Feno & Silagem

 

MICOTOXINAS

Problema pode estar na ensilagem mal conduzida

Lucas José Mari

É provável que alguns dos senhores ou senhoras que leem este artigo já tenham produzido sua silagem. Alguns ainda terão a “safrinha”, outros ainda não colheram e poderão levar em consideração algumas informações deste texto.

Fusarium sp. em silagem de milho

Micotoxinas são substâncias tóxicas produzidas por fungos que podem ser encontradas na maior parte dos alimentos destinados ao consumo animal, tais como concentrados, forragens conservadas (silagem, especialmente) e, até mesmo, em pastagens

As micotoxinas podem ser produzidas em qualquer etapa de produção de alimento, desde o campo, até o fornecimento no cocho. A adoção de boas práticas de produção agrícola e, neste caso, boas práticas na ensilagem que auxiliem a redução na contaminação por fungos e, consequentemente, a produção de micotoxinas são interessantes e devem ser consideradas.

Enquanto os fungos que produzem estes compostos tóxicos podem ser controlados com certos tratamentos, as micotoxinas são quimicamente estáveis e é quase impossível destruí-las. Elas resistem à fervura, à pasteurização, ao congelamento, ao tratamento ácido – uma característica da ensilagem –, dentre outras ações químicas ou físicas. Portanto, a prevenção na contaminação de fungos, bem como diminuir seu desenvolvimento, é o ponto chave no combate.

As micotoxinas sempre estiveram presentes nos alimentos, todavia, só mais recentemente se fizeram notar ou foram descobertas. Até hoje já foram catalogadas mais de 300 tipos de destes metabólitos tóxicos produzidos por fungos filamentosos. Há 15 anos os produtores de aves e/ou suínos já iniciaram ações de prevenção e combate e agora se despertou o interesse em combatê-las também na alimentação dos ruminantes.

Os ruminantes são reconhecidamente mais resistentes que os monogástricos no tocante às micotoxicoses, porém, muito se perde na produção de uma maneira geral. Se os fungos e as micotoxinas estiverem presentes, pode ser um inimigo silencioso. Além disso, com o melhoramento genético e a maior demanda de energia para a produção de leite, os animais têm consumido mais alimento, assim, a taxa de passagem da ingesta está mais rápida no rúmen destes animais. Por conseguinte, diminuiu o tempo de ação dos micro-organismos ruminais sobre os alimentos e as micotoxinas.

Para se ter uma ideia, as micotoxinas são medidas em ppm (partes por milhão) ou ppb (partes por bilhão), ou seja, quantidades bastante pequenas, mas com efeitos na saúde do animal e nos produtos originados dele que podem ser graves.

PRINCIPAIS MICOTOXINAS

Um dos principais grupos de micotoxinas e, talvez, o mais conhecida é o das aflatoxinas (AF). Existem alguns tipos delas, como AFB1, AFB2, AFG1, AFG2, que podem ser identificadas nos alimentos ofertados aos animais. Estas aflatoxinas, após serem metabolizadas no fígado, são transformadas nos tipos AFM1 e AFM2, que podem ser transferidas e encontradas no leite de animais que consumam alimento contaminado. Há, inclusive, legislação brasileira para seu limite máximo no leite e este é de 0,5 ppb, traduzindo isso seria 0,5 g de aflatoxina em um milhão de litros de leite. No leite em pó, este limite é de 5 ppb, ou 5 g de aflatoxinas em 1 mil toneladas.

O LAMIC (Laboratório de Análise de Micotoxinas) da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) realizou, em 2008, um levantamento das amostras de leite que chegavam anualmente para serem analisadas para contaminação da AFM1. Os índices variaram conforme a época do ano. No verão foi zero; 5,71% no outono; 10,20% no inverno e 6,80% na primavera.

Estes dados demonstram claramente que, numa época de maior necessidade de fornecimento de alimento no cocho, a maior contaminação da silagem ou do concentrado interfere na transferência de AF para o leite. A taxa de passagem das aflatoxinas do alimento para o leite varia de 1% a 6% e depende de vários fatores, tais como: estatus imune e nutricional dos animais, estádio de lactação, produção diária, raça, dentre outros.

Outra micotoxina bastante importante e que causa prejuízos significativos é a zearalenona (ZEA). Um composto que se assemelha quimicamente ao estrógeno (hormônio feminino). Desta forma, se a ZEA estiver presente nos alimentos, seus resultados no rebanho estão relacionados, principalmente, a problemas reprodutivos, tais como aborto, repetição de cio, edema de úbere em novilhas, retenção de placenta e cistos de ovário, entre outros sintomas. Nos machos o consumo de zearalenona está relacionado à queda na fertilidade e da libido.

Já foi comentado que os ruminantes têm a capacidade de combater certas micotoxinas e isso é função, principalmente, dos micro-organismos ruminais. Contudo, para a ZEA isso não ocorre e a flora ruminal a converte em uma substância muito mais prejudicial que a própria molécula original, potencializando seu efeito estrogênico.

Existem outra micotoxina chamada deoxinivalenol (DON) ou mais conhecida como vomitoxina. A DON compromete a saúde dos microrganismos no interior do rúmen e do animal como um todo, comprometendo, por sua vez, a digestão e o desempenho dos animais. Todos sabem da importância de um bom funcionamento do rúmen e de uma população equilibrada de micro-organismos ruminais, pois o órgão é o “motor” dos ruminantes e se algo prejudica o bom funcionamento, as consequências poderão ser a menor produção de leite, carne ou queda no desempenho e resposta animal.

Ainda há a fumonisina (FB1 e FB2), que, apesar de ter sido descoberta recentemente (1988), tem efeito e incidência comprovada em alguns alimentos, principalmente nos fermentados, como silagens. Esta micotoxina é especialmente tóxica para equinos. As fumonisinas, quando ingeridas por estes animais, podem causar leucoencefalomalácia.

INCIDÊNCIA DE MICOTOXINAS

A equipe do Prof. Patrick Schmidt, da UFPR, realizou uma, até então inédita, pesquisa de campo buscando avaliar a prevalência de micotoxinas em silagens de milho em cinco bacias leiteiras no Brasil, percorrendo 109 propriedades nas diversas regiões: Castro e Toledo, no Paraná; sudeste de Goiás: sul de Minas Gerais e oeste de Santa Catarina. Os dados deste levantamento são apresentados na tabela a seguir.

Pode-se verificar na análise que a micotoxina de maior incidência verificada no estudo foi a ZEA, presente em quase 73% das amostras, seguida de FB1 (48,6%), DON (33,6%) e FB2 (25,1%). OCRA e AFB1 representaram menos de 10% das amostras contaminadas.

BOAS PRÁTICAS DE ENSILAGEM

A adoção de boas práticas de ensilagem pode contribuir para a prevenção da contaminação fúngica e a diminuição da produção de micotoxinas. Estas práticas são ações que vão desde o campo até o fornecimento da silagem para os animais, justamente tentando cobrir todas as possibilidades de produção da toxina.

Vale lembrar que nem mesmo a adoção destas práticas descartaria completamente a possibilidade de produção de micotoxinas, entretanto elas são importantes para diminuir as chances.

São elas:

• Escolha variedades ou híbridos adaptados à região e resistentes a fungos;

• Controle de ervas daninhas e pragas;

• Aplique fungicidas e pesticidas, quando necessários;

• Promova rotação de culturas;

• Conduza a fertilização conforme indicação de profissional habilitado;

• Colha no momento ideal para a cultura;

• Colhedoras bem ajustadas para evitar acamamento;

• Utilização de inoculante bacteriano que produza ácidos com poder antifúngico (Lactobacillus buchneri e Propionibacterium acidipropionici);

• Enchimento rápido do silo, entretanto, com compactação efetiva (densidade superior a 600 kg/m3);

• Vedação apropriada da massa ensilada com lonas de qualidade;

• Manejo adequado do silo para minimizar deterioração pós-abertura.

No tocante aos inoculantes microbianos, alguns já têm efeitos comprovados no controle de fungos e leveduras após a abertura do silo e a exposição da massa ensilada ao oxigênio. Estudo com silagem de milho (com 32% de teor de matéria seca) inoculada com uma associação contendo Propionibacterium acidipropionici e Lactobacillus plantarum apresentou menor crescimento de fungos e leveduras após a abertura do silo, quando comparado ao grupo controle, sem o emprego destes inoculantes, o qual acarretou um crescimento exponencial de fungos e leveduras.

As micotoxinas têm despertado o interesse também na saúde e na nutrição de ruminantes. Como sempre já diz o conhecido ditado: “É melhor prevenir que remediar”. Isso também se aplica neste caso.

A adoção de técnicas de boas práticas na ensilagem poderá diminuir a contaminação por fungos. Na ensilagem propriamente dita, a prevenção da deterioração aeróbia tem demonstrado bons resultados no controle do desenvolvimento de fungos e, consequentemente, da produção de micotoxinas.

*Lucas José é médico-veterinário, doutor em “Ciência Animal e Pastagens” pela USP/ESALQ e gerente de Probióticos da Lallemand Animal Nutrition


SILAGE SCHOOL REÚNE INTERESSADOS NA CONSERVAÇÃO DE FORRAGEIRAS

O conceito do programa da Lallemand Brasil chamado Silage School (Escola da Silagem, em inglês) remonta ao ano de 2008, na França, quando da primeira edição do projeto. No Brasil, o primeiro evento técnico foi organizado em 2010, seguido de uma série de outros regionais. Em 2012, foram organizados mais dois eventos técnicos, um em Chapecó/SC e outro em Goiânia/GO, e mais de uma dúzia de workshops regionais.

O Prof. Dr. Clóves Cabreira Jobim (UEM) apresentou palestra intitulada “Novidades nas pesquisas sobre silagens de grãos úmidos”; o Prof. Dr. Mikael Neumann (UNICENTRO) tratou da “Escolha de híbridos de milho para silagem” e o Prof. Dr. Patrick Schmidt (UFPR) abordou a “Atualização em produção de silagens de alta qualidade” e a “Atualização em cana-de-açúcar in natura e ensilada”. Ele também apontou a necessidade de se usar apenas o inoculante Lactobacillus buchneri em silagens de cana-de-açúcar. Além destes especialistas, a equipe técnica da Lallemand Animal Nutrition, promotora do evento, apresentou dados de realidades de diversos países, como Estados Unidos, Reino Unido e França.

O Silage School levou a conclusões bastante esclarecedoras sobre o panorama do processo de ensilagem no Brasil, como ao identificar que 45% dos produtores visitados em 40 propriedades no Sul do País não recebem qualquer tipo de assistência técnica para confecção de silagem. Também apresentou tecnologias ainda inovadoras no Brasil, caso do software CSI (Corn Silage Investigation ou Investigação da Silagem de Milho), que monitora aspectos importantes das boas práticas na ensilagem, e de uma câmera que fotografa radiação infravermelha, expondo os pontos em que a silagem esteja aquecida.