Caprinovinocultura

 

Cuidados no pré-abate

Manejo é essencial para bem-estar animal e pode influenciar na qualidade da carne

Denise Saueressig
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Para quem atua na cadeia da carne, o bem-estar animal deve ser prioridade nas diferentes etapas de produção, desde o nascimento até o abate. Além de uma questão humanitária, oferecer condições dignas durante a vida do animal e trabalhar para evitar sofrimentos desnecessários são atitudes que podem ter reflexos econômicos sobre a atividade.

Considerando a necessidade de aprofundar as discussões sobre o tema e de auxiliar no esclarecimento sobre situações que podem provocar estresse nos animais, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) desenvolveram o estudo “Métodos de insensibilização de ovinos e qualidade de carne”.

Apresentada como trabalho de conclusão no curso de Zootecnia no campus de Dracena/SP, a pesquisa da aluna Natália Trevizan teve orientação da professora Sirlei Maestá e coorientação do bolsista de pós-doutorado Hélio de Almeida Ricardo.

Uma das razões que motivou o estudo é a carência de informações relacionadas à produção de ovinos, que é causada, principalmente, pela informalidade nos abates, estimada em mais de 90% no Brasil. “Apesar de percebermos iniciativas crescentes para um maior desenvolvimento do setor, ainda existem problemas importantes de desorganização, além da sazonalidade na produção e o fato de a ovinocultura frequentemente não representar a atividade principal das propriedades”, constata a professora Sirlei Maestá.

Os pesquisadores envolvidos no estudo trabalharam com análises em dois frigoríficos inscritos no Serviço de Inspeção Federal (SIF), onde avaliaram dois métodos de insensibilização utilizados no pré-abate dos ovinos. O método mecânico utiliza a pistola de dardo cativo, enquanto o método físico é o da eletronarcose, que envolve a utilização de eletrodos que conduzem uma corrente elétrica de alta voltagem e baixa amperagem, através do cérebro do animal. “Independente do método utilizado, o objetivo é proporcionar uma disfunção cerebral que cause uma inconsciência instantânea e indolor ao animal”, explica Sirlei.

Uma das conclusões da pesquisa é que os dois métodos são eficazes desde que sejam observados alguns pontos importantes. “As principais falhas estão relacionadas à manutenção e ao funcionamento adequado dos equipamentos e à preparação dos funcionários. Infelizmente, a falta de conhecimento e de treinamento pode gerar problemas nessa etapa da produção”, observa a professora.

REFLEXOS NA CARNE

Os pesquisadores da Unesp têm interesse em dar continuidade à pesquisa, ampliando o número de frigoríficos visitados. “Nossa intenção é acompanhar o processo e alertar para as possíveis falhas encontradas”, destaca Sirlei.

Além do interesse em trabalhar pelo bem-estar animal, o trabalho pretende mostrar os efeitos de um manejo mal conduzido sobre a questão sanitária e a qualidade da carne. Nesse ponto, além da insensibilização e da sangria, também é preciso considerar etapas que envolvem embarque, transporte, desembarque e descanso.

O estresse dos animais pode levar à produção de uma carne de qualidade inferior, interferindo em fatores como a cor e a maciez do alimento. “Também pode haver redução no prazo de validade e uma maior facilidade para a contaminação por bactérias”, assinala a professora.

Segundo ela, análises bioquímicas feitas nas carcaças, como a medição do pH da carne e a capacidade de retenção de água, podem quantificar uma situação de estresse. “O pH final elevado promove o surgimento de carnes mais escuras com alta capacidade de retenção de água, com consistência firme, aspecto seco na superfície e menor período de conservação, ou seja, a anomalia conhecida como DFD. Por outro lado, quando o pH decresce rapidamente na primeira hora post mortem a valores próximos ao ponto isoelétrico das proteínas, associado à alta temperatura das carcaças, ocorre o surgimento da carne PSE, que está relacionado com uma carne de coloração mais pálida, flácida e com baixa capacidade de retenção de água, tornando-a exsudativa”, descreve o trabalho da aluna Natália Trevizan.

Professora Sirlei, da Unesp: principais problemas estão relacionados ao funcionamento adequado dos equipamentos e à preparação dos funcionários

Depois de cálculos e análises, outra conclusão da pesquisa é de que “o método de insensibilização por eletronarcose apresenta influência positiva sobre as características de aparência da carne”. Já a “insensibilização por método mecânico, pelo emprego de pistola de dardo cativo com penetração, favorece as características relacionadas ao armazenamento e ao preparo da carne”.


Programa Nacional

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) firmou um acordo em 2008 com a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla em inglês), para a elaboração do Programa Nacional de Abate Humanitário. Por meio do programa, entre julho de 2009 e junho de 2012, foram capacitados 4.550 profissionais na área.

O Brasil e a União Europeia assinaram este ano um protocolo de cooperação técnica em bem-estar animal durante a 6ª Cúpula Brasil-União Europeia. A parceria prevê um Grupo de Trabalho para intercâmbio regular de informações e cooperação técnica para a melhoria dos sistemas de criação dos animais destinados à produção de alimentos, do seu nascimento ao momento do abate.