Caindo na Braquiária

 

A entrada do milho no Acre

Alexandre Zadra

Quando rumamos à fazenda Sinuelo, propriedade do pecuarista e empresário Roque Junior, citado aqui nesse mesmo espaço em 2012, não poderíamos imaginar uma mudança tão grande no perfil de exploração de suas terras, onde já são inúmeros hectares de pastagens transformados em roça de milho.

Os princípios zootécnicos vêm sendo aplicados com esmero não somente por Roque, mas por boa parte dos produtores locais, trazendo inúmeras consequências benéficas ao estado. Para se ter uma ideia, de acordo com Valentim e Andrade (2006, p. 156), a adoção de tecnologias na pecuária bovina permitiu evitar o desmatamento de mais de 300 mil hectares de florestas para a implantação de pastagens no Acre entre 1970 e 2002. Nos anos 70, um hectare de pastagem alimentava 1,14 cabeça de gado bovino por ano, mas, de três a cinco anos, após formadas, as pastagens geralmente degradavam. Atualmente, os pastos estabelecidos com gramíneas e leguminosas recomendadas pela Embrapa/Acre, por serem adaptadas às condições ambientais da região, estão apresentando capacidade de suporte de até três cabeças de gado por hectare, quando manejadas em sistema rotacionado.

Roque, um dos introdutores de diversas tecnologias na pecuária acreana desde 2012, vinha se estruturando para plantar, colher e secar milho, disponibilizando o mais energético dos alimentos ao gado como suplementação alimentar. Desde então, vem aumentando a área da lavoura. No tocante a melhorias estruturais, construiu ainda longos cochos cobertos nas áreas de pastagens a fim de suplementar cada boi com 1 kg de milho/dia, que vem sendo engordado a pasto, onde é um dos únicos pecuaristas que mata seus machos inteiros, menosprezando o desconto de R$ 2,00 por arroba dado pelo frigorífico na aquisição de sua boiada cuiuda, na qual afirma com firmeza: "Mesmo o frigorífico descontando R$ 35 (um boi pesa em média 17,5 @ ao abate) do meu boi inteiro, ganho sempre uma a duas arrobas a mais com esse boi, o que não justifica castrá-lo".

A respeito dos frigoríficos atuantes na região, hoje temos uma concentração muito grande de abatedouros da mesma companhia no estado, e o criador fica à mercê das escalas de abate da mesma, caso não queira matar seus animais na Boca do Acre/AM.

Estivemos também visitando um centro de recebimento de grãos, localizada na BR-317, caminho para Boca do Acre, onde essa Cooperativa construiu um silo graneleiro para 100.000 sacos e já instalou outros silos de capacidades carregados de milho vem superando todas expectativas.

Mesmo sabendo das limitações de comercialização de animais para o abate, voltei do Acre muito satisfeito pelo que vi no setor agrícola, pois, de acordo com os órgãos governamentais, a demanda interna por milho é crescente no estado, quando na safra 2011/2012 foi plantada uma área de 42,2 mil hectares de milho (Zea mays L.), com uma produção de 96,6 mil de toneladas, conforme dados do levantamento da CONAB, de junho de 2012.Vários fatores contribuem para a produtividade do milho, sendo os mais importantes a disponibilidade de água e a interceptação de radiação solar.

Com a consolidação da agricultura neste estado, o qual possui 89% de sua vegetação nativa intacta, a instalação de granjas com aves poedeiras vem acontecendo de forma espantosa. Apenas uma delas consumira o equivalente a 20.000 sacos de milho/ano, bem como poderá ser o acelerador da pecuária, chegando a uma incrível lotação de QUATRO cabeças por hectare e fazendo o boi terminado a pasto com suplementação tão preconizado pelos consultores de campo, com o intuito de possibilitar alta renda na atividade pecuária de cria.

Já no âmbito de genética, alguns grandes criadores já pensam também em juntar forças e vender bezerros cruzados de qualidade na desmama para fugir da dependência dos preços fixos estipulados pelos frigoríficos, onde, quem sabe, os próprios abatedouros venham ser os compradores dessa bezerrada Angus para terminarem da forma como acharem melhor, castrados ou não.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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