Na Pista

 

ZEBU de Ponta a ponta

79ª edição da ExpoZebu surpreende com grande técnica e feira de equipamentos

Adilson Rodrigues
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Além das muitas atrações já conhecidas, a ExpoZebu 2013 apresentou algumas novidades. Uma delas foi o Fórum Zebu de Ponta a Ponta, realizado no tattersal Rubico Carvalho do Parque Fernando Costa, no dia 8 de maio, que impressionou pela qualidade dos debates promovidos. A começar pela apresentação do cirurgião vascular e especialista em Nutrologia Dr. Wilson Rondó Júnior, que é criador de Nelore. Rondó é um ferrenho defensor do consumo de carne bovina e credita as doenças cardiovasculares aos maus hábitos de alimentação da sociedade moderna.

"Existe um mito de que a gordura da carne bovina é a responsável pelas doenças cardiovasculares, quando na verdade o grande vilão da alimentação humana moderna é o consumo de produtos refinados e que utilizam óleos vegetais parcialmente hidrogenados", aponta. Este tipo de alimentação causa um desequilíbrio na relação dos ácidos graxos (Ômegas 3 e 6), o que desencadeia uma ação inflamatória responsável, inclusive, pelo aparecimento de doenças mais graves, como Alzheimer.

Segundo o cirurgião, a gordura saturada presente na carne bovina é boa para o nosso organismo. É necessária para manter o funcionamento do cérebro, da musculatura cardíaca e para a arquitetura celular, uma vez que a falta dela impede a absorção de nutrientes pelas células. Outro problema que aponta é o uso inapropriado de estatísticas norte-americanas para demonstrar malefícios da carne de boi na saúde humana. "Praticamente, toda a carne brasileira é oriunda de criação de gado a pasto, enquanto nos Estados Unidos é de confinamentos. A carne americana é um artefato biológico", explica Rondó.

Aliás, o tema gerou um grande embate na mesa-redonda intermediada por Miguel Cavalcanti, colunista da Revista AG. Pasto e confinamento são sistemas de produção específicos e que vêm disputando a preferência no prato do consumidor brasileiro, destino de 90% de 10 milhões de toneladas de equivalente-carcaça produzidas em 2012, de acordo com Alcides Moura Torres Júnior, proprietário da Scot Consultoria, outro palestrante. E quem pensa que o paladar mais apurado encontra-se na Europa ou nos Estados Unidos está enganado.

Conforme dados mostrados na palestra de Leonel Almeida, gerente de pecuária do Grupo Marfrig, os cortes mais nobres do boi, como picanha, alcatra e fraldinha, são preferência nacional. Europeus preferem filé, contrafilé e entrecôte. A Rússia, ainda uma das principais importadoras da carne brasileira, prioriza os cortes dianteiros, enquanto a carne mais consumida nos Estados Unidos é enlatada, não necessitando de grandes requintes. De olho no aumento do poder aquisitivo da população brasileira, o que deve impulsionar a demanda por proteína vermelha, Leonel aproveitou para mostrar alguns números da carne Seara Natural.

No ano passado, o programa distribuiu R$ 2,12 de premiação média por arroba fornecida e mais de R$ 7.350 de Carne Seara não é commodity e produzir qualidade é um caminho que o Brasil precisa seguir. Não é a carne que deve ser de primeira e sim o boi", destaca o executivo. E como seria um boi de primeira? "Um boi castrado, abatido até os 36 meses e com 5 mm de gordura subcutânea. Este é um tipo de produto que nos permite atender qualquer mercado", responde Leonel. Segundo ele, os pecuaristas brasileiros têm melhorado a produção, como o caso de Goiás, que melhorou em 70% a qualidade de carne produzida por lá. Mesmo assim, apenas 29% dos fornecedores do frigorífigo entregam boi com aquelas qualificações necessárias. Um problema, pois faltam incentivos financeiros da própria indústria para produção de animais castrados, por se tratar de uma categoria que exige maiores investimentos do criador.

Talvez a solução fosse a implementação de um sistema nacional de tipificação e padronização de carcaças, há muito debatido no Brasil. Os dois processos diferem entre si. O primeiro agrupa carcaças homogêneas e o segundo as ranqueia da melhor para a pior. Existe em lei, mas nunca saiu do papel ou passou por fiscalização. De acordo com o que vigora, em relação ao gado de origem zebuína, ainda é aceitável animais com seis dentes permanentes (idade entre 42 e 48 meses), [email protected] de peso e gordura subcutânea entre 2 e 4 mm, todavia, não é o ideal. "O assunto só não avança no Brasil por culpa do próprio pecuarista. Ele não tem intenção de aderir porque sabe que poderá ser penalizado na entrega de carcaças com qualidade inferior", acusou Roberto Sainz, pesquisador da Embrapa Cerrados, que dissertou sobre o tema.

Rondó, Viacava, Miguel Cavalcante, Alcides Torres, Sainz e Paulo Leonel conduziram os debates

"Se quisermos conhecer o futuro da pecuária brasileira, basta vermos o que acontece nos Estados Unidos, onde o sistema já existe há mais de 100 anos. É o mercado sinalizando o que deseja do produtor", informa Sainz. Polêmico, o pesquisador atacou a consistência média da carne Nelore, a qual avalia ser dura, e é a favor do confinamento e da aplicação de hormônio promotor de crescimento para otimizar a terminação do tão oneroso e desejado boi inteiro. A boa notícia é que no quesito maciez existe uma grande variabilidade na raça Nelore, sendo passível de seleção. "Acompanhamos acasalamentos que já estão na terceira geração e identificamos que existem populações que produzem carne macia e novilhas Nelore com qualidade prime no conceito de tipificação dos Estados Unidos", ressalta.

Enquanto as propostas não evoluem, um fator pode surgir como divisor de águas da pecuária brasileira e do consumo de carne no Brasil: o enriquecimento da população. Com um pouco mais de dinheiro no bolso, a tendência de almoçar ou jantar em restaurantes tende a crescer. "A dona de casa sempre vai preferir o boi commodity; quem come fora de casa vai revolucionar esse mercado. E nos restaurantes as marcas de carne é que vão vingar", conclui Alcides Torres, da Scot Consultoria. O Fórum Zebu de Ponta a Ponta também contou com palestras sobre o Programa Nelore Natural, conduzida pelo nelorista Carlos Viacava, que surpreendeu ao mostrar os ótimos números da raça Angus no Brasil e exibiu as qualidades do Programa Nelore Natural, além de apresentações sobre a população rural no Brasil, hoje equivalente a de 1940, e Código Florestal.

EXPOZEBU DINÂMICA

Outra novidade na mostra zebuína de Minas Gerais foi uma feira de equipamentos e implementos agrícolas organizada na Estância Orestes Prata Tibery Júnior, localizada nos arredores da cidade de Uberaba. Estavam expostos produtos de mais de 50 empresas, entre ensiladeiras, tratores e vagões forrageiros, além de uma exposição de sementes forrageiras. A aceitação do projeto agradou a diretoria, que decidiu torná-la permanente.


A ExpoZebu ocorreu de 1º a 10 de maio, reuniu 2.400 animais e movimentou R$ 150 milhões, entre leilões e negociações de implementos pecuários. Mais de 300 estrangeiros, de 30 países, passaram pelo Salão Internacional do Parque Fernando Costa. Resultados dos remates e julgamentos podem ser conferidos no site www.expozebu.com.br.