Leite

 

Só proteína NÃO BASTA

Dicas importantes na formulação de dietas para bovinos leiteiros

Tatiana Dias* e Winston Giardini**

O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de leite, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Conforme os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2011 foram produzidos 32,1 bilhões de litros de leite, um aumento de 4,5% com relação a 2010. A expectativa é que em 2012 o aumento tenha sido de 4%, em decorrência da demanda interna e do crescimento das exportações.

Para o crescimento da atividade leiteira, os pecuaristas precisam estar atentos à formulação e à nutrição adequadas, visando ao aumento da produtividade do rebanho. A alimentação representa de basta45% a 55% dos custos totais da produção de leite e a utilização de ingredientes de boa qualidade, principalmente a forragem, ajuda a reduzir estes valores em decorrência da maior produtividade. A combinação de ração e volumoso com elevado valor nutricional reflete na produção de leite. Desta forma, o criador precisa saber que o uso excessivo de concentrados não é suficiente para garantir a produtividade. Vale ressaltar que o uso de forragens de baixa qualidade aumentará o custo de produção e não garantirá elevada produção. O volumoso é importante para a saúde do rúmem, que se torna mais eficiente e possibilita também menor utilização de grãos na dieta.

Uma nutrição equilibrada deve conter níveis adequados de proteína, energia, fibras de boa digestibilidade (de forma balanceada), minerais e vitaminas, que também são fundamentais para manter a saúde e o funcionamento ruminal. Hoje, muitos criadores avaliam apenas o nível de proteína da dieta e não consideram um componente importante, caro e difícil de ser suplementado, que é a energia, justamente por ser resultado da fermentação ruminal. É necessário frisar que, se o rúmen do animal não estiver funcionando adequadamente, a estimativa de produção de energia não será atingida, não atenderá às necessidades nutricionais, o que pode acarretar em perdas na produção de leite.

É possível fazer ajustes nas dietas quanto às frações de degradação dos ingredientes energéticos e proteicos. Ou seja, é importante utilizar diferentes fontes de energia e proteína, com velocidades de degradação ruminal sincronizadas, que possibilitam maior eficiência da fermentação bacteriana no rúmen.

O ajuste da alimentação deve ser feito com base na dieta total fornecida diariamente e não na quantidade de silagem

A ureia, fonte de nitrogênio não proteico, é um item utilizado pelos ruminantes com eficiência por serem eles capazes de transformar o nitrogênio em proteína microbiana de alta qualidade. Para garantir seu aproveitamento, é recomendável a associação com componentes energéticos com taxa de fermentação ruminal similar. Outro exemplo é a utilização de silagem de milho úmido para animais a pasto, já que esta combinação permite melhor oferta de nutrientes às bactérias e, consequentemente, melhor equilíbrio do ambiente ruminal.

É necessária atenção quanto ao uso de ingredientes cuja taxa de digestão é diferente, pois poderá prejudicar o aproveitamento e perder a eficiência.

Além da composição dos alimentos, é fundamental observar o modo de oferecer as refeições, ou seja, como estão sendo realizados os tratos. Em algumas situações é fornecida uma excelente dieta (com forragem e grãos de alta qualidade), mas, devido à falta de estrutura ou manejo incorreto, os nutrientes não são disponibilizados de forma suficiente para o animal, impossibilitando-o de expressar o máximo de seu potencial produtivo. Seguem dois exemplos:

1 – Em um sistema pastoril, uma vaca é ordenhada duas vezes ao dia (manhã e tarde) e normalmente recebe duas refeições no cocho, compostas basicamente por silagem e ração. Nos intervalos das ordenhas estes animais vão para o pasto e podem pastejar por até oito horas. O ideal seria aumentar este tempo e também o consumo de matéria seca, porém, isso não é possível devido a alguns fatores como: calor, irradiação solar, falta de água e muitas vezes baixa oferta de forragem. Com base nisto, é necessário calcular o consumo da forragem e também avaliar a possibilidade desta estimativa não estar correta para, então, formular a dieta com o objetivo de minimizar o desbalanceamento.

2 – Em um confinamento a dieta geralmente é composta por feno, silagem de milho e grãos. Para que o produtor realize uma mistura eficiente, alguns itens, como vagão misturador e balança, são importantes para garantir sua qualidade e, consequentemente, da dieta. Algumas vezes nota-se excesso ou falta de alimento no cocho, o que induz alguns produtores a fazer o ajuste com base na quantidade de silagem e não da dieta total fornecida diariamente. Esta prática desequilibra a dieta e não permite a oferta de todos os nutrientes requeridos pelo animal.

Estes são exemplos do que chamamos de "manejo nutricional" e como ele pode interferir no equilíbrio da dieta e da produtividade dos animais.

O produtor deve se concientizar de que ao alimentar um ruminante está nutrindo as bactérias ruminais. Estes micro-organismos são os responsáveis por metabolizar os ingredientes, produzir proteína microbiana e fermentá-los para fornecer energia e proteína necessária para a manutenção dos processos fisiológicos básicos, reprodução e produção. Como o rúmen é um ambiente dinâmico, é preciso saber quais ingredientes serão fornecidos e os produtos resultantes da fermentação, uma vez que as bactérias podem beneficiar o animal ou não.

Visando garantir o ótimo funcionamento do rúmen, duas dicas são importantes para o produtor:

- Rotina: é um processo que pode resultar em bons resultados. Ao oferecer uma dieta padrão e ordenhar as vacas diariamente (no mesmo horário), é possível obter maior produtividade dos animais.

- Alimentos: é dificil manter os mesmos ingredientes no decorrer do ano, principalmente em relação às forragens. É recomendável manter uma dieta com ingredientes semelhantes para minizar as alterações no ambiente ruminal e favorecer a fermentação e à produtividade do animal.

Alguns aditivos, como as leveduras vivas, podem maximizar o funcionamento do rúmen, trazendo benefícios como gadoa multiplicação das bactérias ruminais, maior fluxo de proteínas microbianas ao intestino, a melhor digestibilidade dos alimentos ingeridos e, principalmente, incremento da produtividade devido ao maior aproveitamento dos alimentos. A melhor forma de reduzir os custos é aumentar a produção de leite através da nutrição correta e do manejo adequado.

É importante observar a maneira como os alimentos são oferecidos ao animal; devem estar sempre frescos, isentos de qualquer contaminação, em horários definidos (rotina) e visando sempre o conforto do animal. Quando alimentamos um ruminante, na verdade estamos alimentando as bactérias ruminais que são responsáveis por nutrir o animal, por isto é importante obter a menor variação possível na oferta de alimentos para melhorar a produtividade.

Em rebanhos comerciais recomenda-se pelo menos dois ou três tratos diários, já para vacas que participam de torneio leiteiro, cinco ou seis. Quanto maior a frequência da alimentação oferecida, maior será o interesse do animal pela dieta, o que aumentará seu consumo, fator fundamental para garantir o desempenho do animal.

Outros aditivos, como adsorventes de micotoxinas e minerais quelatados, vêm assumindo papel importante na evolução da nutrição e produção do gado leiteiro, principalmente pelos desafios que estes animais são submetidos diariamente.

*Tatiana é zootecnista e departamento de pesquisa da Alltech do Brasil **Giardini é zootecnista e gerente técnico de ruminantes da Alltech do Brasil