Leite

 

Nutrição de PRECISÃO

No Brasil, as formulações de rações para bovinos leiteiros ainda são realizadas com base nas exigências nutricionais estabelecidas em países de clima temperado

Mariana Magalhães Campos, Fernanda Samarini Machado, Luiz Gustavo Ribeiro Pereira e Thierry Ribeiro Tomich*

Nos últimos anos, a pecuária leiteira nacional vem lidando com novos desafios, como a crescente percepção dos consumidores quanto à segurança alimentar, o bem-estar animal e os impactos ambientais da agropecuária. Neste cenário de desafios e margens de lucro reduzidas, devido ao histórico aumento dos custos de produção, só existe um caminho a ser seguido: aumentar a eficiência dos sistemas de produção de leite.

O Brasil é apontado como um dos países capazes de suprir parte da demanda crescente de produtos de origem animal no mundo. Somado a isso, tem-se a pressão da sociedade por sistemas de produção sustentáveis econômica, social e ambientalmente, o que deverá conter o avanço da pecuária sobre novas áreas. Neste cenário, tornam-se necessárias métricas de sustentabilidade, ou seja, o estabelecimento de parâmetros e/ou metas que definirão se um sistema de produção é sustentável ou não. Para que métricas de sustentabilidade do sistema possam ser estabelecidas, parâmetros relacionados às diversas áreas do setor produtivo precisam ser avaliados e considerados.

A Nutrição Animal pode influenciar de forma expressiva a viabilidade e a sustentabilidade do sistema de produção, tanto pelo impacto da alimentação do rebanho no custo de produção de leite quanto pela emissão de gases causadores de efeito estufa e pela excreção de agentes poluidores, como o nitrogênio e o fósforo, que podem ser aumentadas quando o manejo nutricional é inadequado. Desta forma, a aplicação do conceito de Nutrição de Precisão (com vistas à máxima eficiência produtiva e ao mínimo impacto ambiental) e a geração de métricas relacionadas à nutrição de bovinos leiteiros contribuirão para que a sustentabilidade do setor produtivo seja estabelecida e alcançada.

A premissa básica da Nutrição de Precisão é o conhecimento das exigências nutricionais dos animais, visando ao estabelecimento das Normas e Padrões de Alimentação para o adequado balanceamento de dietas, considerando a viabilidade técnica (desempenho), econômica (custo de alimentação) e ambiental (emissão de poluentes, como metano, fósforo e nitrogênio).

O conhecimento do consumo de matéria seca e das exigências nutricionais dos animais representa a base da Nutrição de Precisão, visto que dietas balanceadas adequadamente, de acordo com as necessidades diárias de energia, proteína e minerais, proporcionam o uso racional dos alimentos. Consequentemente, contribuem para a minimização dos impactos ambientais e dos custos de produção, otimizando a competitividade, a lucratividade e a sustentabilidade da atividade leiteira.

Pesquisas têm sido feitas em todo o mundo buscando o melhor ajuste da dieta à necessidade nutricional do animal. Em países de pecuária desenvolvida, comitês de pesquisadores são frequentemente formados para reunir e organizar o conhecimento em nutrição de ruminantes para a elaboração de normas e padrões de alimentação de seus rebanhos bovinos, levando em consideração as peculiaridades de suas realidades. A formação destes comitês permite que sejam estabelecidas as melhores formas de estimar as exigências nutricionais e o valor nutricional dos alimentos, garantindo diretrizes para a formulação de rações de máxima eficiência bioeconômica, a maximização da produção e o fortalecimento da competitividade dos sistemas de produção.

No Brasil, as formulações de rações para bovinos leiteiros ainda são realizadas com base nas exigências nutricionais estabelecidas em outros países, principalmente naqueles de clima predominantemente temperado. As pesquisas de validação de sistemas nutricionais têm evidenciado incompatibilidade de aplicação dos sistemas gerados em condições temperadas às condições tropicais. Entretanto, o uso de tabelas e sistemas estrangeiros (sistema americano NRC, australiano CSIRO, inglês AFRC e francês INRA) ainda é a opção disponível no Brasil para produtores, técnicos e pesquisadores. Desta forma, torna- se necessário o estabelecimento das Normas e Padrões Nacionais de Alimentação de bovinos leiteiros, considerando que a composição genética do rebanho, os alimentos disponíveis e o clima são típicos e únicos de ambientes tropicais.

A real importância em se determinar as exigências nutricionais de bovinos de leite no Brasil está em se obter informações mais próximas da necessidade de cada nutriente pelo animal, em condições tropicais, e na utilização de tais informações para o correto balanceamento de rações para diferentes níveis de desempenho, objetivando a adoção da Nutrição de Precisão, que permite melhorar a produtividade do rebanho, de forma sustentável.

Avaliando os resultados publicados na literatura nacional sobre as exigências nutricionais de bovinos, observa-se que a maioria das pesquisas foram efetuadas com animais de corte. Trabalhos nacionais envolvendo a quantificação das exigências nutricionais de bovinos leiteiros são escassos. Percebe-se, portanto, que estudos mais específicos para gado de leite ainda precisam ser conduzidos para aumentar o banco de dados e preencher lacunas ainda existentes, possibilitando que as normas e os padrões de alimentação sejam estabelecidos e que tais modelos sejam constantemente atualizados.

Depois de 20 anos de esforços do Prof. Norberto Mario Rodríguez e da equipe do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi instalado em Belo Horizonte (MG) o primeiro Laboratório de Calorimetria Animal da América Latina. Já estão sendo conduzidos experimentos em parceria com a Embrapa e a Universidade Federal de Viçosa (UFV) para avaliar as exigências nutricionais para vacas leiteiras em gestação, bem como para bezerros jovens.

A Embrapa também adquiriu câmaras respirométricas, em operação desde dezembro de 2012, no Laboratório de Metabolismo e Impactos Ambientais da Pecuária. Até o momento, as câmaras respirométricas estão sendo utilizadas para a condução de projetos de pesquisa da Embrapa Gado de Leite, em parceria com a UFV, a UFMG e a Universidade Federal de Lavras (UFLA). A expectativa é obter os primeiros resultados em cinco anos.

O Laboratório de Metabolismo e Impactos Ambientais da Pecuária pertence ao Complexo Multiusuário de Bioeficiência e Sustentabilidade da Pecuária. O Complexo foi idealizado a partir da demanda global de aumentar a eficiência dos sistemas de produção de leite e de carne em clima tropical, com baixo impacto ambiental.

Localizado no Campo Experimental José Henrique Bruschi, da Embrapa Gado de Leite, em Coronel Pacheco/ MG, o complexo tem capacidade para abrigar aproximadamente 400 animais, entre pequenos e grandes ruminantes, além de oferecer estrutura de apoio às atividades de pesquisa, como salas de ordenha, de preparo de animais experimentais, de preparo de amostras e dietas, câmaras frias, vestiários e dormitórios.

Diante dos novos e crescentes desafios para produção sustentável, o Complexo foi estruturado para o desenvolvimento de pesquisas multidisciplinares – nas áreas de nutrição, melhoramento genético, qualidade do leite, reprodução, economia, sanidade e impactos ambientais – da atividade pecuária com objetivo de estabelecer estratégias de manejo e melhoramento animal que contribuam para o aumento da eficiência alimentar, produtiva, com mínimo impacto ambiental.

O Complexo Multiusuário de Bioeficiência e Sustentabilidade da Pecuária permite a formalização de parcerias no âmbito público e privado, que atenderão às diversas demandas tecnológicas do setor agropecuário. A atuação de caráter multidisciplinar e interinstitucional do Complexo permitirá produzir resultados de pesquisas que auxiliarão produtores, indústrias e governo a atuarem de forma mais eficiente e sustentável. As tecnologias geradas pelas pesquisas nos laboratórios do Complexo Multiusuário beneficiarão toda a sociedade brasileira, em especial o setor pecuário brasileiro.


MENOS PROTEÍNAS NA DIETA É UMA DAS PREMISSAS DA TÉCNICA

Testes feitos no sistema de produção de leite da Embrapa mostram que em muitos casos é possível diminuir o teor de proteínas da dieta sem comprometer o desempenho do animal. As proteínas são os compostos mais caros na dieta animal, assim como ocorre na alimentação humana. Portanto, utilizar menos farelo de soja, algodão e amendoim, para citar as fontes de proteína mais comuns no Brasil, significa economia.

Na Embrapa Pecuária Sudeste, o pesquisador Alexandre Pedroso fez um teste em 2012 num rebanho de 90 vacas em lactação, com produção média de 27 quilos de leite por vaca/dia. No período das águas, em que as vacas pastejam forragem de alta qualidade, foi possível diminuir a inclusão de fontes proteicas em 62 quilos por dia, aumentando o milho e reduzindo o farelo de soja. Isso representou uma economia de R$ 1,32 por vaca diariamente. No período, o dinheiro poupado totalizou R$ 24.870.

E as vantagens não são apenas econômicas. Eliminar o excesso de proteína da dieta significa menos nitrogênio excretado pelos animais. O nitrogênio é o principal elemento das proteínas, além de potencialmente poluidor de águas e solos. Na prática, para saber se seu rebanho consome mais nutrientes do que o necessário, é preciso contar com o auxílio de um profissional capacitado em nutrição animal.

MEDIDA SIMPLES

Eliminar o uso excessivo proteínas é apenas um dos itens estudados pela nutrição de precisão. Outras possibilidades são buscar a eficiência no uso de minerais e de energia, por exemplo. Para isso, segundo Alexandre Pedroso, não são necessárias máquinas sofisticadas. “Nutrição de precisão é basicamente ser preciso ao alimentar os animais: elevar os padrões de qualidade, ter um controle rígido do fluxo de insumos, evitar desperdícios, entre outras medidas simples”, explica.

*Pesquisadores da Embrapa Gado de Leite