Entrevista do Mês

Pelo fim da aftosa no Brasil

O Brasil sem o risco da aftosa pode se tornar realidade antes do que se possa imaginar, pelo menos este é o esforço do Conselho Nacional da Pecuária de Corte (CNPC) no Programa Nacional de Erradicação da epizootia. Para falar mais, convidamos Tirso de Salles Meirelles, presidente da entidade.

Adilson Rodrigues
[email protected]

Revista AG - Pensar no Brasil sem aftosa ainda é utopia?

Tirso de Salles Meirelles - Há oito anos não temos um caso registrado desta doença. Não é utopia. Podemos dizer que hoje, mesmo com alguns gargalos, é possível dizer que dentro de poucos anos poderemos ter todo o País livre da doença, desde que se prossiga com a política adequada e unificada de imunização do rebanho. Por isso, é fundamental que se estabeleçam processos bem definidos, com objetivos, cronograma racional, apoio logístico e mão de obra especializada.

Revista AG - A meta do Brasil livre de aftosa com vacinação foi adiada para qual data e quais os principais motivos?

Tirso Meirelles – Não houve fixação de uma data. Sabe-se que o próximo passo é incorporar sete estados nordestinos e parte do Pará na condição de livre com vacinação. Isto está previsto para reconhecimento internacional pela OIE (Organização Mundial da Saúde Animal) para 2014. Já segundo o PANAFTOSA, até 2020 todo o continente poderá estar livre da doença.

Revista AG - Quais gargalos o País enfrenta?

Tirso Meirelles - Há escassez de pessoal especializado e epidemiologistas, além de existir uma precária infraestrutura laboratorial para diagnóstico rápido. É vital que os organismos responsáveis pela fiscalização – Ministério da Agricultura, secretarias estaduais e Vigilância Sanitária – tenham regras claras, recursos orçamentários, técnicos capacitados e em número suficiente para garantir uma ação mais positiva e perene, evitando os grandes riscos que envolvem hoje, por exemplo, os abates nos níveis estadual, regional e municipal.

Revista AG - Norte e Nordeste têm evoluído bem na questão? Qual é a situação atual nesses estados?

Tirso Meirelles – O combate à febre aftosa evoluiu bastante no Nordeste, como se constatou pela sorologia conduzida na região e pela longa ausência de focos. No Norte, a situação requer mais atenção e cuidados, principalmente, em parte do norte do Pará, no Amapá e em certas regiões do Amazonas, devido à reduzida estrutura de defesa para vigilância. No Amazonas, em especial, acreditamos que seja necessário um levantamento sorológico criterioso, em especial nas localidades em que há trânsito e comercialização de animais. Temos ainda fronteira com Venezuela, onde até 2011 ocorriam focos.

Revista AG - Em termos de território nacional, qual o estado mais problemático?

Tirso Meirelles – Por conta da recente decisão do governo boliviano de recomendar e autorizar somente vacinas com doses de apenas 2 ml (o correto seriam 5 ml) – o que pode comprometer a imunidade dos animais –, acreditamos que os estados na fronteira oeste, principalmente confrontantes com este país, precisarão de maior atenção. Comenta- se que gado boliviano entra no Brasil pelo nosso extremo oeste e isto precisa ser esclarecido e, se for confirmada esta informação, coibido e com punições.

Revista AG - Era comum ouvir que o pecuarista descartava vacina aftosa no rio e apresentava apenas o comprovante de compra da mesma? O que foi feito para coibir a prática?

Tirso Meirelles - Ainda existem raros relatos de que produtores irresponsáveis assim procedem. Volto a afirmar que é fundamental – e urgente – que a fiscalização seja aumentada para verificar com eficiência a aplicação da vacina. Multas mais significativas que desestimulem esta prática. O levantamento imunitário do rebanho e o controle de trânsito dos animais são duas ferramentas essenciais para que o Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa (PNEFA) evolua.

Revista AG - E o Paraná? Este foi reconhecido como livre sem vacinação e continua vacinando. Seria uma medida preventiva?

Tirso Meirelles – Houve uma tentativa para que o Paraná fosse reconhecido como livre sem vacinação, mas isso não foi adiante, por conta da ponderação das lideranças locais. A região Sul do Brasil só pode retirar a vacinação se Argentina, Uruguai e Paraguai também o fizerem. O Uruguai, por exemplo, é totalmente contrário a esta ideia. Devemos lutar para igualar, para fins comerciais da carne, as condições de livre com e livre sem vacinação. Há resistência dos países da União Européia, da Austrália e dos EUA. Entretanto, o conceito deve evoluir, pois os mercados crescentes em consumo de carne são mais sensíveis a preços e os opositores têm alto custo e não competirão conosco.

Revista AG - Mesmo que o Brasil atinja reconhecimento de livre de aftosa com vacinação para todo o território nacional, as fronteiras ainda representariam uma ameaça? Por quê?

Tirso Meirelles - Devemos cuidar com muita atenção das fronteiras, atualmente Bolívia e, certamente, Venezuela merecem grande atenção, uma vez que a política de imunização do rebanho nestes países não tem convergido para a erradicação da doença no continente.

Revista AG - Em relação a essas regiões, os países têm cooperado conforme demandamos?

Tirso Meirelles - A Bolívia não tem se mostrado transparente e agora optou por uma vacina com dosagem de volume reduzido, tornando a situação ainda mais problemática. A Venezuela dá sinais que está preparando um ataque total à aftosa, tanto nas pequenas como nas grandes propriedades. Isto é muito positivo para Brasil e Colômbia. O Paraguai tem uma postura muito positiva em seu programa e na cooperação internacional no continente. No apoio privado ao Equador, só Paraguai e Brasil contribuíram.

Revista AG – Em relação à Bolívia, o desinteresse seria em função de o país andino não ter na pecuária uma exploração econômica significativa para o PIB?

Tirso Meirelles - Também por isto, em especial nas áreas altas. Mas, este fato não procede integralmente, tendo em vista que nas províncias de Beni e Santa Cruz de La Sierra a pecuária é expressiva, assim como em Tarija e Pando.

Revista AG - Quantas doses de vacina aftosa os bolivianos têm recebido por ano via doação e comercialização?

Tirso Meirelles – Não temos o dado atualizado, mas já houve anos em que a doação ultrapassou 1 milhão de doses. Também não existe nenhum controle de que os bolivianos a estejam utilizando. Por este motivo, insistimos que a transparência nas informações precisa melhorar.

Revista AG - E a fiscalização do Governo brasileiro, principalmente nas fronteiras secas, tem funcionado de forma efetiva? O que falta?

Tirso Meirelles – Tem funcionado, mas podemos incrementar este serviço vital para garantia da sanidade animal. Uma maior disponibilidade de pessoal para a defesa sanitária animal e maior entrosamento com países vizinhos, tanto no nível público como no privado, poderiam dar melhores resultados e maior segurança.

Revista AG - O Exército tem sido acionado?

Tirso Meirelles – Só temos que agradecer aos comandantes do Exército e da Força Aérea, que sempre procuram atender nossas demandas, em especial nas situações emergenciais, como vivenciamos, em 2005, no Mato Grosso do Sul e, mais recentemente, no Paraguai. O MAPA tem convênios com o Ministério da Defesa para apoio em casos de emergências sanitárias. Não podemos esquecer o apoio da FAB nos focos do início do milênio, levando vacina para o Rio Grande do Sul e também aquela doada ao Uruguai.

Revista AG - O PANAFTOSA segue fortalecido? Lembro que o Chile, por exemplo, não estava comparecendo com representantes nas reuniões da Cosalfa. No que precisa melhorar?

Tirso Meirelles - Uma significativa vitória do PANAFTOSA é que, pela primeira vez, o continente passou um ano sem ocorrência de surtos. No Equador, com forte apoio privado do Paraguai e do Brasil, o PANAFTOSA trabalhou muito bem, eliminando os focos que beiravam 50, em 2011. Além disso, o PANAFTOSA provou que a cepa-problema no Equador era a tradicional da região, ou seja, não havia uma nova, o que foi confirmado pelos Estados Unidos. O programa precisa ser reestruturado e definir claramente novas prioridades. Também faz-se necessário que cuide de outras zoonoses, como brucelose, raiva bovina e tuberculose.

Revista AG - Onde e quantos focos de aftosa ocorreram na América do Sul nos últimos quatro anos?

Tirso Meirelles - Os maiores, 85, ocorreram no Equador e na Venezuela, em 2011. Houve um caso no Paraguai, mas logo debelado. No ano de 2012 não ocorreram focos na América do Sul e este fato merece uma especial congratulação ao PANAFTOSA.

Revista AG - Indo um pouco mais além, o que precisa ser melhorado na pecuária brasileira no curto prazo?

Tirso Meirelles - O CNPC credita como essencial um melhor diálogo entre produtores e frigoríficos sobre produção, comercialização e atendimento do tipo de animal e carne que o mercado internacional deseja. Para isso, não é necessário que se crie novas entidades. Estamos às ordens para ser a sede ou foro destas discussões. Achamos também que merecem maior atenção da nossa cadeia produtiva a melhoria da sanidade animal, a classificação de carcaças, a expansão qualitativa e quantitativa da inspeção de carnes, o debate sobre a influência dos supermercados no balizamento dos preços da carne, a rastreabilidade com atendimento pleno dos diferentes mercados e segmentos.