Feno & Silagem

 

Ensilagem de cereais de INVERNO

Renato Serena Fontaneli*

A produção animal para ser racionalmente conduzida depende de um adequado planejamento forrageiro que garanta a estabilidade produtiva e permita projetar as despesas e receitas. A sazonalidade produtiva das pastagens é marcada pelos efeitos das intempéries climáticas. Na região Sul, geadas e estiagens e, nas regiões Norte e Centro-Oeste, estações secas e chuvosas levam à alternância na produção de pastagens, ou seja, excesso em condições favoráveis (regime hídrico e temperatura) e escassez (secas e baixas temperaturas). Para contornar tais efeitos sobre a produção animal, a racionalidade humana desenvolveu formas de conservar a forragem do período de abundância para ser utilizado no período de escassez.

A fermentação da silagem promove diversas reações químicas que têm como resultado o desaparecimento parcial dos substratos fermentecíveis e o aparecimento de novos produtos (ácidos orgânicos, aminas, amônia). Neste processo, parte da biomassa é perdida em forma de calor e seus substratos são degradados a compostos mais simples, ou são metabolizados pelos micro-organismos e transformados em novos produtos (acetato, butirato e lactato). Tais perdas são parcialmente compensadas, pois a silagem resultante pode possuir uma maior concentração energética que a forragem original.

Vários fatores interferem na qualidade da obtenção de uma boa silagem, por ser um processo fermentativo no qual nem todas as variáveis são controladas. Com isso, obtem-se um produto de qualidade variável.

Uma das tecnologias utilizadas para melhor controlar o processo fermentativo e garantir uma adequada fermentação é a utilização de inoculantes com micro-organismos homofermentativos, os quais permitem a obtenção de ácido lático e, com isso, rápida estabilização da silagem com menor degradação dos nutrientes.

O uso de aditivos na ensilagem tem por premissa a redução nas perdas de MS, a elevação no valor nutritivo ou a melhora na estabilidade aeróbica do produto final. Nesse sentido, vários fatores podem interferir na eficiência do uso de aditivos, como características da espécie utilizada, temperatura e pH da massa, teor de carboidratos solúveis e população de microrganismos epifíticos.

Níveis elevados do teor de umidade facilitam a compactação, embora seja indesejável do ponto de vista fermentativo, pois excesso de umidade pode resultar em alta produção de calor, desinteressante pela ocorrência de fermentações indesejáveis e redução da digestibilidade dos nutrientes (ÍTAVO & ÍTAVO, 2008). As perdas por efluentes estão relacionadas à atividade de água, associada ao teor de MS da forragem a ser ensilada e também ao tratamento físico aplicado ao material no momento do corte ou uso de aditivos.

Há uma ampla variedade de volumosos que podem ser utilizados na formulação de rações para o gado. Muitas destas forragens podem substituir parcial ou totalmente outras nas rações sem prejuízo no desempenho dos animais e com menor custo.

SILAGEM DE CEREAIS

Em muitos países, a utilização das silagens de cereais de inverno como fonte de volumosos de qualidade é prática comum. Os animais que recebem silagens de cereais de inverno (planta inteira) como volumoso apresentam níveis adequados de desempenho. Na região Sul do Brasil, os cereais de inverno são cultivados com os propósitos de produção de grãos, cobertura para o sistema plantio direto e para o forrageamento animal, diretamente como pastagens ou conservadas como feno ou silagens. As pastagens de cereais de inverno, apesar de renderem menos que o milho (tabela 1) são excelentes plantas forrageiras durante o estádio vegetativo porque apresentam elevados níveis de digestibilidade e proteína, baixos teores de fibra. Essas características permitem aos animais atingirem bons níveis de ingestão de MS, boas taxas de ganho em peso (maior que 1,0 kg/d) e produções elevadas de leite (mais 18 kg/vaca/d). Porém, com a maturação há uma intensa modificação nas taxas de folhas/colmos, reduzindo a digestibilidade e a concentração de proteína, e aumento do teor de fibras, com isso reduzindo o consumo e, consequentemente, o desempenho dos animais. Comparativamente, os cereais de inverno produzem silagens de plantas inteiras inferiores energeticamente à silagem de planta inteira de milho devido a diversos fatores: constituição anatômicas, morfológicas e físico-químicas.

Apesar disso, a prática da elaboração da silagem de cereais de inverno deve ser incentivada, principalmente, pelos seguintes fatores: utilização da terra no período do inverno para produção de volumosos de qualidade; redução dos riscos de sua falta por intempéries climáticas; redução da competição das áreas de verão pelo plantio de milho para silagem, o que permite que esse seja utilizado para produção de grãos destinados à comercialização; e geração de renda com a venda de silagem excedente.

VALOR NUTRITIVO DOS CEREAIS

A tabela 2 contém a composição nutricional típica de diferentes culturas mais utilizadas para o processo de ensilagem. Os valores são médias de análises obtidas no Laboratório de Nutrição Animal do Centro de Pesquisa em Alimentação da Universidade de Passo Fundo (CEPA – UPF) e estão sujeitas à alteração, a medida que são incorporadas novas amostras a população original para cada tipo de forrageira. Há uma variação grande nos nutrientes devido aos diferentes tipos de solos, disponibilidade água, estação de crescimento, programa de fertilização e, principalmente, grau de maturidade no momento da colheita.

Um exemplo de variação para silagem de aveia está na tabela 3. Existem vários trabalhos demonstrando a variabilidade da composição nutricional em função do estádio vegetativo das espécies.

ASPECTOS DA ALIMENTAÇÃO

Para o uso de forrageiras alternativas na ração, devem ser observados os seguintes aspectos:

1. Trabalhe sob orientação técnica ao selecionar a forrageira mais indicada para as condições edafoclimáticas de sua propriedade. Esse procedimento permite ter um suporte sobre o manejo a ser empregado (fertilizações, controle de pragas e momento para colheita).

2. Testes da composição nutricional devem ser utilizados devido à grande variação existente entre e dentro do mesmo tipo de forrageira.

3. Se as plantas foram ensiladas com teor de umidade entre 65% e 70%, adequadamente picada (1,0 a 5,0cm), bem compactada, vedada, resultará em uma silagem bem fermentada de boa qualidade.

4. Rações balanceadas para FDN (fibra em detergente neutro) na base de 0,75% a 0,85% de FDN do volumoso em relação ao peso corporal são um bom referencial para a formulação.

5. A colheita no momento apropriado é crítica para obtenção de forragem com valor nutritivo desejado. A digestibilidade de muitas dessas espécies reduz rapidamente com o avanço da maturidade. Caso a colheita seja atrasada o consumo, a digestibilidade e a produção de leite serão reduzidas.

6. O período de adaptação para o novo alimento (silagem) deve ser gradual e deve ser no mínimo de 15 dias.


 LIVRO DO IAPAR ENSINA A PREPARA SILAGEM

É possível obter uma alimentação bovina eficiente, que melhore a qualidade do leite sem onerar o custo de produção? Sim, é possível. Os procedimentos técnicos para chegar a esse resultado – e para resolver outras dúvidas dos produtores – podem ser encontrados na publicação "Silagem de Milho na Atividade Leiteira do Sudoeste do Paraná", que está sendo lançada pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). A obra custa R$ 10.

A orientação vai "do manejo de solo e seus nutrientes à ensilagem de planta inteira e grãos úmidos", conforme indica o título da obra. O livro, de 125 páginas, é parte de um projeto coordenado pela pesquisadora Norma Kiyota, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

"O livro resulta de pesquisas feitas pelos autores, conjugadas com a produção técnico-científica já existente, para oferecer um material que trata o tema como um todo", explica Norma. Assim, o material foi elaborado por pesquisadores de três diferentes áreas: socioeconomia, solos e produção animal. São autores os pesquisadores do Iapar Norma Kiyota, Renato Yagi, Simony Marta Bernardo Lugão, Vanderlei Bett, Jonez Fidalski e José Antonio Cogo Lançanova, juntamente com o médico-veterinário José Antonio Nunes Vieira e o engenheiro-agrônomo Valério Moro, ambos da Emater-PR.

A publicação é direcionada para as condições encontradas nas unidades de produção leiteira do Sudoeste do Paraná, considerando: fatores socieconômicos (como estrato fundiário, agricultura familiar; condições de investimento; condições de solo e clima (favoráveis à produção de milho) e, ainda, as condições tecnológicas (para produção de leite a pasto).

A publicação pode ser adquirida pelo site www.iapar.br.