Entrevista do Mês

 

Sem medo de ser feliz

A agricultura tem fome de terras, principalmente onde existem pastos degradados. Porém, isso pode não ser de todo ruim para pecuária. Leia o porquê nesta entrevista exclusiva com Alcides de Moura Torres Júnior, proprietário da Scot Consultoria, que fala desse e de outros assuntos.

Adilson Rodrigues
[email protected]

Revista AG - A agricultura está engolindo as áreas produtivas no Brasil. Qual o impacto para a pecuária?

Alcides de Moura Torres Júnior – Realmente, a expansão de outras atividades agrícolas está acontecendo sobre terras com pastagens. Mas, há um mundo de pastos para serem convertidos em lavouras. Por isso, a pecuária só tem sentido essa expansão nos estados mais desenvolvidos, cujas terras são mais caras, como no Paraná e em São Paulo. Regionalmente, o impacto é até percebido, mas em nível nacional ainda não. Aliás, a produção de carne bovina tem aumentado.

Revista AG - Entretanto, este processo está iniciando com as áreas de pastagens degradadas ou a fome da agricultura é ainda maior?

Alcides Torres – Esse processo acontece preferencialmente sobre pastagens degradadas e não é incomum que essa substituição pelo cultivo de grãos, por exemplo, seja passageira. Trata-se de uma estratégia dos pecuaristas para recompor a fertilidade do solo, uma vez que não têm capital para tanto. É claro que há decisões sem volta, principalmente, quando a troca acontece com culturas perenes ou semiperenes, como a cana-de-açúcar e o eucalipto. Nesses casos, a geografia da região vai mudar mesmo. Todavia, o Brasil é grande, muito grande.

Revista AG - Mas até que grau este processo deve avançar, pois os brasileiros e o mundo estão famintos por carne?

Alcides Torres - A expansão da agricultura não deverá afetar a produção de carne bovina. Nas regiões onde a pressão é maior, a tendência é de que a produtividade pecuária aumente. Os modelos de produção estão evoluindo e o Brasil deverá consolidar a posição de grande produtor e exportador de alimentos, incluindo carne bovina de qualidade e com preços competitivos.

Revista AG - Para atender a crescente demanda e ainda enfrentar a concorrência, a pecuária brasileira precisará aumentar muito a produtividade?

Alcides Torres – O problema da produtividade é o menor dos desafios que a pecuária deverá enfrentar. As estradas ruins, a concentração dos frigoríficos, os portos congestionados, as leis ambientais draconianas e todo um conjunto de impostos diretos e indiretos anulam toda a competência de nossos fazendeiros, em comparação com os pecuaristas norte-americanos, por exemplo. O conhecimento que o Brasil detém na produção de pecuária tropical é único e o nível de produtividade, como sempre, é estabelecido pelo mercado.

Revista AG - Na década de 70, o boi valia ouro. Já hoje as coisas não são bem assim...?

Alcides Torres - É verdade! Deflacionando- se os valores da arroba do boi gordo na década de 70, em dinheiro de hoje teríamos uma cotação de R$ 350,00. Impressionante. Entretanto, esse tempo passou. Passou porque o rebanho cresceu muito, e muito, mais em função da abertura de novas fazendas, da conquista dos espaços nacionais, do que em produtividade. A arroba atual do boi gordo, falando genericamente, vale três vezes menos do que na década de 70, no século passado. A solução é o aumento da produtividade, mas o objetivo a ser atingido é o aumento do lucro na mesma proporção. Sem lucro não tem aumento de produtividade.

Revista AG - Então, o pecuarista que não se profissionalizar vai quebrar?

Alcides Torres - O pecuarista que não se profissionalizar deixará o ofício, não necessariamente irá quebrar. Aliás, o pecuarista é profissional; o que mudou é o nível de exigências e o estreitamento das margens. E isso tem exigido mais, em termos de produtividade, de gestão, de planejamento e de estratégia, entre outras demandas.

Revista AG - Pensando em 2013, para se manter rentável e competitivo com a agricultura, o boi deve ser abatido mais cedo? Estaria aí o desafio?

Alcides Torres – Assim como aconteceu na agricultura, o que deve nortear o pecuarista não é o peso por boi e sim o peso produzido por área, ou as duas coisas. Da mesma forma que não faz sentido um agricultor falar em caixas de laranjas produzidas por árvore, não tem cabimento um pecuarista informar que abateu um boi de 19 ou [email protected] se tem apenas um boi desses por ha. O melhor seria ele dizer que abateu [email protected] por ha, provenientes de três bovinos/ ha. Menos peso por cabeça, mas mais arrobas por ha. Para saber a quantidade de arrobas produzidas para competir com a agricultura, é fácil. Basta fazer as contas do que sobra explorando uma e outra atividade. A sobra, o lucro, deverá ser semelhante. Quanto à idade, quanto mais cedo melhor, quanto menor melhor, respeitando- se o acabamento.

Revista AG - Por que você diz que o "pecuarista padrão" não sobrevive no Norte do Mato Grosso? Quem é este "pecuarista padrão"?

Alcides Torres – O padrão é determinado pelo comportamento comum, pelo que se faz ordinariamente, de acordo com um protocolo aceito pela maioria. No norte do Mato Grosso, o modelo de exploração corrente terá de mudar em função de dois fatores. O primeiro foi a concentração dos frigoríficos, e, como consequência, as ofertas de compra desceram de nível, os valores diminuíram. O pecuarista terá de produzir mais para ganhar o mesmo. O segundo fator é o Código Florestal, que praticamente não permite a abertura de novas áreas, a fundação de novos pastos com a supressão de florestas. A fertilidade natural até então usada nesse processo, para produção de capim, está proibida por força de lei. Agora, resta o uso de fertilizantes químicos, correção de solo, etc. Um novo sistema de produção deverá substituir o antigo.

Revista AG - Até algum tempo atrás, os ânimos melhoravam quando as exportações de carne bovina andavam bem. No atual momento, é a demanda interna que dá o tom no mercado de carne?

Alcides Torres – O bom desempenho da exportação de carne bovina não significa necessariamente uma boa vida para o pecuarista. Em 2006, por exemplo, a cotação da arroba do boi gordo afundou pavorosamente, tendo registrados na ocasião os piores preços pagos ao produtor na história de pecuária brasileira. Nessa mesma época, o Brasil bateu recordes de exportação. O Brasil exporta uma parcela do que produz, entre 15% e 20%, dependendo do ano, do preço da arroba do boi gordo, do consumo doméstico, das crises econômicas e assim por diante. Mas, é claro, a exportação de carne bovina é importante para o escoamento da produção. A exportação de bovinos vivos também. Com um mercado interno que absorve de 80% a 85% da produção, sempre foi este que deu e dá o tom no mercado da carne bovina. Na resposta à primeira pergunta disse que a produção de carne bovina aumentou e esta elevação tem sido absorvida pela exportação, que está indo muito bem, e pelo consumo doméstico, em função do aumento de renda.

Revista AG - Os preços da arroba do boi gordo seguem estagnados. A situação só vai mudar quando o abate de fêmeas diminuir?

Alcides Torres – A cotação da arroba do boi gordo esteve firme em plena safra, quando normalmente cai. E por que não caiu? Porque o consumo interno está aquecido. A demanda por boiadas também. Dessa forma, a situação de "estagnação" foi boa, pois os preços flutuaram num patamar interessante. O preço não caiu, ou caiu pouco. A pecuária foi salva dos preços deprimidos em função do consumo. Para que a cotação da arroba suba, realmente o abate de fêmeas precisará diminuir. Na contabilidade do abate de bovinos, a quantidade de machos é estável ou com um crescimento comedido. A quantidade de fêmeas varia. Quando o lucro da cria está bom, quando os preços dos bovinos para reposição estão atraentes, vale a pena criar. Quando não estão, as matrizes vão para o abate e, em função disso, a oferta de bovinos aumenta

Revista AG - Acreditava-se que o grande volume de matrizes no abate, ano passado, ocorreu em virtude de descartes dos plantéis de seleção. A história não é bem assim?

Alcides Torres – Não, não é bem assim. Até aconteceu, mas o descarte de matrizes foi realmente generalizado.

Revista AG - Vender gado quinzenalmente aos frigoríficos é um bom negócio ao pecuarista?

Alcides Torres – Quanto maior a quantidade de parcelamentos, melhor. Essa estratégia permite um fluxo de caixa regular, evita-se o estresse de ter de acertar no pico de preço e o risco de inadimplência dos compradores se dilui. Tendo margem, é bom ir vendendo.

Revista AG - Por que você diz que os ágios obtidos pelo pecuarista nos programas de carne não são garantia de lucro?

Alcides Torres – Ágio sempre é bom. Vender com preço acima do mercado corrente é uma maravilha. No entanto, é preciso fazer as contas. Se, para receber o ágio, terei de entregar um bovino acabado com 6mm de gordura subcutânea, precisarei fazer as contas para saber quanto custará essa deposição. Mas, o que disse não foi isso. Disse que apesar de o preço no segundo semestre ser normalmente maior que no primeiro semestre, isso não significa que o lucro será maior. Não é incomum que boiadas terminadas em pasto no primeiro semestre deixem mais dinheiro para o produtor que boiadas terminadas em confinamento no segundo semestre.