Caindo na Braquiária

 

Asfaltando a safra

Alexandre Zadra - Zootecnista
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Com 18 anos incompletos, lóbulo frontal ainda em formação, mochila nas costas e viajando de carona na boleia de um novíssimo 113 trucado, se configurava assim o quadro descritivo de uma das minhas férias de cursinho, por vezes, saíamos de Uberaba/MG a caminho da fazenda dos parentes do meu grande amigo Ernani, localizada a 22 km, depois do Distrito do Rio do Peixe, a fim de passar a maior parte das férias curtindo a propriedade e lidando com o gado de corte. Após mais um período no meio do mato, chegava o fim de férias e o retorno da fazenda dependia mais uma vez de boas almas que nos dessem carona até Uberaba, onde no dia seguinte eu continuaria minha jornada até Poços de Caldas ao encontro de outra turma de amigos.

Quando teremos governantes que pensarão adiante de seu tempo? Na saúde, médicos e hospitais recebendo do SUS ninharias por cirurgias, onde moribundos percorrem os corredores fétidos e repletos de corpos alojados em macas. Na educação, professores pagos com migalhas e crianças formadas nas escolas públicas sem o mínimo de capacidade racional. Nas cidades, moradias financiadas pelo governo com paredes rachadas e esgoto a céu aberto, sem tratamento dos efluentes; lixões que denotam a incapacidade de administrar o resíduo humano, talvez o maior problema atual das zonas urbanas. No campo, as agrovilas veem parte das terras dos assentados vendidas sem escritura para produtores com alguma capacidade de investimento, já que não há assistência técnica para todos e, sobretudo, um plano de produção familiar que vislumbre a renda mínima do cidadão assentado.

A intransitável malha rodoviária escoadora de grãos é mais uma mazela anunciada, resultado da falta de gerenciamento e de planejamento a longo prazo. De que adianta os lavouristas produzirem a maior safra de grãos da história se a indústria não consegue escoar a produção para outros países através de nossos portos sem infraestrutura adequada.

Saindo de Cuiabá, capital do Mato Grosso, maior produtor de soja do País, colhendo 22 milhões de toneladas e, ainda, 13 milhões de toneladas de milho, segui viagem a Barra do Bugres, onde fui obrigado a percorrer pouco mais de 70 km pela BR 163, percurso que faria em, aproximadamente, 40 minutos. Muito ingenuamente havia marcado compromisso contando com um tempo de deslocamento normal, o qual quase triplicou em virtude dos buracos, verdadeiras armadilhas em meio ao asfalto já todo esfarelado, e dos longos comboios de carretas com soja que impossibilitam a ultrapassagem de qualquer motorista com amor a vida.

Já quase chegando ao trevo de Jangada, parei num posto de combustível para tomar um café e comer meu pão de queijo quando resolvi conversar com os motoristas de três caminhões boiadeiros que ali pararam antes de seguir viagem a Cuiabá, onde nossa prosa naturalmente rumou para as péssimas condições da estrada e se havia implicações na indústria de carne. Quase em uníssono responderam que muitos bois deitam durante o trajeto devido aos solavancos sofridos pelas carretas durante o caminho esburacado, onde não é raro haver mortes por pisoteio, além do que os motoristas têm de carregar os bois mais cedo que o previsto, já calculando o atraso para entrega desses no frigorífico.

Dias depois, discutindo a respeito dessa vetusta realidade com um amigo gerente de famoso abatedouro, o mesmo me confirmou que nessa época de safra seus compradores evitam adquirir animais em regiões que dependem de estradas usadas para escoamento dos grãos, pois é muito comum, em cada carreta, se depararem com animais lesionados, que geram perdas significantes à indústria e, consequentemente, a nós, produtores. Como sabemos, a indústria paga pela carcaça limpa e não pelos hematomas, que são descartados para a graxaria. É inaceitável a pecuária ser mais desbastada no Mato Grosso, que já é detentor do pior preço médio da arroba em todo Brasil.

O descaso ignóbil dos nossos governantes pode ser amainado com a reforma e a duplicação dessas estradas ultramovimentadas, ação essa que se torna eficaz quando ocorre a fiscalização das empresas que farão essas obras, além de munir de balanças de checagem em cada início de trecho asfáltico e, assim, moralizar os excessos de carga encontrados a todo momento.

Já se passava das 17h e nenhum veículo motorizado havia cruzado a entrada da fazenda onde aguardávamos ansiosos por uma boa carona. O horizonte se avermelhava no deitar do Sol, quando nossa chance surgiu no poeirame do estradão vestido de preto. Era um caminhão que carregava carvão apinhocado de gente por todo lado, onde tivemos de subir em cima da carga, chegando a Uberaba da mesma cor que o produto carregado.