Caprinovinocultura

 

Qualificação faz a diferença

Envolvimento de trabalhadores e criadores em atividades de capacitação é fundamental

Denise Saueressig
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A recomendação vale para produtores tradicionais e para aqueles que estão ingressando na criação de ovinos e caprinos: a qualificação é sempre um investimento e ajuda a ampliar a rentabilidade do negócio. Programar cursos e outras atividades de treinamento deve ser uma prioridade na busca pela sustentabilidade e pelo desempenho positivo do empreendimento.

Nos últimos anos, o desenvolvimento da ovinocultura tornou ainda mais importante a capacitação de produtores e trabalhadores envolvidos no dia a dia da propriedade. A demanda crescente também impulsionou a oferta de cursos. Nas diferentes regiões do País, associações, sindicatos, universidades, instituições de pesquisa, órgãos de extensão e empresas privadas oferecem opções em diversas áreas.

No Rio Grande do Sul, onde a ovinocultura é uma das atividades mais tradicionais no campo, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) realiza treinamentos que abordam desde os aspectos básicos da criação até assuntos mais especializados dentro do programa de formação profissional voltado para o segmento. Os cursos são todos gratuitos e a duração varia de 16 a 24 horas. "Recebemos as demandas por meio dos sindicatos rurais nos municípios, que nos mostram quais são as principais necessidades dos produtores", explica o engenheiro agrônomo Antonio Aguinaga, gestor do Programa Juntos para Competir pelo Senar.

Entre os temas que integram o conteúdo dos cursos estão técnicas básicas de manejo, produção de recursos forrageiros, reprodução, terminação de cordeiros, avaliação da condição corporal e técnica de tosquia tally-hi. Em 2012 foram realizadas aproximadamente 100 atividades de treinamento com a participação de mais de 2 mil produtores gaúchos. "A procura vem aumentando nos últimos anos, e a tendência é que se mantenha em alta, principalmente pelos bons preços do cordeiro", analisa o dirigente.

Além da procura registrada através dos sindicatos, os treinamentos são ministrados a grupos de produtores organizados com um propósito comum pelo Juntos para Competir, que, além do Senar, envolve a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e Emerson Foguinho o Sebrae/RS. "Atualmente são mais de 30 grupos de ovinocultores que recebem orientação relacionada à tecnologia da produção, gestão da propriedade e acesso a mercados", detalha Aguinaga.

Outro programa de apoio ao setor ainda inclui a participação da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, com investimento de R$ 1 milhão. Lançado em janeiro, o projeto de fomento prevê a capacitação técnica e gerencial de mais de 800 produtores até 2015. Na primeira fase da ação, serão atendidos 35 municípios da Região Sul do estado, que concentra em torno de 80% do rebanho gaúcho, estimado em 4 milhões de cabeças. "O objetivo final de todas essas iniciativas é o progresso na rentabilidade do negócio e a consequente melhoria na qualidade de vida dos produtores", conclui o dirigente do Senar/RS.

EVOLUÇÃO NO CENTRO-OESTE

Capacitar a mão de obra para qualificar a produção é uma das prioridades numa região onde a ovinocultura despontou como atividade lucrativa nos últimos anos. No Mato Grosso, onde a paisagem mais frequente é formada por lavouras de soja, os rebanhos ovinos vêm ocupando um espaço cada vez mais importante.

As ações desenvolvidas no âmbito do programa de governo MT Regional ajudaram a ampliar o plantel do estado. Entre 2007 e 2010, o número de animais passou de 683.520 para 1,131 milhão, segundo o Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea). "Até 2012, acredito que esse montante tenha chegado a 1,436 milhão de cabeças, um incremento de 27% ao ano", informa o zootecnista e criador Paulo de Tarso dos Santos Martins, coordenador da Cadeia Produtiva da Ovinocultura no MT Regional entre 2007 e maio de 2013.

Sócio e consultor da empresa Planner, com sede em Cuiabá, o profissional ressalta que para aqueles empreendedores que já estão no mercado, a informação é essencial para ampliar os índices de produtividade e para atualizar conceitos em temas como manejo, nutrição, sanidade e genética. "Para quem está começando, é preciso buscar o suporte básico, ou seja, o conhecimento sobre a espécie e suas particularidades", aconselha.

As atividades desenvolvidas pelo MT Regional incluem seminários, dias de campo e cursos realizados com o apoio de universidades e instituições como o Senar, a Empresa Matogrossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) e a Federação da Agricultura do Estado (Famato).

A maior parte do rebanho mato-grossense está concentrada em pequenas propriedades, mas a ovinocultura também tem motivado grandes produtores de grãos. "Hoje, percebemos projetos bastante profissionais, de agricultores que resolveram diversificar seus negócios e investir seriamente na atividade. E uma das razões para esse investimento é que a ovinocultura é uma grande oportunidade de agregar valor aos grãos, que sofrem depreciação de preços devido ao alto valor que precisa ser pago pelo frete na região", argumenta Martins.

Além do aumento do rebanho, as iniciativas que incrementaram a ovinocultura no Mato Grosso ajudaram também a criar uma organização para a cadeia produtiva. Em 2007 havia apenas um pequeno frigorífico que realizava abates de ovinos no estado. Hoje, são três plantas em operação e mais uma em processo de instalação. "Isso tudo foi possível porque houve a união das ações do governo com empresários, instituições de pesquisa, sindicatos, associações e municípios", observa o consultor. Segundo ele, a possibilidade de escoar a produção por meio de uma comercialização formal foi mais um atrativo para os produtores, que hoje não dão conta de atender à crescente demanda local pela carne de cordeiro.

Zootecnista Paulo de Tarso Martins: informação é essencial para ampliar os índices de produtividade e atualizar conceitos

APOIO NO NORDESTE

A Bahia detém o maior rebanho caprino do País, com 2,8 milhões de cabeças, e o segundo maior plantel de ovinos, com cerca de 3 milhões de cabeças, de acordo com o IBGE. A produção é voltada essencialmente para a carne, e abrange diferentes perfis de criadores, desde as propriedades familiares até as fazendas voltadas à seleção genética.

A Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), vinculada à Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária do Estado, desenvolve um projeto que abrange cursos gratuitos para técnicos e criadores. Além das programações nas propriedades, os treinamentos também ocorrem em unidades de convergência. Na região de Juazeiro, no Centro de Formação de Agricultores Familiares de Jaguarari (Centrecapri), os alunos têm acesso a informações sobre manejo, alimentação e melhoramento genético. "O centro funciona como uma estação experimental, e os cursos destinados a produtores têm 75% de conteúdo prático", salienta o veterinário Faruk Zacarias, técnico e pesquisador da EBDA. Segundo ele, especialmente nos últimos três anos, a vem aumentando significativamente. "Tivemos a introdução de novas raças, o que motiva a busca por conhecimentos relacionados a temas como controle parasitário, adequação de manejo e utilização de insumos mais modernos. Também existe muita demanda junto a criadores credenciados em programas de repasse de reprodutores. Em alguns casos, eles precisam necessariamente passar por um curso para receber os novos animais", conta o pesquisador.

Para os cerca de 700 profissionais que atuam junto aos criadores, os treinamentos envolvem principalmente atualização. "O setor é dinâmico e, no dia a dia, precisamos lidar, por exemplo, com zoonoses que necessitam de novos protocolos sanitários específicos", relata Zacarias.

Nos últimos meses, uma das maiores demandas relacionadas à capacitação é a produção de reserva estratégica alimentar para o período seco. "O Nordeste enfrenta a pior estiagem dos últimos 50 anos, o que levou muitos produtores a buscarem conhecimento sobre alternativas para a alimentação dos animais. E na região do semiárido, que engloba 60% do estado da Bahia, é bastante comum a presença de rebanhos caprinos e ovinos", declara.