Integração

 

ILP

Resultados de um experimento de longa duração na Integração da Lavoura de Soja com Bovinos de Corte no Sul do Brasil

Paulo César de Faccio Carvalho & Ibanor Anghinomi*

Os sistemas integrados de produção agrícola e pecuária são sistemas planejados para a exploração de cultivos agrícolas e produção animal na mesma área, de forma concomitante ou sequencial, ou entre áreas distintas, explorando sinergismos e propriedades emergentes derivadas de interações nos compartimentos soloplanta- animal-atmosfera do sistema. Esses sistemas são conhecidos sob a denominação coloquial de integração lavoura-pecuária (ILP), usualmente correspondendo a associações entre pecuária de corte ou leite e cultivos como soja, milho, arroz, eucalipto, algodão, dentre outros.

O interesse nesses sistemas esteve em baixa até recentemente, quando a agricultura evoluía pelo caminho da intensificação do uso de insumos e da especialização dos cultivos. Como resultado, houve perda de biodiversidade nos ecossistemas agrícolas, poluição ambiental e fracionamentos de habitats, dentre várias decorrências indesejáveis. Segundo a FAO, essas consequências mostram a necessidade de se trabalhar novos paradigmas na agricultura, novas formas de produzir alimento, conciliando produção com meio ambiente. E eis que os antigos sistemas integrados e diversos, que haviam sido preteridos pela agricultura contemporânea, retomam seu valor e interesse, agora em novo patamar. O fato de serem reconhecidamente conservativos, ao terem por base a reciclagem de nutrientes e a diversificação, mas agora construídos sobre tecnologias como o plantio direto, os credencia como “terceira via tecnológica” para o desafio da produção de alimentos, que agora exige produtividade com elevado respeito ambiental.

É neste cenário que em 2001 foi iniciado o experimento sobre a integração entre a lavoura de soja e a pecuária de corte do Sul do Brasil. O local escolhido foi a confluência dos municípios de Tupanciretã, Jóia e São Miguel das Missões, região de maior área de plantio de soja no Rio Grande do Sul. Um clima subtropical com verões quentes, Latossolo Vermelho Distroférico com 540 g/kg argila, pH baixo (4,7), matéria orgânica de 3,2% e teores elevados de alumínio caracterizam o local. Nesta região, o sistema agrícola predominante é o cultivo da soja no verão, enquanto no inverno as áreas ficam com cobertura de aveia para produção de palhada para o plantio direto. Há pouca rotação com milho, pois a ocorrência de déficit hídrico no verão é recorrente. O trigo não tem sido opção, pois as frustrações são recursivas. Logo, a soja é a principal cultura da região (4.197 mil ha no RS), e a maioria dos produtores vive de uma única colheita anual. Colheitas essas que resultaram em frustrações de safra em 44% dos anos agrícolas desde 1976. Disto resulta um ambiente de produção de elevado risco e insegurança.

Foi com o intuito de se aportar soluções a esses sistemas pouco diversificados que a UFRGS implementou um experimento propondo a rotação da soja com o gado na entressafra. Isso significava trabalhar com animais em áreas agrícolas de alto valor e manejadas sob plantio direto, com todos os cuidados na conservação dos solos e manutenção de cobertura permanente de palhada. Uma situação em que a totalidade dos técnicos e produtores vê os animais como indesejáveis. Para estudar essa proposta foi primeiramente necessário estabelecer parceria científica entre os adeptos de Solos e os de Plantas Forrageiras e Agrometeorologia, pois o desafio que se apresentava era multidisciplinar. Segundo, foi necessário estabelecer parceria com um produtor rural que fosse arrojado a ponto de permitir que uma situação tal pudesse ser estudada em longo prazo na sua propriedade. E constituiu-se parceria com Sr. Armando Chaves Garcia de Garcia e Sra. Suzana Pereira Garcia de Garcia & Filhos, proprietários da Fazenda do Espinilho. Por último, havia necessidade de recursos de instituições que provessem os elevados custos de um protocolo tão complexo, e distante de Porto Alegre. Nesses 12 anos destacaram- se os apoios de CNPq, Fundação Agrisus, Fapergs, Embrapa e MAPA.

Contraste de corte entre 40 e 10 cm fala por si

O dispositivo experimental tem aproximadamente 20 ha, estabelecido com todos os rigores científicos de controle local (bloqueamento), aleatorização e repetição (3) de tratamentos. Além do “sistema controle”, caracterizado pelo cultivo da soja em rotação com cobertura de inverno sem pastejo, outros quatro tratamentos foram estabelecidos com pastos consorciados de aveia e azevém, caracterizando variações em taxas de lotação, desde muito pesadas a bem leves (alturas de manejo do pasto de 10, 20, 30 e 40 cm). A soja é semeada no final de novembro/ início de dezembro e colhida em abril. O pasto de aveia é então semeado, se estabelecendo em meio ao azevém que retorna via ressemeadura natural. Novilhos de 8-9 meses, em torno dos 200 kg, entram na pastagem na primeira quinzena de julho, e ali permanecem até a primeira semana de novembro. O método de pastoreio é o contínuo e a carga variável para manter as alturas de manejo pretendidas. A cada ano de experimentação, a despeito dos tratamentos serem mantidos, o foco de estudo tem evoluído constantemente, desde a avaliação do impacto do animal nos atributos físicos, químicos e biológicos do solo, passando por produtividade e rentabilidade dos sistemas, a evolução dos estoques de carbono e ciclagem de nutrientes, até as temáticas atuais relacionadas ao potencial de mitigação dos gases de efeito estufa, e determinação do intervalo hídrico ótimo.

Como não poderia deixar de ser, os resultados do rendimento da soja são bastante variáveis ao longo do tempo e independentes de se ter rotação com gado ou não. A maior produção foi registrada em 2002 (3.737 kg de grãos/ha) e a menor, em 2011 (310 kg de grãos/ha). No mesmo período a produção do gado, em ganho médio diário, registrou o maior valor de 1,11 kg/cb em 2005 e o menor valor de 0,89 kg/cb em 2008, enquanto o ganho por hectare variou de 286 kg/ha em 2001, a 386 kg/ha em 2004. Esses resultados ilustram a enorme diferença entre a variabilidade da produção de grãos e a produção do gado. Na média dos anos, o sistema que simula a agricultura predominante na região apresenta rendimento médio de soja de 49 sacos/ha. Como média, um resultado mais que satisfatório. Mas o problema são os anos de quebra de safra. Comparando com o sistema onde o gado é integrado e considerando o rendimento do gado transformado em equivalente sacos de soja, a média de colheita passa a ser de 81 sacos/ ha. Um incremento de 32 sacos! E ainda mais importante, naquele ano (2011) em que se colheu apenas 5,2 sacos/ha, quando se tinha gado no sistema a produção animal aportou o equivalente a 35 sacos/ha. Portanto, ter gado é sempre bom, mas ter gado em anos de quebra pode ser simplesmente a diferença entre se ter ou não futuro na atividade.

Outro resultado relevante diz respeito ao impacto do animal nos atributos físicos do solo. No método plantio direto, a cobertura do solo pela palhada é fundamental. Nesse sentido, a presença do animal no sistema é tida como indesejável, seja por consumir a vegetação que deveria se constituir palha, seja pelo trânsito e impacto do casco na superfície do solo. Nesse aspecto, o experimento produziu inúmeras informações com diferentes metodologias, desde coleta de amostras indeformadas em anéis metálicos, penetrômetros georeferenciados até o uso de hastes sulcadoras instrumentalizadas para avaliar a resistência do solo a` penetração e a força de tração da semeadoura. Os resultados demonstraram que pastos manejados em alturas = 20 cm não apresentam compactação que gere impedimento ao crescimento vegetal. Somente pastos conduzidos a 10 cm apresentam incrementos na densidade do solo e perdas em macro e microporosidade. Porém, ainda que esses efeitos ocorram quando a taxa de lotação é muito alta (5-6 novilhos/ ha), eles não mais são detectados em profundidades do solo superiores a 6 cm. O acompanhamento sistemático da área mostrou que esses efeitos são revertidos pela soja, pois no final de cada ciclo esses parâmetros retornam aos seus níveis originais.

Contraste entre a palhada acumulada no tratamento sem pastejo ao lado de um piquete pastejado

Enquanto se detecta compactação apenas na condução de pastos com 10 cm de altura, e de forma superficial e reversível, no tocante aos parâmetros de agregação do solo, biomassa microbiana e diversidade desta biomassa, todos são melhorados pela presença do animal em pastejo. Variáveis indicadoras da qualidade do solo, tais como diâmetro médio ponderado e o índice de manejo do carbono, também são incrementados pelo pastejo. A evolução dos estoques de carbono tem sido positiva e contínua nos 10 primeiros anos, justificando o uso do sistema para políticas setoriais como o Programa ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono). A melhoria na qualidade do solo está associado a dinâmica imposta pela presença do animal, que ingere a cobertura vegetal, a digere e excreta fezes e urina, provocando rebrotes e aportando ao sistema novas vias de ciclagem que têm impacto positivo, particularmente sobre a biota do solo. Estudos que georeferenciaram a distribuição dos excrementos concluíram que áreas com presença de fezes produziram 671 kg/ha de soja a mais do que áreas sem fezes. Quando se avaliou a ciclagem de N, P e K, constatou-se que em áreas pastejadas a ciclagem desses elementos é incrementada em 65%, 80% e 77%, respectivamente, em comparação àquelas sem animais. Outra resposta impactante foi em relação à dinâmica do calcário. Nas áreas sem pastejo o calcário desce 2,5 cm por ano em profundidade, enquanto nas áreas pastejadas esse fluxo chega a 7,5 cm.

Para Paulo César, os resultados têm demonstrado como a produção de gado pode ajudar o produtor de soja a diversificar

Para concluir, os resultados têm demonstrado como a produção de gado pode ajudar o produtor de soja a diversificar a produção e ter mais segurança e renda em sua atividade. Ao contrário do que se pensa, o gado pode melhorar o solo de áreas sob plantio direto, acrescentando vias de ciclagem que inexistem em rotações puramente agrícolas. Mas para isso é premente que se trabalhe com lotações moderadas (pastos com 20 cm ou mais), pois o manejo da lotação é determinante do sucesso ou fracasso da integração.

Para aqueles que quiserem se aprofundar, a UFRGS, em conjunto com a família Garcia de Garcia e a Fundação Agrisus, organiza anualmente um dia de campo entre final de setembro e início de outubro. O Boletim Técnico Integração Soja-Bovinos de Corte no Sul do Brasil reúne os resultados dos 10 primeiros anos da pesquisa e está disponível com os autores ou com a Fundação Agrisus.

*Paulo Carvalho e Ibanor Anghinoni são professores da Faculdade de Agronomia da UFRGS - [email protected] e [email protected]