Escolha do Leitor

Em busca da LONGEVIDADE

Descarte involuntário é um dos gargalos para a seleção genética da característica

Pedro Rocha Marques*

Na literatura existem diversas definições para longevidade, porém, neste artigo será considerada a definição vida útil produtiva da vaca, que compromete o período entre o primeiro parto até o último bezerro desmamado com qualidade. A seleção por longevidade é controversa e inconclusiva, pois existem relatos em acordo e em desacordo quanto ao êxito em um programa de melhoramento genético. Contudo, é unanimidade de que ela contribui para redução dos custos do sistema de produção de cria ou ciclo completo, pois gera maior proporção de vacas adultas no rebanho, com menor demanda energética e maior produção de leite em relação às vacas de primeira e segunda cria, por exemplo.

A seleção direta para as características de longevidade apresenta duas dificuldades, a baixa herdabilidade e o fato dos registros completos das vacas ficarem disponíveis somente após a sua morte ou descarte. Portanto, eleva-se o intervalo entre gerações e acarreta-se em ganho genético anual reduzido. Além disso, as principais causas de descarte de vacas em rebanhos bovinos comerciais brasileiros são involuntárias, pois estão relacionadas a manejos nutricionais, sanitários e reprodutivos inadequados.

No entanto, diversos estudos indicam que a longevidade em conjunto com o acasalamento aos 14 meses apresenta de 4,28 a 13,46 vezes maior importância econômica que características de crescimento como o peso a desmama e o peso ao sobreano. O estudo desenvolvido por JORGE et al. (2006) confirma a sentença acima, na qual os resultados para sistemas de produção baseados em ciclo completo foram de R$ 3,20 para cada 1% de aumento na taxa de prenhez e R$ 10,15 para cada 1% de aumento na taxa de desmama, enquanto que os valores para peso a desmama e peso da vaca foram R$ 0,40 para cada 1 kg elevado e R$ 0,09 para cada 1 kg de peso da vaca elevado, indicando maior importância econômica das características reprodutivas em relação às características de produção.

A taxa de descarte recomendada para vacas e reposição com novilhas em um plantel deve ser de 10% a 20% para sistemas com taxa de prenhez entre 90% e 80%, respectivamente. Este valores são importantes para redução do intervalo entre gerações e aumento da velocidade de ganho genético sob seleção artificial. Além disso, para um programa de melhoramento genético para bovinos de corte ser realizado de forma adequada é fundamental a definição dos critérios que serão utilizados durante a evolução do programa. Em pecuária de corte sugere-se que os principais critérios para descarte das vacas sejam: idade, intervalo entre partos, repetição de cio e habilidade materna (longevidade).

Como o pecuarista pode desenvolver um programa de melhoramento genético para selecionar as suas fêmeas em reprodução para a longevidade, se esta característica apresenta baixa herdabilidade e dificuldade de mensuração? Os estudos referentes à seleção de touros de raças de corte para longevidade são escassos ou até mesmo inexistentes, embora para bovinos de leite existam alguns estudos que avaliam as características morfológicas que influenciam no atributo em vacas de leite, como pode ser observado na figura 1.

Existem diversos estudos realizados na literatura nacional e internacional avaliando a longevidade em bovinos de leite. Na sua maioria, indicam uma tendência na seleção de vacas por determinadas características morfológicas que influenciam diretamente a longevidade de vacas leiteiras no rebanho. Lagrotta et al. (2010) relatam que a seleção de vacas quanto às características morfológicas, associada à escolha de touros com elevados valores genéticos em um programa de acasalamento para essas características, contribui para a redução do descarte involuntário e, consequentemente, para o aumento na vida útil do rebanho.

No entanto, para realizar a seleção para longevidade em sistemas de produção de bovinos de corte o primeiro passo é eliminar as causas involuntárias de descarte, como as falhas nutricionais, sanitárias e reprodutivas. Após a certificação de que todos estes fatores acima estão adequados, pode-se iniciar a realização do melhoramento genético para longevidade.

A longevidade é importante para a eficiência econômica em fazendas de bovinos de corte, mas a dificuldade da operacionalização em programas de melhoramento genético utilizando esta característica como critério ainda retarda sua utilização de forma mais aplicada no Brasil. Portanto, sugere-se o desenvolvimento de programas de melhoramento genético que se possam estimar a longevidade de fêmeas em reprodução para que o Brasil possa vir a ter rebanhos seguramente mais longevos.

*Pedro Rocha é zootecnista, integrante NESPRO/UFRGS e consultor privado em fazenda de bovinos de corte - [email protected]

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