Caprinovinocultura

 

Prevenção é sempre o melhor

Eficiência no planejamento sanitário diminui o risco de introdução e disseminação de doenças entre o rebanho

Denise Saueresig
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Estabelecer um detalhado e eficiente planejamento sanitário é medida essencial para ajudar a ampliar a rentabilidade de um rebanho. São as atitudes do produtor que colaboram para diminuir os riscos de introdução e disseminação de doenças que podem inclusive inviabilizar a atividade na propriedade.

A prevenção é sempre a melhor conduta. Afinal, impedir o aparecimento de um problema é bem mais fácil do que ir atrás de soluções quando uma dificuldade aparece. “O planejamento aliado à implantação de práticas de manejo adequadas permite ao criador a redução dos riscos na unidade produtiva e ainda garante um produto seguro ao consumidor. E, além de evitar que os contratempos apareçam, a precaução pode significar economia com gastos relacionados à aquisição de medicamentos e a contratação de mão de obra destinada à solução de problemas”, ressalta o veterinário Antônio Cézar Rocha Cavalcante, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Um programa sanitário requer, antes de tudo, a organização da propriedade e o controle zootécnico do rebanho, o que inclui desde a identificação dos animais até atividades como limpeza e higienização das instalações. “Nesse aspecto, podemos incluir também medidas como o calendário de vacinação e vermifugação de acordo com o sistema de criação, cuidados especiais com as fêmeas prenhes e com as crias, casqueamento e formação de banco de colostro”, enumera o especialista.

O manejo sanitário começa antes mesmo da aquisição dos animais, alerta o veterinário Ricardo Lopes Dias da Costa, pesquisador do Instituto de Zootecnia (IZ) da Secretaria de Agricultura de São Paulo. Na opinião dele, conhecer o histórico da propriedade e da região, buscar informações sobre a espécie e a raça escolhida e a adaptação dessa raça na região são pontos necessários para um bom começo de criação. Comprar animais de produtores idôneos não substitui a quarentena ou os cuidados preventivos, mas já é uma boa indicação de diminuição de problemas. “Há quem diga que ‘ovelhas são animais que gostam de morrer’. Mas isso ocorre porque, normalmente, quando não se realiza um manejo sanitário adequado, o número de animais mortos é relevante, chegando, em algumas propriedades, a 40% ou 50% de mortalidade nos animais jovens. Por isso, o manejo sanitário, principalmente o preventivo, é de extrema importância para o sucesso da criação”, considera.

Pesquisador Antônio Cezar Cavalcante, da Embrapa: “Práticas adequadas reduzem riscos, proporcionam economia e garantem um produto seguro ao consumidor”

Os sistemas de criação animal estão apoiados em três pilares, acrescenta o pesquisador: genética, nutrição e sanidade. “Qualquer falha em um desses alicerces terá reflexo na produção final. A nutrição adequada, por exemplo, melhora a resposta imune, diminuindo a morbidade do rebanho”, declara.

ATENÇÃO AO AMBIENTE

O tipo de instalação que abriga os animais pode ser fator determinante para minimizar ou facilitar a ocorrência de enfermidades. Aspectos como ventilação, temperatura e umidade devem ser observados criteriosamente. “É preciso prestar atenção, por exemplo, à capacidade de lotação que, de modo geral, deve ser de 0,8 a 1,0 m2 por animal. A limpeza do local deve ser realizada diariamente ou pelo menos a cada dois dias, sendo o esterco colocado em local apropriado, de preferência em esterqueira. Após 30 dias de armazenamento, o esterco poderá ser utilizado para adubar culturas e pastagens”, observa Antônio Cavalcante, da Embrapa.

Água limpa e fresca, higiene nos bebedouros e nos cochos também são fundamentais. Sistemas de produção – intensivo ou extensivo – têm suas particularidades. “Deve-se evitar pastos alagados ou demasiadamente úmidos, da mesma forma que as camas, para animais confinados, devem ser limpas e secas. Armazenar rações ou ingredientes de forma correta e cuidar do destino das carcaças de animais mortos também são algumas das formas de se evitar vetores, como moscas e ratos e, portanto, evitar certas patologias. Da mesma forma, é importante evitar que outras espécies, como aves e gatos, permaneçam nas baias ou nos cochos dos ovinos”, orienta Ricardo Costa, do IZ.

PRINCIPAIS PROBLEMAS

Entre os muitos problemas sanitários que afetam os ovinos, os veterinários destacam as parasitoses gastrointestinais, ou verminoses, que são ainda mais frequentes em ambientes tropicais. “O Haemonchus contortus, parasita hematófago, causador da hemoncose, presente no abomaso dos animais, é altamente patogênico, provocando altas morbidade e mortalidade. Aliado a esse fato, a resistência aos vermífugos agrava ainda mais o problema”, aponta Costa.

Outras enfermidades bem comuns são as podridões de casco, as miíases (bicheiras), as pneumonias, as linfadenites caseosas (também conhecidas como mal do caroço), as ceratoconjuntivites e o ectima contagioso. As coccidioses podem acometer, de maneira mais acentuada, os animais confinados, enquanto que as urolitíases (cálculos uretrais) e as toxemias da prenhez envolvem mais os machos (de qualquer idade) com alimentação desbalanceada (principalmente em cálcio e fósforo) e as fêmeas em terço final de gestação, respectivamente. Com a intensificação do manejo e desmame precoce, outra enfermidade que está cada dia mais presente nos rebanhos é a mastite. “Ainda podemos citar outras doenças, como tuberculose, raiva e leptospirose. São problemas de baixa prevalência, mas de extrema importância por se tratarem de zoonoses”, assinala.

VACINAÇÃO

O calendário de vacinação para caprinos e ovinos deve respeitar a legislação vigente e a ocorrência de enfermidades infectocontagiosas na região onde está o rebanho. Abaixo, o pesquisador Antônio Cavalcante, da Embrapa, lista o esquema recomendado.

• Vacina antirrábica: animais de quatro meses em diante e repetição anual. A vacina deverá ser utilizada em áreas endêmicas e onde houver a presença de morcegos hematófagos;

• Vacina contra as clostridioses: animais jovens e reprodutores devem ser vacinados anualmente. Aqueles animais vacinados pela primeira vez devem receber uma dose de reforço quatro semanas depois. Fêmeas gestantes devem ser vacinadas no último mês de gestação. É importante manter a vacinação em dia, especialmente, nas ocasiões de feiras, leilões ou exposições de animais;

• Vacinas contra ectima contagioso, ceratoconjuntivite, pododermatite e leptospirose poderão ser recomendadas, esporadicamente, na ocorrência de surtos;

• Atualmente, o Ministério da Agricultura recomenda que pequenos ruminantes não sejam vacinados contra a febre aftosa.