O Confinador

 

CONFINAMENTO, mais arroba por unidade de área

Marcos Sampaio Baruselli*

O confinamento de bovinos de corte tem sido uma prática de manejo zootécnico cada vez mais em uso no Brasil, sendo que o número de bovinos nestas condições em 2012, segundo dados de Alcides Torres, da Scot Consultoria, apresentados no V Simpósio Tortuga de Confinamento do Mato Grosso do Sul, realizado no mês de abril, em Campo Grande/MS, foi da ordem de 3,9 milhões de cabeças. A previsão para 2013, segundo o mesmo analista, é de crescimento de 15% do total de bovinos confinados, podendo já em 2013 atingir a marca dos 4,5 milhões de cabeças confinadas em todo o território brasileiro.

Os confinamentos de bovinos de corte no Brasil, segundo dados da ASSOCON (Associação Nacional dos Confinadores), estão concentrados, basicamente, nos estados de Goiás (26,4%), Mato Grosso (25,4%), São Paulo (15,1%) e Mato Grosso do Sul (12,1%). Estes estados juntos correspondem a cerca de 80% do total do gado confinado no Brasil.

O sistema de engorda de bovinos em confinamento tem sido adotado por produtores rurais como uma forma não somente de antecipar a idade de abate dos animais, mas também como meio de aumentar a quantidade de arrobas produzidas por unidade de área e o lucro da atividade pecuária.

Essencialmente, o confinamento aumenta a produção e os lucros das propriedades rurais porque permite antecipar a idade de abate dos bovinos, além de reduzir o ciclo de produção e aumentar o giro de capital dentro da porteira.

Os aspectos estratégicos e econômicos da implantação de um confinamento incluem redução da lotação na seca, distribuição das receitas, valorização das arrobas produzidas, aumento na escala de produção e redução dos riscos climáticos.

Em uma propriedade rural, confinar os garrotes e os bovinos com 24 a 36 meses, ao invés de engordá-los em regime de pasto, permite um significativo aumento da quantidade de arrobas produzidas por hectare/ano.

Os produtores rurais que adotam o confinamento de garrotes e bois de 24-36 meses, usualmente o fazem na entressafra, podendo adotar um ou dois ciclos por ano. O confinamento também é um sistema de engorda de animais de descartes, como matrizes inférteis que ao serem confinadas agregam mais arrobas e valor no momento da venda ao frigorífico. Há quem confine também fêmeas jovens oriundas de cruzamentos industriais visando atender mercados específicos de carne de novilhas com alto teor de marmoreio e elevada maciez da carne, gerando grandes possibilidades do produtor receber a mais por cada arroba produzida. Outro nicho de mercado que agrega valor à arroba produzida de bovinos de corte confinados é o sistema de produção denominado superprecoce, que consiste num animal de elevado padrão racial, que logo após a desmama é diretamente encaminhado ao confinamento por um período de cerca de 5 meses e abatido por volta dos 14 meses de idade, com cerca de 17 arrobas.

Contudo, de um modo geral, no Brasil, o tempo de confinamento de garrotes e bois de 24 - 36 meses é de cerca de 90 dias, com peso de entrada de 12,5 arrobas e de saída de 18,1 arrobas. Os ganhos médios de peso diários, em dietas com 65% de concentrado e 35% de volumoso, são da ordem de 1,56 kg/cabeça, em muito superiores aos ganhos de peso de bovinos de corte em regime de pasto no período da seca.

A época da seca, período de quatro a seis meses por ano na maior parte do Brasil Central, é considerada como ponto de estrangulamento da produtividade da pecuária de corte em regime de pasto devido, basicamente, à baixa oferta de pastagens, à má qualidade das pastagens e aos baixos ganhos de peso ou, até mesmo, à perda de peso dos animais nesta época do ano. É justamente neste período que o produtor rural faz uso do confinamento, servindo-se de um sistema de produção de arrobas capaz de reverter o quadro de baixa produtividade da atividade pecuária tradicional.

De acordo com dados do CEPEA, os ganhos de produtividade da pecuária de corte nacional, em kg de equivalente carcaça por ano, entre 1990 e 2008, saltaram de 28 kg para 47,7 kg de equivalente carcaça por ano. Embora tenha apresentado um crescimento ao longo das últimas duas décadas, a produtividade pecuária é ainda considerada muito aquém do seu real potencial.

Pode-se dizer que os benefícios econômicos do confinamento não se restringem aos animais confinados propriamente ditos, mas também às áreas de pastagens, uma vez que o envio de animais ao confinamento reduz a pressão de pastejo da fazenda justamente no período crítico do ano, sendo esperado um aumento considerável da produtividade e da lucratividade por unidade de área.

Burgui (2012) relata que em uma fazenda o envio de garrotes e bois de 24-36 meses ao confinamento possibilita um aumento na escala de produção das vacas de 15,4%, basicamente por disponibilizar áreas de pastagens que antes eram utilizadas para a engorda dos garrotes e bois. Com mais vacas na propriedade, aumenta-se não somente o número de bezerros nascidos por ano, mas também a quantidade de arrobas produzidas por unidade de área.

Para o produtor rural poder usufruir dos benefícios do confinamento, faz-se necessário o uso correto de tecnologias voltadas para o sistema, entre as quais se destacam as instalações, que devem ser construídas visando atender certas necessidades básicas dos animais, como área de cocho, bebedouro, tipo de piso e espaçamento (metros quadrados por animal), e as necessidades ambientais, como controle de efluentes e de pragas.

De um modo geral, o sistema de confinamento a céu aberto, isto é, sem nenhum tipo de cobertura, disponibiliza um espaçamento por animal de 10 a 14 metros quadrados na época da seca, sendo recomendadas área duas vezes maior no período das águas por causa da presença de lama.

O número de animais por curral gira em torno de 100, desaconselhando-se grandes quantidades, por questões de manejo e comportamento animal.

As dimensões padrões de cada curral do confinamento são da ordem de 70 metros x 20 metros, com chão batido (3% a 5% de declividade) e linha de cocho de 70 metros em frente ao curral. A água deve ser abundante e de boa qualidade, com manejo de limpeza dos bebedouros eficiente, ao menos duas vezes por semana.

Recomenda-se área cascalhada em frente ao cocho de cerca de três metros ao longo de toda a extensão. As dimensões mais utilizadas são Largura no topo: 0,7 metro; Largura no fundo: 0,5 metro; Profundidade: 0,5 metro; Borda superior: 0,7 metro do solo.

Outro ponto fundamental para a adoção do confinamento refere-se ao correto balanceamento e manejo da ração animal, no qual o uso de aditivos nutricionais, zootécnicos, tecnológicos e melhoradores de desempenho são altamente desejáveis e recomendáveis.

O confinamento de bovinos está relacionado não somente com altos níveis Tabela 1 - Descrição dos animais e composição da dieta de bovinos de corte confinados Peso inicial em jejum 360 kg Peso final em jejum 520 kg Raça dos animais Nelore Tamanho corporal Nelore de grande porte Uso de ionóforos Monensina (25 ppm) Uso de implantes Nenhum 30 - JUNHO 2013 de produtividade, mas também com altos desafios metabólicos e comportamentais dos animais, o que justifica o uso das diversas classes de aditivos, desde que estejam devidamente registrados e de uso autorizado pelo MAPA/DF.

Entre os ingredientes e aditivos usualmente empregados nos confinamentos destacam-se os melhoradores de desempenho, como a monensina sódica, ionóforo capaz de melhorar a conversão alimentar. Seu uso se faz via núcleo mineral que é adicionado diretamente na ração, o que dispensa a construção de cochos exclusivos para suplementos minerais nos currais de confinamento.

As fontes de minerais de eleição para o balanceamento das dietas de bovinos confinados são os minerais orgânicos, compostos mais biodisponíveis e menos tóxicos, capazes de promover melhores respostas zootécnicas quando comparados com outras fontes. Entre os benefícios do uso de minerais orgânicos em confinamentos incluem-se aumento do ganho de peso, melhor conversão alimentar, aumento da concentração dos minerais na carne, além de estímulo do desenvolvimento da flora do rúmen, o que torna o processo de digestão dos alimentos mais eficiente como um todo.

Outros aditivos de interesse incluem os probióticos, como as leveduras vivas, que também têm sido empregadas com sucesso nas dietas de bovinos confinados, visando melhorias no ambiente ruminal com melhor adaptação dos animais à nova dieta, além de estabilizar o consumo de alimentos e controlar a acidez ruminal e outros distúrbios típicos do confinamento relacionados com a ingestão de grandes quantidades de ração concentrada.

As vitaminas, com destaque às lipossolúveis A e D, também são empregadas no balanceamento da ração de bovinos confinados, assim como a ureia pecuária, uma boa fonte de enxofre, sal branco e fosfato bicálcico. Todos estes ingredientes e aditivos somados compõem o núcleo mineral que deve ser misturado aos demais ingredientes da ração, como milho, farelos de soja, algodão ou amendoim e alimentos volumosos.

Quanto a este último grupo, os mais empregados são silagens de milho, de sorgo, de cana; cana-de-açúcar e bagaço de cana. Há uma clara tendência de redução na dieta das proporções dos alimentos volumosos em detrimento do aumento dos concentrados, principalmente nos confinamentos do Brasil Central.

Ressalta-se que quanto maior a quantidade de concentrado na dieta, maiores serão os desafios fisiológicos, digestivos e produtivos dos ruminantes, fazendo-se oportuno o uso correto dos diversos aditivos citados acima e disponíveis hoje ao produtor rural para o perfeito balanceamento da ração, promovendo não somente bem-estar animal, como também elevadas respostas produtivas dos bovinos de corte confinados.

Aspectos técnicos e econômicos relacionados às dietas do confina mento incluem o custo por tonelada de matéria seca fornecida no cocho, o cálculo do consumo em kg de matéria seca por animal/dia, o valor em reais/dia por animal confinado, os ganhos de peso, a conversão alimentar e o custo da arroba produzida, que também é chamado de preço de equilíbrio do sistema.

Como exemplo de um relatório de prestação de serviços ao confinador, segue na tabela 1, um balanceamento de dieta elaborado em setembro de 2012 com base nas descrições dos animais e na disponibilidade dos ingredientes regionais.

Na tabela 2 observa-se o relatório técnico que demonstra o desempenho econômico do confinamento de bovinos de corte, como custo total do ganho, em reais por arroba, o custo diário total, o ganho de peso diário, a conversão alimentar e os teores de energia e proteína da dieta.

Por fim, a prestação dos serviços técnicos especializados em confinamento deve incluir orientações básicas sobre a construção e a instalação do confinamento e orientação sobre o planejamento alimentar dos animais, como escolha dos ingredientes, formulação da ração, monitoramento dos estoques e dos preços de cada ingrediente.

Recomenda-se ao produtor rural entrar em contato com o assistente técnico especializado de sua confiança no momento de balancear a ração e comprar o núcleo mineral, visando, desta forma, obter um correto balanceamento entre os ingredientes e o estabelecimento da melhor relação entre o custo e o benefício do sistema de confinamento de bovinos de corte.

*Baruselli é zootecnista e coordenador Nacional de Bovinos de Corte e Confinamento da Tortuga - [email protected]