Sala de Ordenha

  

Preços externos podem afetar mercado interno

Marcelo Carvalho

O início de março foi marcado por uma grande agitação no mercado internacional de leite, reflexo da valorização de mais de 10% nos preços médios dos produtos lácteos, com destaque para o leite em pó integral, que valorizou 18% no leilão realizado pela plataforma gDT (global Dairy Trade), no dia 05/03.

Os últimos leilões já vinham apresentando elevação nas cotações, mas a forte correção no último pregão foi fruto da oficialização da seca em seis regiões da Ilha do Norte da Nova Zelândia, que concentra mais de 67% do rebanho leiteiro do país. Algumas fontes do mercado internacional reportam redução na produção de leite de 10% a 20% nesse momento, com tendência da produção da estação produtiva (até 31/05) ficar no mesmo nível ou abaixo do ano passado.

Ainda é prematuro apontar com segurança a tendência futura, mas, considerando que a safra neozelandesa termina em maio e que os estoques na Europa estão baixos, o mais provável é que possa haver novos aumentos, mesmo que em menor magnitude.

A preocupação do mercado interno é descobrir até que ponto a valorização internacional reflete nos preços praticados no Brasil e se há possibilidade de o leite brasileiro tornar-se mais competitivo no mercado frente ao leite produzido por outros países. De fato, a alta nos preços externos tende a diminuir as importações brasileiras de leite, contribuindo para uma balança comercial mais favorável comparada ao ano passado.

Nos últimos anos, o Brasil importou quantidades crescentes de leite (gráfico 1), até atingir 3,75% do consumo total, o que dá mais de 1,2 bilhão de litros anuais.

À medida que os preços externos sobem (mantido o câmbio atual), o ímpeto importador se reduz, abrindo caminho para que o produto nacional ocupe gradativamente esse espaço, desde que seja um movimento consistente. Como resultado, muitas empresas com condição de ampliar a secagem de leite podem optar por elevar a produção desse produto, resultando em menos leite para UHT e queijos, o que pode elevar também os preços desses produtos.

Conforme observado no gráfico 2, nos últimos três anos, o preço de equivalência para o leite vindo do Mercosul se aproximou três vezes dos preços pago ao produtor no Brasil (Cepea). As aproximações entre os preços ocorreram em 2010 e 2011, mas não se sustentaram por muito tempo. Agora, a situação se repete e, caso o preço internacional se mantenha elevado por um tempo maior, é possível que haja uma correlação entre preços internos e externos, com tendência de aumento nos preços internos.

Não há dúvida que preços externos na casa dos US$ 4.300/tonelada inibem as importações no atual momento de mercado, mas a retomada das exportações é algo um pouco mais complexo, por três motivos principais:

1. O Brasil está há praticamente cinco anos fora desse mercado, sendo necessário reabrir clientes e reativar (em muitos casos) estruturas de exportação que foram desfeitas;

2. Considerando que há o frete para outros lugares, o máximo preço a ser pago pelo leite nacional e ainda assim permitir a exportação é menor. Na prática, os mesmos valores de US$ 4.300/tonelada permitem pagamento máximo de R$ 0,87/litro, abaixo do que temos hoje (e mais abaixo ainda da tendência futura do mercado interno);

3. O leite em pó está remunerando mais no mercado interno do que no externo, o que não estimula exportações. Caso a tendência de valorização externa continue, aí sim podemos retomar as exportações.

Somado ao cenário de valorização internacional, agentes de mercado consultados pelo MilkPoint já pontuaram o fim do pico da safra em grande parte do Brasil tropical, sinalizando manutenção nos valores pagos no campo e, em algumas regiões, um possível reajuste de preços. O leite Spot vem subindo, o que é um importante sinalizador, o mesmo ocorrendo com UHT e queijos no atacado. O cenário mais provável é de recuperação no mercado interno.

Marcelo Pereira de Carvalho, diretor-executivo da AgriPoint, Maria Beatriz Tassinari Ortoloni, analista de mercado do Milkpoint, e André Ramos Sanches