Caindo na Braquiária

Proporção de abate de matrizes

Dr. Giuliano Gober é médico e pesquisador aposentado, com 74 anos vividos entre hospitais e universidades. E no alto da grisalha sabedoria de quem cresceu ao lado de vacas na fazenda de sua família em Goiás, declarou-se arrependido de ter passado grande parte da vida longe da sua maior paixão: “vacas”. Hoje, esse estoico pecuarista enxerga a cria como fonte de dinheiro vivo, descrevendome a satisfação de ser pecuarista, profissão que o pai e o avô assumiram desde que utilizavam a cerca do curral para subir no alazão.

Mesmo empolgado pelo promissor exórdio de seu relato, me fiz de rogado e parti para cutucar a ferida de todo criador, questionando-o a respeito do lucro que seu criatório produz. Dr. Gober mais do que depressa retirou uma caderneta com as mais variadas anotações coberta de números escritos a lápis, ferramenta que usou em explanação.

“Zadra, vamos fazer aqui uma análise rápida de custos e receitas num criatório que vende bezerros, comparando- o a um rebanho de bois de engorda”, iniciando seu prólogo: “Se tivermos um rebanho com 1.000 matrizes, desmamando 700 bezerros, deveremos apurar com a venda dos mesmos (machos e fêmeas) em torno de R$ 500.000,00, se forem desmamados pesados, receita essa que deve ser adicionada a R$ 300.000,00 da venda de 300 fêmeas vazias (vacas adultas e novilhas vazias), somadas, então, geram R$ 800.000,00 ao caixa da fazenda. Já o custo operacional anual desse rebanho de matrizes e novilhas de ano e sobreano chegam a R$ 133.200,00, considerando custo mensal de 700 fêmeas adultas e 300 novilhas compradas para repor as fêmeas vendidas anualmente (custo mensal das vacas gira em R$ 15,00 e das novilhas fica em torno de R$ 10,00 mensais), devendo ser adicionados, ainda, R$ 45.000,00 investidos em IATF e R$ 255.000,00 na compra de 300 novilhas Nelore. Chegamos num custo total de R$ 433.200,00 para se produzir 700 bezerros. Dessa maneira, encontramos um lucro de R$ 366.800,00 (R$ 800.000 – R$ 433.200) com nossa operação”, concluiu.

Destituído de qualquer pilhéria, Dr. Giuliano deu sequência ao raciocínio detalhando suas contas comparativas: “O Investimento na compra de 1.000 garrotes será na ordem de R$ 1.100.000,00, mantendo-os 12 meses no pasto num custo mensal de R$ 12,00. Dessa maneira, chegamos num custo anual desses garrotes de R$ 144.000,00, somando então R$ 1.244.000,00. Após 12 meses de engorda, o invernista venderá seus bois por R$ 1.500.000,00 (R$ 1.500,00 por boi)”. Continuou sua diatribe demonstrando o resultado do caixa de R$ 256.000,00 para o sistema de engorda.

Diante da forma cartesiana de raciocinar do Dr. Gober sobre a pecuária, observei que tal atitude é carente no nosso meio, onde tradicionalmente a engorda tem o estigma de ser mais lucrativa que a cria e intimida possíveis análises por parte da classe pecuária e, sobretudo, de consultores da área, os quais têm o dever de pensar mais profundamente a respeito.

Numa discussão muito salutar, o cirurgião-pecuarista pediu a palavra para me inquirir: “Zadra, há mais de seis anos que o rebanho matrizeiro faz parte da realidade das plantas frigoríficas, os quais apresentam um nível de abate acima de 38%, por vezes passando de 40%, como nesta época de descarte. Isso vai diminuir agora com a virada do ciclo pecuário?”.

Respondi de bate-pronto: “Venho me questionando a todo instante a ‘alta’ proporção de abate de matrizes nos últimos anos, que está ligada logicamente à fase do ciclo pecuário, mas nada me tira da cabeça que, pela diminuição da idade de abate do nosso rebanho e consequente adiantamento da idade de puberdade das novilhas, teremos daqui em diante essa proporção, devendo-se manter o rebanho de 200 milhões de cabeças”.

Assim, desfrutei da companhia desse sábio pecuarista, o qual mais uma vez me fez pensar a respeito de nosso maravilhoso sistema pecuário.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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