucelose encontra-se endêmica em praticamente todos os estados brasileiros", revela.

Pelo PNCEBT ficaram definidas medidas para conter a disseminação da doença, como a obrigatoriedade de sacrifícios dos animais positivos. De acordo com o pesquisador, entre as medidas preventivas e de controle, recomenda-se: vacinação com B19, de acordo com a legislação, imunização das fêmeas maiores de sete anos com RB51, realização de exames periódicos em todos os animais anualmente ou semestralmente (propriedades contaminadas), adotar quarentena para animais recém-adquiridos, mesmo que já venham portando exames negativos. "Acredito que em alguns anos, quando a febre aftosa for erradicada do continente sul-americano, a brucelose e a tuberculose serão as 'bolas da vez' e o pecuarista que se antecipar para erradicar estas enfermidades lucrará no futuro próximo", diz o pesquisador. A expectativa do Ministério da Agricultura é atingir cobertura vacinal acima de 80% da população de fêmeas. Hoje, estima-se que a doença atinja, atualmente, algo entre 5% e 10% do rebanho brasileiro. Sensibilizar a população para o perigo da Brucelose é uma das metas do Ministério da Agricultura. "A doença ocorre de forma generalizada no Norte e no Nordeste do País, regiões nas quais não há uma preocupação quando ao quesito sanitário. O que nós temos assegurado e confirmado é que a Brucelose demonstra uma prevalência mais baixa na Região Sul do País, em Minas Gerais e apresenta alta prevalência no Centro-Oeste", lembra Costa.

AGENTES QUE ASSUSTAM

Observando o rebanho do Grupo Leme Pecuária, criado pelo empresário Arthur da Silva Leme Neto há mais de 30 anos, podemos igualá-lo a qualquer outro grande projeto pecuário. Seu plantel com 3 mil cabeças está distribuído em cinco fazendas, todas localizadas no Paraná. Mesmo com um controle rigoroso, o grupo apresenta taxas de mortalidade, mas dentro do padrão aceitável, em torno de 2%, bem diferente dos índices alarmantes que existem em algumas propriedades, às vezes chegando a 30%.

Na opinião de pesquisador da Universidade Norte do Paraná Celso Koetz Junior, gerente geral do Grupo, mesmo dentro de grandes projetos, o nível nutricional ainda é atrasado e quem dirá o manejo sanitário. "Ainda precisamos caminhar muito para ver um bom controle sanitário ocorrendo nas fazendas pelo Brasil afora", afirma. De acordo com ele, o maior impacto para que as medidas não sejam tomadas são os preços relativamente altos das vacinas contra as doenças, como IBR e BVD, por exemplo. "As melhores são importadas e caras. Se na aftosa encontramos pecuaristas que não vacinam corretamente, quem dirá nas demais enfermidades", diz.

O comentário dele faz todo o sentido. São vários os agentes infecciosos que podem comprometer o desempenho reprodutivo de bovinos. Porém, sem dúvida, além da Brucelose, a Diarreia Viral Bovina (BVD), a Leptospirose e a Rinotraqueíte Infecciosa dos Bovinos (IBR) são significantes pela alta frequência, segundo o professor doutor Amauri Alfieri, da Universidade Estadual de Londrina (UEL/PR). "Muito raramente encontramos um rebanho que seja livre de uma dessas três doenças infecciosas e o mais comum é que eles estejam infectados simultaneamente pelos três agentes infecciosos. As infecções por IBR, BVD e Leptospirose podem impactar negativamente nas taxas de gestação tanto aos 30, 90 ou 120 dias", justifica Alfieri.

Os animais com IBR, BVD e Leptospirose, no caso as vacas, não apresentam sinais clínicos. "Ou seja, as infecções são raramente deletérias às vacas, mas sim aos seus conceptos", diz. Ele reforça que, com isso, vacas infectadas apresentam repetição de cio a intervalo regular, aborto, natimortalidade (bezerros nascem mortos) e mortalidade perinatal (bezerros nascem vivos e morrem até 3 dias após o parto).

De acordo com o veterinário, quando se fala em problemas da reprodução sempre vem à mente os casos de abortos. Porém, considerando IBR, BVD e Leptospirose, o abortamento é apenas a ponta do iceberg. "Com muito maior frequência ocorrem as mortalidades embrionárias e fetais precoces. Por ocorrer em um período ainda inicial da gestação, não é comum, principalmente na pecuária de corte comercial, a visualização do produto do abortamento", adverte. Principalmente nos casos da IBR e da BVD, por serem de etiologia viral, não há possibilidade de tratamento.

Alfieri explica que a IBR é causada pelo herpesvírus bovino 1, já a BVD é ocasionada pelo vírus da diarreia viral bovina e, por último, a Leptospirose (Leptospira sp), é bacteriana. Nas duas primeiras enfermidades, a infecção é acompanhada por latência viral. Após a infecção primária, o animal torna-se portador do vírus para o resto da vida e potencial transmissor.

Para ele, a infecção de uma vaca soronegativa de 40 a 110 dias de gestação com vírus da diarreia viral bovina pode acarretar no nascimento de bezerros persistentemente infectados, também denominados bezerros PI, os maiores agentes difusores desta doença.

OUTRA PEDRA NO CAMINHO

Outro agente importante é Leptospirose. De acordo com o pesquisador da Embrapa Raul Mascarenhas, é uma zoonose causada pela bactéria Leptospira spp. A principal forma de transmissão dá-se por meio da ingestão de pastagens contaminadas e pele. A bactéria é extremamente sensível à luz do sol e à dessecação, morrendo poucas horas após serem excretadas no ambiente, principalmente por meio da urina de animais infectados. "Sendo assim, a maior parte dos casos ocorrerá em épocas chuvosas. O principal sintoma da leptospirose na vaca adulta é o abortamento, embora a presença de sangue na urina possa ser aparente", diz. Ele lembra que, embora o rato seja o grande vilão na transmissão da leptospirose urbana, no ambiente rural a maior importância volta-se para o próprio gado. "O grande problema é a fêmea que não aborta, o qual permanecerá transmitindo a doença e só será diagnosticada através de exames de sangue", reforça.

Confirmada a Leptospira spp., deve-se medicar os animais que abortarem com estreptomicina em dose única e proceder a vacinação no rebanho a partir dos 12 meses de idade. A vacinação não evitará que os animais se infectem, mas reduzirá a ocorrência dos sintomas. Ela poderá ser feita semestralmente, caso existam poucos abortamentos, ou trimestralmente, em casos excessivos. "É importante programarmos para que pelo menos uma das vacinações seja realizada 30 dias antes do primeiro mês de chuva", diz.

Para o médico veterinário Rodrigo Mendes Untura, diretor de projetos da In Vitro Brasil, é necessária uma conscientização do pecuarista. "Assim como há uma campanha contra a Brucelose, o mesmo poderia se estender às demais", adverte.

Raul Mascarenhas alerta para a silenciosa Leptospirose, cujo único sintoma é o abortamento do feto

No ano passado, Untura acompanhou uma campanha realizada pela empresa de orientação quanto ao manejo sanitário. Em duas grandes propriedades havia índices de perdas embrionárias que chegavam a 25%. A partir de um acompanhamento técnico, quando se fechou a estação de monta, os índices de perdas caíram para entre 6% e 4%. "Ou seja, constatamos que existia um problema grave de Leptospirose, IBR e BVD. Todas as doenças são sérias, entretanto, uma das mais preocupantes ainda é a Leptospirose. Quando não tratada, leva a perdas que chegam a 10%", explica ele, que menciona também que uma das causas do descaso no controle destas enfermidades se dá por conta da vacinação que não é gratuita, nem obrigatória, lembrando que o custo médio da vacinação gira em torno de R$ 14.

"Principalmente, em alguns casos de produção leiteira, se mantém todos os índices na ponta do lápis", conta Untura. Na visão dele, em projetos de larga escala é mais fácil convencer o pecuarista, afinal, de cada mil prenhezes, corre-se o risco de perder 100. Alfieri concorda e aponta que as questões sanitárias do rebanho são relegadas a segundo, terceiro ou, até mesmo, quarto plano do manejo de reprodução. "Não custa lembra que prevenir é melhor que remediar. Um Programa de Imunoprofilaxia é extremamente vantajoso para o pecuarista", conclui.


Tristeza Parasitária

Maior rigor com o manejo sanitário evita a doença

Romualdo Venâncio

Os impactos da tristeza parasitária bovina (TPB) na pecuária brasileira são o que podemos chamar de "efeitos coletivos": além do gado, também adoece a economia da fazenda e o produtor certamente fica infeliz vendo sua lucratividade se perder. A doença é comum em diversas regiões do País, e exatamente por isso poderia ser menos representativa, mas a falta de atenção ao manejo preventivo e também de informação contribui para que ela continue sendo tão importante.

É bem verdade que as formas de contaminação facilitam sua ação. A TPB é causada por babesias e anaplasmas, agentes que se multiplicam no sangue e, por isso, são chamados de hemoparasitas. Mas é quando falamos sobre seus transmissores que o problema realmente ganha proporções assustadoras. Os anaplasmas são transmitidos por moscas hematófagas e mosquitos, ou até por meio de instrumentos infectados, como facas e agulhas, durante procedimentos de castração e vacinação. Já as babesias chegam aos bovinos de carona com os carrapatos, ectoparasitas com notório potencial para causar prejuízos.

Recentemente, durante a primeira edição do Simpósio Internacional Sobre Controle dos Carrapatos e Doenças Transmitidas, realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o professor de Parasitologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Lerte Crisi revelou que, por ano, o carrapato-do-boi gera perdas de US$ 3,957 bilhões para a produção da pecuária de leite e de corte. Essa informação já poderia ser suficiente para que o controle dos parasitas fosse mais eficiente.

pela tristeza parasitária bovina é a morbidade. Os animais doentes deixam de se locomover, de se alimentar e tornam-se presas fáceis para diversas outras enfermidades. A queda na produção é certa, e a consequente mortalidade não chega a ser uma surpresa. Também há efeitos sobre o desempenho reprodutivo, que é prejudicado por conta de abortos, alterações no ciclo estral e redução na fertilidade dos touros.

Para que se tenha eficiência no tratamento do rebanho doente, é importante a realização de um diagnóstico laboratorial. Apenas a avaliação visual é insuficiente, pois os principais sintomas apresentados pelos bovinos doentes, como febre, prostação e falta de apetite, também aparecem no caso de outras enfermidades. A partir dos resultados, é possível fazer uma prescrição adequada àquela situação. Só para lembrar, o médico-veterinário é o profissional responsável por essa indicação.

Os dados dos exames laboratoriais, somados ao diagnóstico clínico, ajudarão também a definir a melhor projeção para o manejo preventivo, que invariavelmente passa pelo controle dos carrapatos. Entre alguns métodos e diversidade de produtos – carrapaticidas, vacinas, produtos naturais e homeopáticos –, é preciso avaliar corretamente as condições do rebanho e da propriedade e considerar o sistema de produção. Cada fazenda tem uma realidade diferente, inclusive cultural e financeira, o que pode pesar bastante na definição do manejo mais apropriado.

Especialistas em parasitologia questionam a utilização de apenas um método, com base em somente um produto e, também, o fato de muitos produtores lançarem mão do controle de carrapatos somente quando a infestação já está em níveis muito elevados. Enquanto o tratamento continuar sendo realizado dessa forma, haverá perdas na eficiência do manejo e riscos de criar resistência dos carrapados a determinados produtos. Mais uma vez, planejamento estratégico é fundamental, inclusive para definir uma boa combinação dos métodos e produtos.


EFICÁCIA DAS VACINAS CONTRA TRISTEZA

Da redação

Segundo o Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC) da Embrapa Gado de Corte, existem vacinas eficazes contra a doença, parecer apontado por dez pesquisadores da unidade. Mas aquelas constituídas de cepas atenuadas, refrigeradas ou congeladas. É recomendada para animais jovens, de preferência antes da desmama. Em bovinos adultos, dependendo da sensibilidade individual, pode provocar até 5% de reações clínicas, razão pela qual os animais devem ser observados durante o período de reação vacinal. Sempre que um animal tiver de receber medicação específica, em razão de reação aguda contra algum dos agentes inoculados, ele deverá receber outra dose. Tecnicamente, seria conveniente fazer um exame sorológico dos animais antes e 60 dias após a imunização.


Porta fechada PARA INFECÇÕES

A cura bem feita do umbigo de bezerros recém-nascidos evita contaminações e o surgimento de doenças como a onfaloflebite

Romualdo Venâncio

Durante a gestação de um bezerro, o cordão umbilical é uma fonte de vida. É por esse canal que a vaca abastece a cria com o sangue que leva nutrição e proteção. Assim que essa conexão é rompida pelo parto, a natureza, sábia que é, inicia o fechamento das veias e artérias que antes ligavam a mãe ao feto. A união dos músculos da região do umbigo finaliza a blindagem. O problema é que todo esse processo não acontece de imediato e, enquanto a cicatrização não se completa, o umbigo passa a ser um acesso para agentes causadores de doenças.

Uma dessas enfermidades é a onfaloflebite, inflamação da veia umbilical e da parte externa do umbigo, causando o inchaço da região com presença de exsudato (líquido de alto valor proteico produzido pelo processo inflamatório que, da mesma forma que o pus, pode ou não ultrapassar os tecidos). Como consequência, é possível ocorrer dor abdominal, hepatite, peritonite ou abscesso hepático.

Diante de tais sintomas, é necessário o tratamento com antibiótico. "Em geral, utiliza-se um medicamento de amplo espectro, pois seria necessário uma análise laboratorial para identificar a exata bactéria que deu origem ao problema", explica o médico-veterinário André de Souza e Silva. Quanto antes o bezerro for tratado, melhor, pois o avanço da doença tem impacto direto no desenvolvimento do animal e pode até causar a morte.

CURA DO UMBIGO

Basta que seja feita de forma correta a cura (ou queima) do umbigo do bezerro para a completa cicatrização. Assim, o pecuarista fecha a porta para agentes bacterianos. Silva defende que o manejo já aconteça no primeiro dia de vida do animal. "Fazemos a limpeza e a desinfecção da região com iodo a 10% e a queima com um produto comercial específico para este fim. Trata-se de um cicatrizante contendo iodo e fenóis. Já aproveitamos para outros manejos", descreve Silva.

Produtor pode aproveitar o momento da cura para outros manejos

Apesar da importância econômica da onfaloflebite, por conta da redução da taxa de desfrute da fazenda, o manejo preventivo nem sempre é visto como deveria. "Em muitos casos, até por falta de conhecimento, há pecuaristas que ignoram a prevenção, pois acreditam ser um custo desnecessário", alerta o veterinário. "No caso de uma propriedade que tem a venda de reprodutores como principal negócio, não fazer a cura do umbigo dos bezerros seria um risco muito grande", acrescenta.

Também é importante entender que a cura do umbigo é parte de um controle sanitário que envolve outros procedimentos preventivos. "Antes de cada novo período de parição, realizamos treinamento de reciclagem com nossa equipe, e não só para falar de cura do umbigo de bezerros, mas para vários outros cuidados importantes", exemplifica Silva, lembrando ser fundamental os tratadores se conscientizarem da importância do manejo.

É recomendado que os pecuaristas busquem assistência técnica e a orientação de profissionais capacitados. Segundo o veterinário, hoje, está bem mais fácil encontrar esclarecimento. "As informações estão cada vez mais acessíveis. O produtor pode buscar apoio em sindicatos rurais, associações de classe, revendas agropecuárias e até laboratórios. Alguns, inclusive, oferecem treinamento gratuito", conclui.