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Mais precisão na SUPLEMENTAÇÃO

Mineralização eficiente transcende o fornecimento de sal no cocho

Luiz H. Pitombo

De um “remédio” para doenças carenciais do rebanho, como a mineralização chegou a ser considerada no passado pelos menos avisados, sua utilização se ampliou como suplemento nutricional e sofisticou-se estrategicamente. A adição de fontes de proteína, energia e aditivos provocou quase uma revolução no setor. Ganharam os animais e o pecuarista, com as melhores taxas de prenhez e do desenvolvimento do rebanho, além da própria cadeia de produção, ao contar com uma maior oferta de carne, e os consumidores com a qualidade influenciada pela precocidade.

Mas ainda há muito que aprimorar, principalmente na parcela de produtores que pensa e age nos velhos moldes, como avaliam pesquisadores e técnicos de empresas do setor de nutrição animal. Dentre as limitações que por vezes persistem na adesão à suplementação mineral, está o desconhecimento de que esta não traga resultados adequados se o rebanho estiver sem os cuidados sanitários essenciais ou subnutrido. Também existem os que não mantêm regularidade no fornecimento nem procuram adequar as formulações a cada categoria animal. Pode também faltar uma boa logística para a distribuição do produto entre os piquetes, bem como o estabelecimento de uma rotina para estimativa do consumo, registro dos custos e do desempenho dos animais.

O médico-veterinário Júlio Barcellos, do departamento de Zootecnia da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), indica algumas premissas básicas para o estabelecimento de um adequado programa de suplementação mineral. Primeiro, se deve conhecer a composição média da pastagem, a categoria a ser suplementada e a expectativa do desempenho. “Quanto maior o ganho de peso que se espera, maiores são as necessidades minerais e a mistura para atender a este objetivo”, explica Barcellos, que também é responsável por convênio de consultoria entre a UFRGS e a empresa gaúcha da área de nutrição animal Azevedo Bento. A esses aspectos acrescenta a necessidade de se conhecer os custos envolvidos e a operacionalidade.

Quando do planejamento e da execução, uma das questões que pode dificultar, como lembra o veterinário, é a existência de muitas categorias no rebanho com demanda por diversas formulações. Assim, para aqueles que ainda não têm uma cultura de suplementação consolidada na fazenda, orienta dividir o processo em três etapas: uma para animais em cria e recria, outra para animais adultos em manutenção ou engorda e, a terceira, o uso do proteinado - associado a um mínimo de matéria seca -, conforme a época do ano, como já acontece nos projetos mais profissionais. Após o domínio dessas situações é que Barcellos sugere ajustes mais rebuscados.

O veterinário considera que a disponibilidade de cochos adequados ainda é um fator limitante. “Um cocho de boa qualidade, coberto, com acesso dos dois lados, que evite perdas e desperdícios se paga em dois anos”, afirma. Estes podem ser fixos ou móveis, se o solo acumular água e lama, e devem estar localizados nos locais preferidos pelos animais, como aguadas e sombras. Para as misturas minerais convencionais, sugere que seja reservado o equivalente a 5 cm/cab no cocho, enquanto que para as misturas múltiplas, como os proteinados, o espaço suba para 10 cm/cab, ou até 15 cm/cab, quando o consumo fique acima de 0,1% do peso vivo.

A reposição do sal nos cochos, como recomenda, deve ser no mínimo a cada 15 dias, o que depende muito do tipo de cocho e da logística da fazenda. Manter a mistura nova e seca facilita o consumo regular. Barcellos admite que são muitos os aspectos que interferem na ingestão do mineral pelos animais, mas um indicativo é a quantidade de palatabilizante e de cloreto de sódio colocado no produto. Como referência, diz que um bovino adulto de 400 kg consome, no máximo, 19g/dia deste último mineral. Desta forma, para se fazer um cálculo prático, basta dividir 19.000 pelo teor de sódio na mistura, que é informado no rótulo. Caso a mistura contenha 100 gramas de sódio por kg de produto, o consumo diário será de 190g do suplemento (19.000/100 =190).

Quanto às possíveis peculiaridades da suplementação para a região Sul do País, comenta que os pastos existentes são mais ricos em minerais do que aqueles de regiões tropicais e que também são mais rasteiros e com menos massa. Assim, o uso dos proteinados deve ser planejado com antecedência para acúmulo de forragem suficiente para uso no inverno. Ele também considera que o pecuarista deva buscar formulações ajustadas à realidade regional, possivelmente com menos fósforo, pouco magnésio e sem ferro, com base nas características do solo e das forrageiras.

SUPLEMENTAÇÃO DE PRECISÃO

O zootecnista Fernando José Schalch Júnior, gerente técnico da empresa Minerthal, lista algumas limitações importantes que tem percebido nas fazendas. Ele cita, por exemplo, que existem pecuaristas que se deixam influenciar pelo momento da pecuária e, quando as coisas não andam bem, os investimentos simplesmente caem e as falhas na mineralização começam a acontecer. “A maior dificuldade é não medir”, aponta o zootecnista. É preciso conhecer o custo/benefício, ou seja, saber o consumo por animal e o valor do suplemento. Também é necessário medir os resultados como ganho de peso e peso à desmama. Contudo, diz que são muitas as propriedades que não possuem balança, estação de monta, controle de estoque/fornecimento de suplemento, estruturas e ações que são fundamentais para identificar e corrigir falhas.

Para Júlio Barcellos,quanto maior o ganho de peso que se espera, maiores as necessidades minerais e de misturas

A mensuração e seu registro devem ser realizados de acordo com a capacidade da fazenda, como sugere, que pode ser através da utilização de um software para controle de inventário ou até uma simples caderneta de anotações. Neste contexto, enfatiza que é preciso se ter segurança nas informações da quantidade fornecida, do volume de animais e do manejo do pasto utilizado. A empresa onde atua tem trabalhado nessa área utilizando um conceito que foi chamado de “suplementação de precisão”, justamente com foco na gestão e nos resultados econômicos.

Schalch Júnior ressalta que em termos dos minerais nem sempre um maior volume é o melhor, pois alerta que isso pode levar intoxicação aos animais e ao meio ambiente, além de desperdício. Com o fósforo, por exemplo, que tem um custo na suplementação ao redor de R$ 0,02/g do produto, caso seja fornecido sem necessidade 1g de fósforo a mais por dia para um rebanho de 1.000 animais, os prejuízos serão de R$ 7.300/ano e o ambiente ficará contaminado.

O gerente técnico se mostra favorável ao uso dos aditivos zootécnicos (monensina sódica, virginiamicina, etc..) associados à suplementação mineral. Ele comenta que existe a possibilidade de um incremento no ganho de peso em torno de 90g/animal/dia, ou de aproximadamente R$ 0,30 animal (arroba a R$ 90,00 com 50% de rendimento de carcaça). Como o investimento numa dose de aditivo fica ao redor de R$ 0,05 animal/ dia, além da suplementação mineral convencional (R$ 0,08/dia por animal de 360kg/dia), a margem fica próxima a R$ 0,17 animal/dia.

Ao comentar sobre as necessidades das diferentes categorias animais, Schalch Júnior dá especial atenção às matrizes, que qualifica como as grandes consumidoras de suplemento mineral, responsáveis por “exportar” o fósforo - importante nutriente e limitante para produção - e demais minerais da fazenda. Isso porque “utiliza os recursos para manutenção, reprodução e produção de leite para alimentação dos filhos e, com isso, grande parte dos nutrientes ingeridos é destinado aos bezerros, que vão embora da fazenda”, justifica.

Especial atenção deve ser dada para as primíparas, como recomenda, pois estes animais estão em desenvolvimento, precisam produzir leite, criar o bezerro e iniciar uma nova gestação. A correta suplementação dessa categoria significa aumento na taxa de desmame e, potencialmente, um maior peso dos bezerros desmamados.

Fernando Schalch acredita que a dificuldade do pecuarista em medir prejudica ganhos com a mineralização

EXIGÊNCIAS DIFERENCIADAS

O engenheiro-agrônomo Rubem Frosi, gerente técnico para ruminantes da Alisul Alimentos/Supra, também considera que já se atingiu um nível tecnologicamente adequado em boa parte das propriedades rurais, “mas temos contrastes importantes pelo País”, reconhece. Uma questão que aponta são produtores que misturam o cloreto de sódio (sal comum) aos produtos já prontos, o que acaba por diluir os nutrientes presentes, prejudicando o efeito.

O gerente técnico comenta que a mineralização mais eficiente é aquela realizada com o fornecimento dos suplementos minerais. Porém, diz que também é possível, indiretamente, somar o processo de mineralização à adubação dos pastos e da correção do pH do solo. “Os efeitos são limitados para alguns elementos minerais, mas bastante válidos em se falando do elemento de maior deficiência, normalmente o fósforo”, explica.

Ele cita outra forma existente de mineralização, que é aquela realizada por meio de blocos minerais, que já existem no mercado brasileiro e facilitam o manejo, segundo avalia. Estes podem ser tanto produtos unicamente da linha branca (sem grãos ou farelos), como proteinados e energéticos.

Segundo Rubem Frosi, o País apresenta contrastes importantes quando o assunto é suplementação

Sobre as necessidades mais específicas das várias categorias, Frosi diz que os bezerros, enquanto mamam, têm suas necessidades minerais e vitamínicas atendidas pelo leite materno. No entanto, diz que existem benefícios ao se fornecer suplementação mineral já nessa etapa com grãos, pois assim ele se torna um ruminante mais cedo. “Os cereais, ao serem ingeridos, aceleram, a partir da fermentação do amido, o desenvolvimento da função digestiva típica do ruminante”, explica. Ele aponta que os produtos destinados a esta fase já podem ser beneficiados com a presença de aditivos como ionóforos ou probióticos, como também para os bezerros desmamados. Nesta etapa, diz que os bezerros necessitam consumir minerais mais ricos em fósforo e bons níveis de zinco, cobre, iodo e cobalto, especialmente. As características dos suplementos minerais para esta categoria, como para as demais, devem levar em conta o consumo e as forrageiras disponíveis.

Um programa de mineralização para novilhos e novilhas segue princípios Segundo Rubem Frosi, o País apresenta contrastes importantes quando o assunto é suplementação Fernando Schalch acredita que a dificuldade do pecuarista em medir prejudica ganhos com a mineralização REVISTA AG - 17 similares, como lembra o agrônomo. O produto deve ser rico em fósforo e equilibrado nos demais nutrientes e pode conter ionóforos, como no caso da engorda.

Cocho adequado melhora a eficiência dos suplementos minerais

Frosi aponta que, apesar de ser usual no Brasil, a indicação de suplementos minerais na engorda com concentrações de 40-45 gramas de fósforo por quilo de produto, existem recomendações científicas para que suplementos para animais em pastejo contenham mais fósforo, de 60-80 e até 80-100 gramas/kg, dependendo do pasto. A razão que indica para isso é que, além dos solos tropicais e subtropicais serem em geral pobres neste elemento, as taxas de ganho de peso têm sido mais altas do que no passado, resultantes de melhorias nos pastos, na genética e nas práticas de manejo e sanidade. “A demanda por fósforo é crescente com o nível de produção”, aponta.

No caso de terminação em confinamento ou em semiconfinamento, com os animais consumindo silagem de milho e/ ou quantidades expressivas de grãos ou ração, a necessidade de suplementação mineral tem outro perfil: o nível de cálcio passa a ser mais importante do que o de fósforo e os aditivos podem ser mais decisivos do que os elementos minerais. Animais que consomem principalmente forragens conservadas e alta proporção de grãos necessitam de suplementação de vitaminas A e E, diferentemente do que ocorre para animais consumindo pastos verdes.

As vacas e novilhas prenhez, assim como as fêmeas com cria ao pé, como lembra Frosi, também precisam de produtos ricos em fósforo, mas salienta a importância de uma avaliação do consumo frente às necessidades nutricionais para cada fase. As primíparas, nos primeiros 90 dias de lactação, por exemplo, são muito mais exigentes do que vacas multíparas sem bezerro ao pé, prenhes, no terço médio da gestação. Estas, por sua vez, quando entrarem na mesma fase da gestação, têm as necessidades nutricionais aumentadas em muito.

Numa avaliação sobre a atuação dos técnicos e das universidades neste setor, o médico-veterinário Newton Teodoro, gerente de produtos para ruminantes da Evialis, considera que os consultores em nutrição animal têm feito um excelente trabalho de difusão, não só da suplementação mineral básica, mas, principalmente, das suplementações estratégicas. As universidades e os órgãos de pesquisas conseguiram, como aponta, se aproximar muito dos produtores e de suas propriedades nos últimos anos, permitindo que os futuros profissionais e os pesquisadores desenvolvam estudos e pesquisas que trazem resultados positivos.

Outros profissionais da indústria também fazem uma avaliação positiva sobre a atuação de técnicos e da universidade. Contudo, há quem faça a ressalva de que poderia haver mais pessoas e grupos de pesquisa especializados em nutrição mineral.