Manejo

 

PENSAR antes de aplicar

Vacinação racional garante mais agilidade ao processo e reduz os riscos de acidente para animais e tratadores

Romualdo Venâncio

O que primeiro vem à mente ao ouvir ou ler a palavra “racional”? Talvez tenha achado a resposta tão óbvia que até gastou um lampejo de raciocínio antes de responder. Se isso de fato ocorreu, já ficou mais fácil continuar o assunto, pois a maioria das definições leva exatamente a algo como “baseado em raciocínio”. Tal conclusão tem tudo a ver com o manejo de bovinos, pois quando a rotina diária no trato do rebanho é feita sem a devida cautela, os resultados podem ser desastrosos. No caso da vacinação, há desperdício de tempo, de trabalho e de dinheiro, além de prejuízo à imunização.

“Desenvolver um manejo racional é saber por que está fazendo daquela maneira e ter o controle dos animais.” A afirmação é do zootecnista e professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) – Campus Jaboticabal (SP) Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO), Paranhos é um especialista em comportamento animal e há tempos vem trabalhando com a difusão do manejo racional de bovinos. Inclusive, em parceria com outros profissionais, já desenvolveu algumas publicações para auxiliar os pecuaristas. Dois deles são guias específicos para vacinação, um para gado de corte e outro para rebanhos leiteiros.

Muitos são os benefícios gerados pelo sistema de vacinação racional, e os principais estão sempre relacionados tanto ao gado quanto às pessoas que o maneja. A redução do estresse é um exemplo, assim como a prevenção de acidentes e o melhor desempenho com menor esforço. Além disso, é possível ampliar o grau de imunização, otimizando o aproveitamento das vacinas, e evitar perdas diretas com danos aos equipamentos. Na verdade, é um manejo que protege a saúde da fazenda como um todo, inclusive financeira. “Costumamos dizer que o manejo racional é um procedimento que favorece o bemestar na fazenda, pois não se restringe aos animais ou às pessoas”, complementa Paranhos.

PLANEJAMENTO

Fator primordial para a vacinação raracional é distinguir a velocidade da pressa. É praticamente impossível realizar o manejo com agilidade e precisão se for feito de maneira apressada. Por outro lado, a persistência na forma adequada e cuidadosa leva ao melhor resultado, sempre. Claro, imprevistos acontecem. E é por isso que tudo começa com o planejamento.

O pecuarista deve ter uma agenda de vacinas a serem aplicadas, de acordo com o calendário de vacinação da região; definir antecipadamente quais são os lotes a serem imunizados, considerando idade, peso e fase da vida; preparar as instalações onde o manejo será feito; e também deixar pronto todo o material a ser utilizado. E já que o assunto é prevenção, vale fazer uma lista com todos os itens indispensáveis para que a rotina de vacinação esteja completa, um check-list. Mesmo quando a memória é um primor, é sempre melhor prevenir que remediar. É recomendável não programar muitas outras atividades na fazenda nos dias de vacinação, evitando correria desnecessária.

Tal preparação ajuda a evitar outra confusão que costuma gerar problemas de diversas proporções: improvisar não significa fazer “gambiarra”. O improviso é a aplicação de um conhecimento já existente em um momento inesperado, é algo que invariavelmente surpreende de forma positiva. Quem não fica admirado ao ver um músico executar um arranjo diferente, inovador? Ou um craque de futebol passar pelo adversário com um drible desconcertante? Sem aprendizado, treino e preparação, um vai desafinar e o outro vai se mostrar um perna de pau, ou seja, na base da gambiarra não é possível esperar aplausos.

Outro fator fundamental no planejamento da vacinação é a distância a ser percorrida pelos animais até o local onde o manejo será realizado. A exigência costuma ser maior nas fazendas com produção extensiva, pois as áreas costumam ser mais amplas e o gado precisa se locomover mais. “Há situações em que a equipe da propriedade está tão preocupada em terminar logo o serviço que faz o rebanho correr para chegar logo ao curral. Isso estressa os bichos e prejudica a imunização. Em regiões com temperaturas mais elevadas, pode até causar outros problemas de saúde. Para evitar que isso aconteça, deve-se adotar padrões que melhorem a prática”, alerta Paranhos.

TRANQUILIDADE

Por mais obrigatória e necessária que seja a vacinação na rotina de qualquer propriedade, os animais não sabem disso. E se incomodam quando têm de passar por este manejo. O planejamento é o primeiro passo para evitar ou reduzir o estresse do rebanho, mas é a prática que vai confirmar os resultados, sejam eles positivos ou não. É aí que ganha relevância a relação entre homem e animal, pois o comportamento de um impacta no do outro.

A compreensão deste conceito é mais importante do que se imagina, pois uma atitude inadequada pode causar traumas que vão durar por muito tempo. “O animal tem ótima memória. Reconhece bem pessoas e lugares e se lembra das situações que passou com estas pessoas e nestes lugares, podendo desenvolver uma relação de atração ou repulsa”, explica o professor da Unesp. “Os bovinos têm um aprendizado associativo”, acrescenta a zootecnista e também membro do Grupo ETCO Lívia Carolina Magalhães Silva. Se o animal sofre maus tratos, o efeito é o mesmo, mas neste caso procura se afastar de quem lhe causou sofrimento ou do local em que passou por aquela experiência ruim. Quanto mais tempo nesta condição, pior.

Mateus Paranhos adverte que a atenção começa antes mesmo da compra das vacinas

Da mesma maneira que para os seres humanos, há períodos mais sensíveis para os bovinos, como a fase de bezerro ou o pós-parto, em que os acontecimentos marcam ainda mais. “Estudos mostram que bezerras bem tratadas por determinado profissional o reconhecem mesmo depois de vários meses sem contato”, acrescenta Paranhos. Foi o que aconteceu com Lívia. “Após um período de dois anos voltei a uma fazenda onde havia trabalhado com o manejo de bezerras. Estava fazendo teste de tuberculose nos animais e havia uma vaca que sempre ficava perto, queria que passasse a mão. Pelo número do brinco tive a certeza de que era uma daquelas bezerras”, recorda. Para Lívia, este carinho do animal é até um reconhecimento do próprio trabalho. “Isso comprova que se o bovino é bem tratado desde cedo, o manejo durante toda sua vida será mais tranquilo”, conclui a zootecnista.

Estojo de vacina com pistolas preparadas para uso

Uma forma de reverter a aversão a algum local específico, como o curral onde houve maus tratos, por exemplo, é a prática da “recompensa”. O pecuarista pode oferecer alimentação ao gado após a realização de algum manejo. Mas este é um procedimento paliativo que pode ou não funcionar. “O melhor mesmo é eliminar a causa por completo, acabar com aquele comportamento que está provocando o problema”, orienta Paranhos. Para isso, é preciso detectar os motivos de tal complicação, identificar se há tratadores com procedimentos inadequados e providenciar imediatamente a orientação apropriada. Depois, basta fazer o monitoramento para ter a certeza de que não há reincidência.

Gado deve ser conduzido de forma tranquila, sem estresse

ROTINA

Vacinação é um procedimento preventivo que visa evitar que o rebanho seja acometido por alguma doença, preservar sua saúde. Outra definição que parece um tanto quanto óbvia? Pasme: não é bem assim. Se os animais já estiverem doentes, não é a vacina que vai curá-los. Para este manejo, o gado deve estar sadio, o que também depende de como vem sendo alimentado. Portanto, as condições sanitária e nutricional do plantel devem estar no check-list da vacinação. Esclarecida esta questão, que infelizmente não é tão óbvia assim, vamos ao trabalho.

O momento da aplicação das vacinas é como a parada de um carro de Fórmula 1 nos boxes durante a corrida: tudo deve estar pronto antes. Nenhuma equipe deixa para procurar o pneu certo durante o pit stop. Separe as vacinas a serem utilizadas e já leve para o curral – no qual se deve trabalhar com o máximo de 20 animais – devidamente acomodadas na caixa térmica. Os equipamentos – agulhas, seringas, pistolas, material para esterilização, etc. – também já devem estar disponíveis com segurança sobre uma mesa e protegidos do sol. O manejo pode levar o dia todo? Atenção para que esses itens não fiquem sob a luz do sol com o passar do tempo.

Para otimizar a conservação de vacinas e seringas na caixa térmica durante o manejo, o uso de gel congelado ou gelo dentro de recipientes plásticos fechados (como garrafa PET) é mais indicado. Pedras de gelo soltas favorecem o acúmulo de água dentro da caixa, o que aumenta os riscos de contaminação. Evite abrir o recipiente sem necessidade, para garantir maior segurança. Higiene é um item imprescindível em qualquer procedimento sanitário.

A tranquilidade também é obrigatória, desde a condução dos animais até o local do manejo. O gado deve ser tocado em um ritmo moderado – “ao passo” –, com um cavaleiro à frente, um ponteiro que vai chamando o rebanho. Neste processo, devem ser evitados gritos, correria, ferrão, bastão de choque, enfim, tudo aquilo que possa irritar os bichos. Caso contrário, associarão este começo incômodo a todo o procedimento e entenderão como uma situação ruim. A qualquer momento, poderão reagir de forma defensiva, ou até agressiva, e tentar fugir.

Vale sempre ressaltar que a organização da rotina de trabalho deve ser realizada de acordo com as características de cada fazenda: dimensões, instalações, tamanho do plantel, entre outras. Quando o curral fica muito distante do pasto, o deslocamento dos animais pode ser feito no dia anterior à vacinação, para que passem a noite em um piquete mais próximo. O conforto ajuda a manter o gado sem estresse, por isso é importante que tenham água e sombra. Se houver cocho para receberem alimentação, o manejo ficará ainda mais calmo.

Trabalhar com pequenos grupos de bovinos é sempre mais fácil e permite o melhor controle de cada ação. Já no curral e no brete, evite que a lotação chegue ao ponto de os animais ficarem apertados, desconfortáveis. Este cuidado previne situações de estresse para o gado e reduz os riscos de acidente, inclusive com os tratadores. “À primeira vista, há quem ache que o manejo vai demorar muito mais tempo. Mas o controle dos animais é bem maior, o que elimina perda de tempo. Quando os animais já são mansos, o impacto pode até ser menor, mas ainda assim é vantajoso”, esclarece o professor Mateus Paranhos.

A condução até tronco de contenção pode ser facilitada com o uso de bandeiras. Continua o veto a gritos, correria e agressões. Outro ponto importante: a função da pescoceira não é frear o animal. Isso deve ser feito fechando a porta dianteira do tronco, para que só depois a pescoceira seja acionada. Mais do que machucar os bichos, o uso inadequado reduz a vida útil do equipamento.

Com o animal devidamente contido, tanto na dianteira quanto na parte traseira, abre-se a janela do tronco para que a vacina seja aplicada. No animal, o local correto para a vacinação é a tábua do pescoço, independentemente se for intramuscular ou subcutânea.

VACINA E EQUIPAMENTOS

Muitas das melhorias para o manejo de bovinos dependem de mudanças culturais. No caso da vacinação não é diferente. Todos os produtos e equipamentos são (ao menos deveriam ser) fornecidos por seus fabricantes com instruções de uso, dados de formulação, dosagem, orientação de limpeza, armazenagem e manutenção, especificações de medidas, enfim, praticamente tudo o que é preciso saber para que cada item seja utilizado corretamente. Basta ler as informações. Aí é que está o problema.

A grande maioria dos brasileiros não lê manual técnico e, menos ainda, a bula de medicamento. No campo, a situação se complica. “Além de não ser um hábito, a bula traz uma grande quantidade de informações e sempre em letras muito miúdas, o que dificulta a leitura”, comenta Paranhos. De qualquer forma, se a orientação dos fabricantes for ignorada, crescem as chances de erros na vacinação. É preciso que se encontre uma maneira de se absorver e compartilhar as informações entre a equipe da fazenda.

SAÚDE PÚBLICA

Tão importante quanto realizar a vacinação é entender o conceito da prevenção, do que significa, exatamente, a imunização dos rebanhos. “A vacina é uma questão estratégica do ponto de vista do controle sanitário e tem impacto econômico e social”, destaca Mateus Paranhos, lembrando que um problema de contaminação do rebanho, ou mesmo de um único animal, em qualquer que seja a fazenda, pode gerar prejuízos para toda a cadeia produtiva. “Vivemos em um país de contrastes, onde há propriedades com elevado nível de tecnificação e outras em situação precária”, afirma. É bom não esquecer o rebuliço que foi quando se descobriu um foco de febre aftosa no Mato Grosso do Sul, em outubro de 2005.


DICA:

Equipe bem posicionada no curral. Uma pessoa cuida da porteira de entrada e da contenção do posterior do animal (se necessário) e outra cuida da porteira de saída e da pescoceira. Com o animal contido, um aplica. No caso de imunizações simultâneas, recomenda-se duas pessoas, cada uma aplicando produto em lados opostos.


TIPOS DE VACINA

Vacina contra brucelose bovina

Finalidade: proteger a fêmea bovina contra a infecção pelo microorganismo Brucella abortus, que pode causar o aborto e/ou infertilidade neste animal. Quais categorias devem ser vacinadas: fêmeas bovinas com idade entre 3 e 8 meses de vida. Obs.: O homem pode contrair a brucelose. Portanto deve-se tomar cuidados adicionais (uso de luvas, óculos, descarte de agulhas, uso de desinfetantes) durante a manipulação de animais doentes ou suspeitos, bem como no processo de vacinação, por se tratar de uma vacina que usa organismos vivos atenuados.

Vacina contra clostridiose

Finalidade: proteger o bovino contra infecção pelos microorganismos do gênero Clostridium, que são causadores de enfermidades que podem levar à morte. Dentre as doenças mais comuns causadas por esses microorganismos, podemos citar: carbúnculo sintomático, gangrena gasosa, enterotoxemia, morte súbita e tétano. Deve-se observar na bula da vacina, contra quais doenças ela protege, uma vez que existe uma grande variedade de vacinas poli- valentes no mercado. Quais categorias devem ser vacinadas: machos e fêmeas, a partir dos 3 meses de vida. Em geral, deve ser feito o reforço após 30 dias, para os animais vacinados pela primeira vez. É recomendada a revacinação anual.

Vacina contra botulismo

Finalidade: proteger o bovino contra intoxicação pela toxina botulínica, que é produzida pelo microorganismo Clostridium botulinum. Quais categorias devem ser vacinadas: machos e fêmeas, a partir dos 3 meses de vida. Também deve ser feito o reforço após 30 dias para os animais vacinados pela primeira vez, sendo recomendada a revacinação anual.

Vacina contra febre aftosa

Finalidade: proteger o bovino contra infecção pelo vírus da febre aftosa, que causa lesões ulcerativas nos membros e boca, podendo levar os animais à morte. Quais categorias devem ser vacinadas: seguir a orientação do órgão de defesa agropecuária da região.

Vacina contra leptospirose

Finalidade: proteger o bovino contra infecção pelos microorganismos do gênero Leptospira, que podem causar nos animais infertilidade, aborto, mastite e até a morte. Quais categorias devem ser vacinadas: bovinos de ambos os sexos a partir dos 3 meses de vida, com aplicação de dose de reforço após 30 dias para os animais vacinados pela primeira vez. É recomendada a revacinação semestral de todos os animais.

Vacina contra raiva dos herbívoros

Finalidade: proteger o bovino contra infecção pelo vírus da raiva, que causa a morte desses animais e pode contaminar o ser humano. Quais categorias devem ser vacinadas: seguir a orientação do órgão de defesa agropecuária da região.

Vacina contra IBR/BVD

Finalidade: proteger o bovino contra infecção pelo vírus da rinotraquíte infecciosa bovina e pelo vírus da diarréia viral bovina, que podem causar nos animais infertilidade, morte embrionária, aborto, rinotraqueíte e até a morte.

Quais categorias devem ser vacinadas: machos e fêmeas a partir dos 3 meses de vida. Em geral, deve ser feito o reforço após 30 dias para os animais vacinados pela primeira vez, sendo recomendada a revacinação semestral ou anual, dependendo da indicação do médico veterinário. Além disso, recomenda-se vacinar os bovinos em fase de reprodução pelo menos um mês antes do começo da estação de monta.

Fonte: Guia Boas Práticas de Manejo – Vacinação (Funep)