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SURPREENDENTE

Angus e Brangus anunciam parceria inédita. Elaboração de uma agenda conjunta está nos planos das coirmãs

Adilson Rodrigues
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O município de Bagé, localizado no sudoeste do estado do Rio Grande do Sul, exerceu papel importante também na pecuária brasileira. Foi lá que o criador Leonardo Collares Sobrinho registrou, em 1906, há exatos 107 anos, o primeiro exemplar Angus do Brasil, o touro Menelik. Na década de 1940, a cidade bicentenária voltou a fazer história ao abrigar os estudiosos dos primeiros cruzamentos daquela raça britânica com gado zebu, resultando no Ibagé, bovino sintético hoje consagrado como Brangus. Desde então, as duas raças se desenvolveram separadamente, consolidando-se em mercados externos.

Mas, eis que um encontro memorável entre Paulo de Castro Marques, atual presidente da Associação Brasileira de Angus (ABA), e Raul Victor Torrent, presidente da Associação Brasileira de Brangus (ABB), no dia 12 de abril, também deverá colocar a cidade de Londrina, no norte paranaense, como o marco de um novo capítulo na biografia das duas raças, resgatando o vínculo de sangue existente entre as duas coirmãs. Durante a ExpoLondrina 2013, os dois selecionadores formalizaram uma inédita parceria de fomento entre Angus e Brangus. A princípio, as marcas próprias de carne de cada entidade ficam de fora do acordo, em virtude de já possuírem diretrizes e premiações preestabelecidas com as indústrias parceiras.

Da mesma forma, os programas de melhoramento genético ficarão sob a tutela de sua respectiva associação, assim como permanecem as definições atuais do biótipo de cada animal. “É importante deixar claro que se trata de um acordo para fomento das raças e não de melhoramento genético”, esclarece Paulo de Castro Marques. Segundo ele, o princípio do trabalho será o fortalecimento conjunto da genética Angus, presente na base das duas raças, sendo que em uma se apresenta pura (Angus) e na outra, de forma sintética (Angus + Nelore). “Visualizamos que uma raça não é concorrente da outra. Muito pelo contrário. Juntas, tornam-se muito mais fortes”, destaca o presidente da ABA.

O mundo está precisando cada vez mais de volume de carne e de um produto de melhor qualidade. E por este rastro seguirá o plano diretor traçado pelas duas associações. “As duas raças já caminham há muito tempo sozinhas, no Brasil e no mundo, e na essência de nossas associações não haverá grandes modificações. Vamos trabalhar juntos para produzir a genética e a carne que o mundo necessita”, complementa Raul Torrent, presidente da ABB, que acredita no grande valor institucional que esta iniciativa vai agregar às partes. A expectativa é que criadores, frigoríficos e os demais elos da cadeia reconheçam a novidade como uma forma de intensificar o uso da genética presente nas duas raças, atraindo novos produtores e aumentando a oferta de gado jovem, precoce e com excelente acabamento.

Ainda é cedo para falar de planos mais elaborados, pois a preocupação inicial foi selar o protocolo de intenções, entretanto, o presidente da ABB adianta algumas ações que já poderão ser observadas a partir da próxima edição da Feicorte, que será realizada na capital paulista entre 17 e 21 de junho, o que pode valer para os demais eventos das raças. Além das ações unificadas de marketing, a ideia é organizar uma participação mista. “Na Feicorte, por exemplo, queremos ter as duas raças na mesma pista de julgamento, mas cada um com seu respectivo jurado, além de concentrar as duas associações no mesmo estande. Algo parecido pode acontecer nos leilões”, adianta Raul Torrent. Já para o longo prazo fica mais difícil projetar ações, é algo que deverá ser discutido pontualmente e evoluir conforme a maturidade do projeto. “Tivemos um ótimo começo, mas o que vai acontecer no futuro a Deus pertence”, emenda o presidente.

Aqui está a genética Angus que o mercado demanda

Independente das ações, a única definição é que os programas de carne das duas raças não sofrem modificações e caminharão em paralelo, pois cada um possui suas próprias regras. “Isso porque os dois programas de carne estão trabalhando há algum tempo e muito bem! Então, decidimos deixar como estavam”, esclarece Torrent. “Cada entidade tem total autonomia para direcionar seus programas de carne, como a Angus tem o Carne Certificada, que já completou uma década de atividades e tem obtido excelentes resultados tanto em termos de volume, com mais de 250 mil animais abatidos em 2012, como em retorno econômico aos pecuaristas participantes”, aponta Marques.

Criadores de Angus e Brangus comemoraram a notícia

REPERCUSSÃO

Segundo os representantes do Angus e do Brangus, os associados de ambas as entidades receberam a notícia muito bem. Pelo lado do Brangus, Torrent relata que não houve inconveniente, até porque 80% dos criadores mais tradicionais criam as duas raças no Rio Grande do Sul. Além disso, muitos avaliaram o anúncio da parceria como um marco histórico. Pelo lado do Angus, não foi diferente. “Os objetivos são nobres. Tenho certeza que os criadores de Angus e Brangus perceberão os pontos fortes dessa iniciativa e trabalharão ainda mais para um sucesso coletivo”, acredita Marques.

Um bom exemplo é João Paulo Schneider da Silva, o Kaju, um dos principais fomentadores dessa parceria, fazendo valer as crenças do mentor Eduardo Macedo Linhares. O pecuarista conduz criações tanto de Angus quanto de Brangus na Gap Genética e observa que, assim como acontece em outras raças, os resultados desta união serão frutíferos para todos. “Existe uma complementaridade lógica entre o Angus e o Brangus, não tem porque as raças caminharem independentes. O Angus é o taurino que mais vende sêmen no Brasil, o qual é utilizado em larga escala no cruzamento industrial. E aqui o Brangus tem a grande chance de ser utilizado nos touros do repasse dessa inseminação”, avalia Kaju. Desta forma, o Angus pode estar presente nos dois momentos.

Exatamente neste estágio está um dos pontos altos do convênio, que é disseminar a genética do taurino britânico no Centro-Oeste do Brasil. “Esse trabalho já começou há alguns anos, com a criação de núcleos de criadores no Sudeste. Nossa intenção, agora, é acelerar esse processo de expansão”, explica o presidente da ABA. “Mato Grosso, Pará e outras regiões mais quentes é onde vamos entrar com o touro Brangus”, completa Torrent. Outros benefícios que poderão ser gerados são o ingresso de novos associados, o fortalecimento das marcas de carne e a agregação de valor às raças.

Para Kaju, Angus e Brangus necessitam de uma agenda conjunta, enchendo a mesma pista nas grandes exposições de gado e reunindo cada vez mais pessoas em torno deste ambiente agradável. “Essa parceria é algo que sonhávamos há muitos anos, mas que por muito tempo esbarrou em alguns problemas pessoais. Todavia, o benefício social para o setor produtivo supera interesses”, comemora. O titular da Gap enxerga boas possibilidades para ambas as raças, mesmo nos programas de carne, pois os produtos abatidos acabam não sendo nem Angus nem Brangus, mas sim uma cruza entre elas. “O Brasil precisa de força para mostrar qualidade de carne e as duas raças mostrarão na sua complementaridade o sucesso da produção”, conclui.

Segundo o associado da ABA José Roberto Pires Weber, que presidiu a entidade em dois mandatos, entre os anos de 1990 e 2000, o assunto de uma aproximação entre Angus e Brangus sempre foi um assunto recorrente, e também sempre difícil de se chegar a um consenso. “Os presidentes atuais têm uma boa afinidade e resolveram conversar sobre o tema. É algo que só pode ser positivo”, analisa Weber. O criador lembra o caso de outros gados sintéticos ligados à “raça-mãe” que têm, inclusive, associações unificadas, mas não crê em uma entidade única para as duas raças. No momento, tratamse de duas associações com muitos pontos em comum e uma aproximação entre elas é benéfica.

Em especial para a raça Angus, Weber não espera grandes mudanças em termos de mercado, pois o britânico tem conseguido boa penetração no Centro-Oeste, por meio das vendas de sêmen que vem sendo utilizado na vacada Nelore. “O maior ganho deve ser no marketing, à medida que poderá haver um incremento de atividades conjuntas, unindo criadores de ambas as raças. “Embora tenhamos muitos associados que criam tanto Angus quanto Brangus, uma boa parte opta por uma ou outra. É um caminho interessante e o futuro é que vai dizer aonde isso vai dar”, diz.

“O Brangus anda de mãos dadas com a Angus e as raças zebuínas, suas formadoras. É também devido ao sucesso delas que vem conquistando cada vez mais espaço na pecuária brasileira. O Brangus é o melhor resultado deste casamento”, define Sérgio Bastos Tellechea, proprietário da Cabanha do Posto. Tellechea possui no “DNA” as duas raças. Foi um dos primeiros presidentes da Brangus, exercendo mandato em 1986 e 1987, e sua família dedica-se à raça Angus há quase cem anos, sendo pioneira nos cruzamentos Angus X Nelore que deram origem ao Brangus. Para ele, a parceria das raças vai ser importante para todos os criadores porque poderão atender melhor a demanda pelos seus produtos. “Temos certeza que as duas associações irão, juntas, alcançar mercados cada vez maiores e mais exigentes, valorizando nossa produção e melhorando a pecuária brasileira”, ressalta o criador.

De acordo com Reinaldo Raposo, diretor do Programa Carne Angus Certificada, esta é uma aliança muito inteligente, ainda mais pelo momento atual, no qual o consumidor está buscando a genética Angus. Como o Brangus tem essa genética em sua concepção, vem se somar à produção dessa qualidade de carne que o mercado interno tanto deseja. “Através da sinergia entre as duas raças, não vamos apenas somar, mas sim multiplicar esta genética Angus para todo o território nacional”, relata o executivo.

“O importante é reafirmar que Angus e Brangus estão confiantes na criação de uma agregação de valor que, certamente, fortalecerá as duas raças”, conclui Paulo de Castro Marques.