Sala de Ordenha

 

O desafio da gestão

Marcelo Carvalho

Há uma diferença enorme entre aquilo que é possível fazer a partir do estoque de tecnologia e o que efetivamente obtemos em relação à produtividade. Maurício Silveira Coelho, bem-sucedido produtor de leite e genética, disse que, no leite, ainda se vê gente que faz o que o avô fazia. Todos os levantamentos e diagnósticos setoriais apontam índices muito abaixo daquilo que poderiam ou deveriam ocorrer.

Essas questões tornam-se mais críticas se analisarmos a atual conjuntura, em que a elevação do preço da terra e da mão de obra colocam um peso adicional na necessidade de elevar a produtividade. Elevar a produtividade, por outro lado, envolve mais investimentos, mais intensificação, maior risco. E, para lidar com tudo isso, é necessário que haja uma estrutura gerencial. E aí está o desafio.

Nem a maior parte dos produtores e nem os técnicos estão preparados para isso. A formação dos técnicos de Agronomia, Zootecnia e Medicina Veterinária, via de regra, tem uma visão tecnicista. Claro que o domínio da técnica é revelante, mas por si só não é suficiente, uma vez que, para lidar com a complexidade atual da atividade, é preciso que se tenha um gestor.

No passado distante, tudo que um produtor precisava fazer era adquirir um touro capaz de cobrir as vacas, filho de uma vaca mais produtiva do que as existentes no rebanho, e gerar uma prole numerosa. De tempos em tempos, esse animal era substituído. Basicamente, era esse o desafio genético. Hoje, o produtor profissional tem de lidar com desafios muito mais amplos e com decisões que impactam a atividade por um longo tempo – sêmen sexado, transferência de embriões e seleção genômica.

Assim como vemos na genética, diversas outras áreas do conhecimento também se tornaram mais complexas, estamos distantes. Para crescer, é preciso gerenciar pessoas. Não basta saber lidar com o pasto, com as máquinas e com as vacas. É preciso lidar com pessoas. Muitos produtores de 200, 300 litros/dia param de crescer quando atingem um tamanho que torna impossível a aplicação unicamente de mão de obra familiar.

Dessa maneira, um dos desafios que temos como setor produtivo é preparar os produtores para a gestão. Como organizar uma empresa produtora de leite, como estabelecer rotinas, controlar e recompensar, fazer um planejamento estratégico, contratar, organizar um fluxo de caixa e entender a propriedade a partir de medidas de desempenho econômico que são comuns a outras atividades. Essa realidade parece distante da produção de leite brasileira. Ainda, mesmo produtores maiores, muitas vezes, não se envolvem com a gestão do negócio, deixando-a a cargo de um encarregado.

Esse aspecto é realmente importante? Julgo que sim. Considerando o baixo índice de desemprego e a dificuldade cada vez maior de contratar e manter funcionários, há a necessidade de aumentar a produção para que seja possível haver continuidade e sucessão na atividade. Hoje, o filho do produtor de leite de 200 litros/dia não ficará na atividade, salvo se tiver uma escala tal que viabilize sua permanência. Ficando nesse tamanho, não é possível contratar funcionários e, da mesma forma, manter a sucessão.

Assim, o incremento do valor da terra verificado nos últimos dez anos força o aumento de produtividade. O efeito de terras mais valorizadas, fruto de outras opções de exploração, pode ser visto no decréscimo da produção de leite em São Paulo. De 1990 em diante, a produção paulista decresceu 19,32% em valores absolutos, enquanto a produção brasileira cresceu 121,56%. Além da mudança de leite pasteurizado para UHT, que permitiu a coleta proveniente de regiões mais distantes dos grandes centros, o fator que definitivamente minou a produção paulista foi o crescimento da cana-de-açúcar. O produtor que permaneceu só tinha um caminho: elevar a produtividade e manter uma rentabilidade. Ou então ficar com uma exploração muitas vezes marginal. Da mesma forma, a valorização de áreas com boa aptidão agrícola em outros estados e a expansão da cana-de-açúcar colocam desafio adicional para áreas que antes poderiam se manter com baixa produtividade de leite. Em cima de um ativo caro, não faz sentido econômico produzir 1.000, 2.000 ou mesmo 5.000 litros/hectare/ano. Fatalmente esse produtor sairá da atividade.

O pacote de aumento da produtividade precisa ser acompanhado de estruturas de financiamento compatíveis. Na realidade, um produtor que investe para sair de 200 litros para1.000 litros/dia está entrando em um outro negócio, em que o trabalho com as vacas é apenas um dos aspectos.

Tudo isso parece muito longe do leite atual? Concordo, mas, na conjuntura atual, quem produzirá o leite do País, de forma competitiva e sustentável? Está aí, portanto, o principal desafio da produção de leite nacional.

Marcelo Pereira de Carvalho,
direto-executivo da AgriPoint